Lucy de Araújo

Pedagoga pelas Faculdades Metropolitanas Unidas, com especialização
em Orientação Educacional e Orientação Pedagógica. Fundadora da Oficina de Arte Adelaide Araújo, da Associação Brasil Parkinson, onde presta trabalhos voluntaries.

A maturidade e a arte

Dançar faz bem no envelhecer

Biografia

A maturidade e a arte

Meu nome é Lucy de Araújo. Adoro fazer arte. Sou a arteira do nosso grupo de estudos do IDEAC! Sou pedagoga e, após 31 anos de trabalho em instituição bancária, aposentei-me e graças a Deus descobri a Arte. Assim, sou artista plástica há 15 anos. Com essa descoberta em minha vida, criei novo registro para me comunicar com as pessoas, me realizar, orgulhar-me e criar planos para o futuro. Nosso lado artístico, todos nós o temos, ajuda-nos a enfrentar temores e solidão. A Arte é companheira. Passo horas esquecidas, pintando e me realizando com minha produção. Com a nova atividade também fiz amigos, e surgiram oportunidades inesperadas em minha vida, como relato a seguir.

 

Trabalho na Associação Brasil Parkinson há dez anos, Coordeno a Oficina de Arte Adelaide Araújo, que passou a se chamar assim desde dezembro de 2002, uma homenagem a minha mãe, inspiradora da primeira atividade implantada em sua sede. (Para os interessados, o site da Associação é www.parkinson.org.br – Tel./Fax: 11-2578-8177. Graças ao amor à Arte e às habilidades que fui adquirindo nos meus cursos e atividades, junto com o que eu tinha vivenciado e ainda estava vivenciando, dentro de casa, com minha mãe, que era parkinsoniana, pude implantar um trabalho voluntário na Associação Brasil Parkinson, como uma atividade prazerosa, exercitando os canais sensoriais e proporcionando bem estar aos parkinsonianos. Usando os recursos sadios do doente, essa atividade busca conservar sua saúde mental, envolvendo também a família. Além da atividade regular de todas as quintas-feiras à tarde, onde fazemos pinturas e desenhos, a Oficina de Arte Adelaide Araújo, promove: – Passeios a museus, como Pinacoteca e MASP, com os objetivos de valorizar a Arte e comprovar a sua utilização, por renomados artistas, como recurso de expressar percepção e sensibilidade. – Exposições de Arte – Até o primeiro semestre de 2006 foram montadas sete, com mais de cem obras expostas em cada uma delas. A venda das obras reverte na compra de novo material para consumo, permitindo que a Oficina de Arte Adelaide Araújo seja auto suficiente.

 

Na sexta exposição, ocasião que comemoramos os dez anos de existência da Oficina de Arte e vinte de fundação da Associação Brasil Parkinson, inauguramos um Painel Comemorativo, instalado na frente do prédio, composto com 120 azulejos, pintados pelos associados. Na placa desse painel consta lista de nomes dos artistas portadores da Doença de Parkinson e os seguintes dizeres: "PAINEL COMEMORATIVO. Este painel congrega a energia produtiva de cada um de nós. Sua realização só foi possível graças ao incentivo do Presidente e da Diretoria da Associação Brasil Parkinson. Contamos com a participação e empenho dos familiares, das voluntárias dos funcionários e principalmente dos portadores da Doença de Parkinson. Aqui está inscrita uma página da história de cada participante, e da Associação à qual orgulhosamente pertencemos. Deixamos como exemplo de trabalho e perseverança a construção de uma Obra de Arte. Mostramos a quem o contemplar que temos muita beleza, alegria e vida a oferecer. São Paulo, 26 de novembro de 2005" – Tarde dançante, com brincadeiras, muito riso, bolo e parabéns para os aniversariantes. – Bingo, com prendas doadas pelos participantes ou produzidas na Oficina de Arte e comemoração dos aniversários. A atividade voluntária, que a Arte me deu de presente, tem me proporcionado muitas alegrias e reconhecimentos; acredito até que mais sinceros ou mais profundos do que os que obtive quando era assalariada.

