“… no guarda roupa escolheria um vestido e usaria para me tornar extremamente atraente” 

Clarice Lispector

(*) Suely Tonarque

Imagine uma cena em que um homem nu é observado por um gato… Esse homem se sente constrangido pelo olhar do gato, por mirar seu tronco, seu sexo. Mas por que sente vergonha, se sente pudico? Percebe-se nu, diante de um animal que não está nu?

A reflexão segue levando em conta que o homem está nu e não o gato. Mas o gato não está nu, pois ele é nu por natureza. É o homem que tem consciência da sua nudez. Vamos lembrar do episódio bíblico: o homem vivia nu no paraíso, junto dos demais animais, à medida em que Eva come do fruto proibido, sua consciência aflora, e ele se vê “inacabado”. Ele, o homem, é um processo em constante transformação, “uma metamorfose ambulante”, como na música Raul Seixas.

Ele sente pois, vergonha de sua nudez, distingue o bem e o mal e ainda, sabe-se mortal. A vestimenta surge na vida do homem para cobrir sua nudez, protegê-lo da fragilidade humana frente às intempéries, à natureza selvagem e à luta com outros animais.*

 A vestimenta distingue-o dos animais, mas com a corrida do tempo, simbolicamente também vai hierarquizar os homens entre si:  a vestimenta em cada época denuncia sua classe social, seu gênero, sua terra de origem, sua ideologia e outras diferenças.

*Reflexão a partir do livro do filósofo Jacques Derrida “O animal que logo sou”, 2002.

Uma amiga, cuja avó fora escrava, conta que, ainda no início da República, se uma escrava ganhasse um vestido usado da “patroinha”, só podia usá-lo se o transformasse: encurtava-o, cortava os babados ou as mangas, de forma a não parecer roubado.

 Cada pessoa, no seu espaço social, conforme a vestimenta que usava!

A história do nosso vestir com os desafios do envelhecimento está associada à nossa existência e às nossas escolhas. As mudanças ocorrem, surgem os cabelos brancos, as transformações do corpo e as rugas, além das inúmeras perdas afetivas. 

Atualmente são muitas as opções para cobrir o nosso corpo que envelheceu, ou está no processo do envelhecer, a cada momento da vida. É como diz Simone de Beauvoir,  um corpo que não se expõe, geralmente visto sem beleza, sem a luminosidade, a maciez e o perfume. Enfim, sem a atração e o chamado de um corpo jovem. Em seu livro “A velhice – a realidade incômoda”, a autora comenta o seu desabafo de mulher que envelhece.

“A aparência de nosso corpo e do nosso rosto nos fornece informações mais seguras. Como contrasta com a dos nossos 20 anos! Só que essa transformação é gradual, mal nos damos conta delas”

Busca-se cada vez mais as cores preferidas – “com o azul fico mais jovem – por que você gosta tanto do preto? – as estampas são minhas escolhas prediletas!”

Azul, amarelo, verde, laranja, coral, com flores, com pássaros, bichos: enfim uma variedade de “motivos” esculpidos para tornar mais atraente a mensagem.

Em relação aos modelos, os favoritos, nesta lógica do anseio pela “eterna juventude”, são os que nos deixam também mais jovens. “- Está muito apertado, largo, comprido, curto, busca de uma manga constante (devido aos braços gordos/ pele sobrando) entre outras reclamações.

 Seguindo este mesmo raciocínio e referindo-se aos tecidos, as escolhas em geral vêm de encontro às experiências da juventude. E surge a fala recorrente: “– na minha juventude usava o tergal, o algodão, o linho… hoje os tecidos não são 100%  puros, pois as fibras naturais estão  sendo substituídas pelos tecidos sintéticos.”

Lembro que minha mãe e minhas tias (todas falecidas) não tinham o hábito de usarem calças compridas, e quando íamos para praia todas usavam maiôs (mesmo com 40 e 50 anos de idade não usavam biquinis), entre as décadas de 60 e 70. Atualmente, mesmo com a proibição dos banhos de mar devido à covid-19, mulheres de 80/90 usam biquinis e, se observarmos de perto, confundem-se com fios dental.

Como diz Giorgio Agamben no livro ”O que é o contemporâneo? E outros ensaios”, 2008:

“ – mas o que vê e quem vê o seu tempo, o sorriso demente do seu século?   Gostaria de lhe propor uma segunda definição da contemporaneidade: contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro. Todos os tempos são, para quem deles experimenta a contemporaneidade, obscuros”

Consigo resgatar vagamente na memória, com flashs ambíguos e confusos, o real do cenário do banho no mar, de minha mãe e tias, relatando o escuro e a luz das vestimentas, mas dessa época.

Peço licença, para Clarice Lispector, para terminar meu texto, sobre o vestir, com a continuidade das suas palavras, ao iniciar esta conversa:

“…agora pronta, vestida o mais bonito, quanto poderia chegar a sê-lo, vinha novamente a dúvida de ir ou não, ao encontro” (Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres)

  (*) Suely Tonarque é integrante do Grupo de Reflexões do Ideac, é gerontóloga e especialista em moda com foco no envelhecer