Ana Maria Battaglin

Psicóloga formada pela PUC/SP, professora, trabalha como psicóloga clínica dentro de uma orientação junguiana

Diálogo entre a alma e o cinema

Diálogo entre a alma e o cinema

As perguntas "De onde viemos?", "Quem somos?", "Para onde vamos?", que sempre intrigaram o ser humano, têm hoje maiores possibilidades de respostas científicas. Parafraseio Hubert Reeves, astrofísico canadense: 'Somos parte de uma aventura de 15 bilhões de anos, que liga o universo, a vida e o homem numa linha evolutiva que segue do caos para o organizado, do simples para o complexo. Cada um de nós é composto - como, aliás, todos os demais elementos da criação  por partículas elementares gerada s no início dos tempos: de certa forma somos todos poeira de estrelas. Concomitantemente, o bebê, enquanto no ventre de sua mãe, reproduz, em seu desenvolvimento, todo o processo da evolução animal.' Esses fatos levam à indagação: será que carregamos em nós a memória do universo? C.G.Jung, baseado em vivências, trabalhos, estudos e pesquisas e enraizado numa tradição que, no ocidente, tem em Platão um de seus precursores, responde sim a essa questão. Sua obra, juntamente com a desenvolvida pela psicologia do inconsciente, aprofunda essa perspectiva e suas consequências.

E acrescenta que o homem ocidental está desenraizado, separado de suas fontes e que, em decorrência, ele e nossa civilização estão doentes. Causas e sintomas dessa situação são a exclusiva valorização do pensamento racional e de aspectos materiais da exist ência, a supremacia do ego e de seus desejos, a desconsideração e o afastamento em relação à sua própria psique e ao outro. Embora a definição ou noção de alma possam ser vagas, sua existência é fundamental: é o contato com ela que nos abre para a interioridade, que nos permite o mergulho no mistério que é cada ser humano, que nos possibilita a vivência da alegria que trazem respirar e estar vivo.

 

Ao se afastar de sua alma, ao não cultivá-la, o ser humano distancia-se de si mesmo, desconsidera o outro; perdido, não estabelece relação de intimidade nem consigo, nem com ninguém e vive num isolamento aprisionante. Fernando Pessoa sintetiza poeticamente essa realidade: "Há tanta distância entre nós e nós mesmos como entre nós e os outros." Realidade de distanciamento que se acentua nas civilizações atuais, voltadas ao consumo, ao espetáculo, onde a privacidade é desconsiderada e que têm na valorização do dinheiro e da aparência, na superficialidade e na propaganda características e seu foco.

 

Sabemos que é a capacidade de diálogo que renova o mundo: diálogo com o desconhecido que habita em nós, diálogo com o outro que existe fora, diálogo com o próprio mundo. Nossa proposta é que usemos um produto típico e marcante de nossa civilização, o cinema dito de entretenimento, e deixemos que nossas almas dialoguem com ele. E que, através desses diálogos, possamos concretizar a possibilidade de nos aprofundarmos em nós mesmos ao mesmo tempo em que nos abrimos para o outro e para o mundo; que saiamos de perspectivas que, de tão dominantes, parecem fatos e transformam a velhice numa estrada sombria, ligada basicamente a decrepitude, doenças e morte.

Conseguiremos sair de idéias, conceitos, opiniões e análises coletivas para um caminho individual de diálogo com imagens e sentimentos nossos e dos filmes? Não sabemos, mas é essa nossa proposta e nosso desafio.