 

Fico sensibilizada ao perceber a satisfação no olhar de um Doente de Parkinson ao ver seu quadro pronto e exposto, servindo de decoração em congressos, sendo observado e criticado, vendido, presenteado, etc. É gratificante saber que empresas procuram prestigiar a Oficina de Arte Adelaide Araújo, com compra de quadros e patrocínio. Em nossas atividades, há um clima de colaboração, amigável e descontraído, o que estimula e envaidece a mim e às outras voluntárias da Oficina de Arte.

 

Numa palavra, recebo uma enorme retribuição afetiva pelo meu trabalho. Como artista, além das atividades na Associação Brasil Parkinson, passei a frequentar cursos de História da Arte, e a buscar agrupar-me com outros pintores, trocando experiências e observando os trabalhos realizados pelos colegas. Assim, fui à Veneza, pintar com aquarela em ateliê e ao ar livre. Participei de algumas exposições coletivas e individual, e chequei a ganhar prêmios. Também derivei para a música: frequento regularmente os concertos da Sala São Paulo e integro o coral do Clube Paulistano. São atividades prazerosas que me alimentam a alma. Participo do Grupo de Profissionais para Estudos e Reflexões sobre a Maturidade, do IDEAC – Instituto para o Desenvolvimento Educacional, Artístico e Científico (www.ideac.com.br). Suas reuniões semanais, que frequento desde 2001, me fortalecem e amparam no conhecimento e aperfeiçoamento. Todas essas são atividades que me enchem de satisfação e tornam a minha vida produtiva. Na maturidade, é imprescindível gostar do que se faz: agora é a hora de ser feliz e sentir-se livre. É importante ter presente que a saúde mental e física dependem da harmonia de se viver bem cada momento e de não se perder contato com nosso interior. Orgulhar-se de sua estória: essa é chave de uma maturidade plena! Você, que está na maturidade, junte-se a nós, tenha orgulho da sua idade!

 

 

Dançar faz bem no envelhecer

Acredito que já está fazendo três anos que uma amiga me convidou para ir uma tarde dançar em um Baile, segundo ela, de terceira idade. Bom para mim que encontrava-me com 66 anos. Era feriado de 15 de novembro, o Salão era em um Clube do Ipiranga, grande, bem cuidado... com uma Banda tocando ao vivo. Claro, DANÇA DE SALÃO. A primeira impressão que tive foi boa, restava saber se algum cavalheiro me convidaria para dançar... A música era sugestiva... Minha amiga logo saiu para dançar e eu NADA... Não era conhecida... Lá pelas tantas... dancei, com um senhor que não era dos melhores dançarinos... mas, para começar estava bom, fiquei feliz em poder arrastar os pés. Tem isso, o começo é difícil, tem que ter paciência e perseverança. Assim, fui a cada nova oportunidade frequentando os Bailes de Terceira Idade, a principio não foram muitos. Mas, fui tomando gosto... Até que criei coragem e resolvi ir sozinha em um Clube mais perto de casa... horário mais conveniente... Cheguei meio sem jeito, puxei conversa com uma senhora que estava na fila da compra de mesa... e juntei-me a ela . Pra começar estava ótimo! Aos pouco fui me enturmando... sendo convidada com mais frequência para dançar e melhorando minha performance. Ganhei mais desenvoltura no dançar. Imaginem! eu uma senhora, distinta... respeitável, professora aposentada... botando pra quebrar! Olha a novidade! Hoje, com 69 anos, tenho como compromisso dançar pelo menos duas vezes por semana.

