Sueli Tornaque (*)

Prometi, para mim mesma, que na cerimônia de Natal vamos todos falar daquilo que aconteceu de bom e nos envolveu em 2020. Penso em fazer isso porque foi um ano tão atípico que precisamos cavoucar muito fundo, filtrar todos os acontecimentos e passá-los por uma peneira mágica para extraí-lo como pedra preciosa que se esconde nas margens profundas de um rio. Na paisagem brasileira nenhum ano registrou, como esse, falência econômica, sanitária, social, cultural e outros desastres que nos afundam a olhos vistos para uma situação calamitosa.

Debruçando-me sobre o livro “Avesso das Coisas” de Carlos Drummond de Andrade, apreendo a seguinte riqueza:

“Assim como os antigos moralistas escreviam máximas, deu-me vontade de escrever o que se poderia chamar de mínimas, ou seja, alguma coisa que, ajustada às limitações do meu engenho, traduzidas como um tipo de experiência vivida, que não chega a alcançar a sabedoria mas que, de qualquer modo, é resultado de viver”.

Não se passa pelo viver, se vive. A experiência é algo que nos toca, ressoa dentro de nós, difícil de comunicar aos outros. Como estamos em um mundo de muitas informações, nos faltam experiências.

O ano de 2020 acaba no calendário que usamos e fica o registro das experiências únicas, guardadas, bordadas em nosso coração e mente. Quantas singularidades e quantas diversidades no tudo junto, misturado com distanciamento de dois metros na padaria, no supermercado, na farmácia, no açougue; nos vigiando (a si e ao outro) com medo da Covid-19.

Lembro que no início de março deste ano, fechei a loja de roupas “Vila dos Louros” que eu e minha irmã Duda empreendíamos. Ela estava em Aiuruoca, em Minas Gerais, e com a pandemia resolveu lá ficar. Encontro-me então, sozinha. Um dia, precisando ir até à farmácia (mês de abril), vou devagar, assustada, ruas vazias. Quando entro na drogaria, uma moça simpática, pergunta o que eu estava fazendo ali sozinha, que isto era proibido para pessoas de riscos. “Onde está seu neto, seu filho, sua cuidadora?”, dizia ela cautelosa, mas aflita.

Ha, ha, ha! Dou risada e confesso que não tenho nenhum desses auxiliares. A moça, que se apresenta como médica, oferece um cartão, com seu celular (descubro que somos vizinhas de rua) e me diz que, caso eu precisasse poderia chamá-la. – “Dou plantão no Hospital Einstein, apenas de segunda feira. Nos demais dias da semana, posso ajudá-la”.

Esta foi uma das muitas gentilezas que recebi neste entrar em contato com meu avesso para compreender o meu direito, como diz Drummond. E nem tudo é solidão. Desenvolvi neste período, a habilidade de usar a ferramenta Zoom (um aplicativo de comunicação) para participar de várias lives com minhas amigas. Antes da pandemia nem sabia da existência dessa e de outras possibilidades tecnológicas.

No começo, claro, havia uma demora, uma dificuldade minha e de todos os participantes: o som mantinha-se desligado, a imagem ficava ausente ou só conseguíamos participar pelo celular, e não pelo computador. Hoje, encerrando 2020, com todo medo e receio, fomos adquirindo prática e estamos evoluindo, ampliando conceitos, habilidades e atitudes relacionadas ao uso do computador.

Enfim, o que de fato aprendemos com muita dor, foi lidar com o novo, vários novos que já moravam dentro da gente e que devagar fomos descobrindo suas existências. Imagino que estavam apenas dormindo ou descansando, que aos poucos foram se desenhando, configurando e se formatando ao nosso novo jeito de viver, de se acomodar e enfrentar os desafios.

Às vezes esquecia das coisas, como por exemplo, qual o dia da semana, a hora, o mês, entre outros, uma tristeza só. Quando você começa a esquecer as coisas – não estou falando de Alzheimer, só da consequência previsível do envelhecimento – há maneiras diferentes de reagir, como escreve Julian Barnes, no livro “O sentido de um fim”. O confinamento de nove meses que estamos vivendo até agora, mostra nosso avesso e nos faz vivenciar essa experiência dolorosa da Covid-19

O Natal está chegando e desejo para todos que me acompanham nesta coluna: saúde, paciência, esperança e o breve aparecimento de uma vacina segura e eficaz. Sonhos e projetos que se concretizem, alegria no nosso dia a dia, acreditar que é possível existir com as demais pessoas do mundo, com muita dignidade e amor.

(*) Suely Tonarque é gerontóloga, especialista em moda no envelhecer e integrante do Grupo de Reflexões do Ideac.