Gosto de dançar e sinto-me feliz, o meu astral melhorou... a minha auto estima ficou fortalecida a medida que sinto-me aceita... A paquera e o flerte rolam soltos..., Mas eu queria DANÇAR... Acredito que este foi um ponto que me ajudou... Não fui dançar com o objetivo de arrumar namorado. O charme faz parte do dançar. Isso é um ganho... Aí comecei a me preocupar em escolher melhor as roupas. Passei a usar mais o vestido com saia rodada melhor e que seja bem preso ao pé. Acredito que estas preocupações na idade em que me encontro só trouxeram benefícios.

Estou trabalhando no meu interno, as novidades, a flexibilidade, etc. A aceitação, então nem se fala... Cada cavalheiro dança de um jeito e a você cabe ACOMPANHAR... Haja flexibilidade, no corpo e na mente. Com isto, minha sensibilidade e atenção ficaram mais aguçadas em perceber a intenção de movimentos do par. Na Dança de Salão é necessário o homem conduzir a dama, e diga-se de passagem, ajuda muito respeita esta regra; você aprende a soltar o corpo e se cansa menos. Os admiradores vão aparecendo e tentando se aproximar, cabe a nós, avaliar a intenção de cada um e qual o nosso interesse; cuidado é bom e nunca é demais. Após estes anos sinto que meu corpo, ganhou mais leveza e ficou melhor delineado. As dores, tão comuns... diminuíram ou mesmo cessaram. Controlo com maior facilidade o meu peso. A médica geriatra e a fisioterapeuta que me acompanham são minhas incentivadoras. Enfim, recomendo para quem gosta de música e quer trabalhar o corpo, sem ser com malhação; a dança é uma boa ideia. Acredite... Vale a pena começar... Vamos, estou aguardando novos depoimentos...

 

 

Biografia

Por volta dos meus 53 anos, ano 1994, iniciei um trabalho com a arte-terapeuta Edna Lúcia, que seguia a orientação antroposófica. Como primeiro trabalho foi proposto que eu reproduzisse em argila, principais objetos que tiveram importância na primeira infância, isto é dos 0 aos 7 anos, lembro-me que reproduzi uma almofada que minha mãe fez com um lindo bordado de flores coloridas. Era uma almofada usada para eu sentar, principalmente na motocicleta que meu pai dirigia, quando em serviço. Muitas vezes vinha almoçar com a tal motocicleta e dava uma pequena volta comigo, sentada na almofada, apoiada no tanque de gasolina. Eu segurava forte no guidão e protegida pelos dois braços de meu pai, dirigindo a motocicleta, saiamos felizes dando passeios pelos arredores de minha casa, naquela época na Rua Trajano, no bairro da Lapa.

 

Tinha eu meus 3 para 4 anos quando estes fatos aconteceram. Sinto muita saudade, deste contato aconchegante com meu pai, foi muito bom, sinto até hoje seu cheiro tão peculiar e agradável. Sua pele morena, forte e resistente de quem trabalhava enfrentando as intempéries do clima. Fizemos vários passeios, com a motocicleta, sempre agradáveis com o vento batendo forte em meu rosto, os objetos passando rápidos por mim e quando passávamos pela rua Afonso Sardinha onde havia uma torrefação de café sentíamos o aroma agradável de café sendo torrado, que delícia.

 

Muito perto de casa existiam duas padarias, a mais próxima a Beija-Flor, quando os pães estavam assando recendia cheiro de pão fresco até a minha casa, difícil resistir a tentação de comer pão quentinho. A padaria mais distante, porém, no mesmo quarteirão, era a Estrela. Desta não sentíamos o aroma, contudo, possuía um pãozinho chamado corninho, que era uma delícia, sua massa era fina e macia, formava um enroladinho para um lado e outro na ponta oposta. A criançada muitas vezes entrava na padaria Estrela e pedia pão, em nossas brincadeiras, saiamos dando muita risada, comendo e dividindo o pão crocante, orgulhosos da conquista. Ah! Que gostoso.