Maria Celia Teixeira Azevedo de Abreu

Psicóloga formada pela PUC/SP, onde completou o mestrado e o doutorado. Professora universitária por mais de 20 anos na PUC/SP, psicoterapeuta
de adultos e fundadora e coordenadora do Ideac.

Envelhecer da trabalho?

Adaptação à maturidade

A pessoa começa a sentir uma irritabilidade inexplicável, junto com uma certa insatisfação difusa, persistente. Aqui e ali, uma explosão de mau humor, coisa nada habitual. Quem era sociável começa a se isolar; quem era retraído se surpreende gostando de conversar, fazer programas com outros, festejar.

 

Concentrar-se numa tarefa vira uma habilidade dificílima. Temores idiotas atormentam pessoas antes corajosas e tranquilas. Por outro lado, pensamentos inusitados ficam rolando na mente: recordações nostálgicas de épocas supostamente esquecidas; questionamentos de ordem religiosa e espiritual, incluindo a incógnita da morte; acima de tudo, inquietações sobre si próprio: quem sou eu de verdade, sou assim ou sou como os outros querem que eu seja, o que quero para mim no meu futuro, etc. Enfim, em uma palavra, o indivíduo sente um certo estranhamento de si mesmo, o que causa espanto, bem como sofrimento. Pode parecer que a descrição acima remete aos desacertos enfrentados na adolescência... só que, na verdade, ela se refere a uma pessoa que está passando da fase de adulto jovem para a de adulto maduro! Ambas são épocas de mudanças, que exigem adaptações, o que demanda um certo tempo. Ambas, porém, são fases que remetem a um crescimento posterior.

 

Claro que há variações individuais: algumas pessoas como que deslizam por essas etapas de transição, sem grandes turbulências, enquanto que outras atravessam um período que pode ser longo, perturbado e sofrido (perturbando e fazendo sofrer quem está por perto...) antes de se estabilizarem novamente. Essas adaptações à nova fase de vida da maturidade se dão no corpo, que adquire novas características; conceitos estéticos, cuidados com a saúde, hábitos relacionados com uma alimentação equilibrada, por exemplo, precisam ser modificados, renovados. Os anteriores, aquilo que se pensava e que se praticava enquanto adulto jovem, não têm mais validade. E como é difícil fazer essa troca, sem descambar para pensamentos pessimistas relacionados com doença, decadência etc! Como é difícil substituir o julgamento de "melhor X pior" por um simples conceito de "diferente"! Para algumas mulheres, que sempre valorizaram a capacidade de ser mãe, como é difícil saber que acabou o tempo em que seu corpo poderia gerar! É um tempo em que costumam ocorrer modificações na própria estrutura familiar.

 

Os filhos, depois de longos anos de dependência, passam a não precisar mais dos pais, pelo menos não mais daquele jeito antigo: trabalham, têm ideias próprias, saem de casa, deixando seus quartos vazios sem função; casam-se, resolvem ter filhos eles próprios, o que transforma este adulto maduro em avô ou avó, condição significativa na vida de alguém, mas a respeito da qual ele não decidiu. Alguns se casam com parceiros que já vinham de uniões anteriores com filhos pequenos, outros se separam e os netos deste adulto maduro vão conviver com uma nova família, não mais com a dele.

Assim, nosso adulto maduro se vê obrigado a mudar os conceitos que formou sobre família, quando era criança, bem como a mudar sua rotina diária na intimidade do lar, para assumir os novos papéis. O adulto maduro que tem pais muitas vezes se vê obrigado a começar a inverter os papéis, ou seja, estes pais começam a se tornar dependentes dos filhos, o que é uma modificação muito estranha, que inverte uma ordem estabelecida desde que se nasceu e que parecia perfeitamente estabilizada; ele precisa então rever o conceito dessa relação filho maduro-pais idosos, o que é um processo doloroso, complicado e indesejado, que vai remexer com acontecimentos do passado, com questionamentos diversos, que estavam muito bem colocados na sombra do esquecimento, bem como vai forçar decisões que de verdade não se quer tomar. Também esta é a época da aposentadoria, ou pelos menos de se pensar seriamente nela.

 

Conheço pessoas que já têm todos os direitos legais para requererem a aposentadoria, para quem estar ou não aposentado não vai mudar em nada suas atividades de trabalho atuais, mas que não têm coragem de requerê-la, por uma questão emocional: irão se sentir terrivelmente mal se entrarem para essa categoria e preferem continuar contribuindo com uma taxa mensal, em vez de receber o que lhes é devido de direito. Outros esperam com ansiedade o momento de não precisar mais ter aquela rotina pesada de ir trabalhar todo santo dia; sonham com isso, preparam-se para isso; mas não são todos que se adaptam sem dificuldade ao novo estado, mesmo o desejando; com o emprego, vai-se um convívio social obrigatório, que podia não ser profundo, mas existia; vai-se uma estrutura externa que sustentava hábitos e horários diários, bons até para a saúde; vai-se uma necessidade de se atualizar, de estar presente nos acontecimentos do mundo; vai-se, principalmente, um status, que mexe com a própria identidade.

 

Claro, tudo isso deve ser substituído, de preferência por coisas melhores, mas essa substituição não vem espontaneamente, ela demanda esforço, intencionalidade, busca... o que não é nada fácil. Nem é tarefa para se empreender sozinho, sem apoio e sem ajuda! Com os exemplos acima, dá para perceber que tornar-se maduro não é fácil? Acho até que é mais difícil do que para o adolescente, porque não existe uma aceitação, por parte da sociedade, do fato de que essa é uma fase complicada; a sociedade não dá permissão para o adulto maduro se desestabilizar, se desconhecer, experimentar, fazer tentativas e erros. Aliás, o próprio adulto maduro faz um julgamento severo, até implacável, de si mesmo, porque ele foi tomado absolutamente de surpresa por tais tempestades; então, ele se classifica (e os que lhe estão próximos o classificam também...) como esquisito, com ataque de frescura, começando a caducar, e outros atributos pejorativos.

Tais sinais de crescimento, que são dolorosos por natureza, porque exigem modificações, são bem aceitos na adolescência, mas são interpretados como se fossem sinais de decadência, na maturidade. É como se o adulto jovem fosse um modelo ideal, estático, uma estátua, digamos; e depois de se ser adulto jovem só se vai despencando, perdendo – quando não é nada disso! Para o ser humano, não há um momento de um modelo perfeito. Cada etapa tem suas características específicas. As etapas vão se desenrolando ao longo do curso da vida, e devemos reconhecer em cada uma delas seus atributos específicos, que não são nem melhores nem piores que os outros, só são diferentes. A sociedade não preparou nossas mentes para o conceito de que o ser humano está em constante crescimento, mutação, desenvolvimento; não aprendemos a perceber que não existe um momento em que se seja acabado, completo, perfeito, ideal. Cabe a esta geração um esforço extra para modificar esse preconceito, corrigindo essa crença errônea. Claro que para crescer, para mudar, para melhorar, passa-se por sofrimento, conflitos, abandonos, desamparo. Mas um bom desafio, uma luta pela melhoria, uma posterior sensação de vitória, e o sentimento interno de harmonia consigo mesmo e de dever cumprido diante das exigências da condição humana... quem quer recompensa melhor para as turbulências da maturidade?

 

Maria Celia Teixeira Azevedo de Abreu

Publicado em 27/09/2001 na Folha Equilíbrio, suplemento semanal do jornal Folha de S. Paulo

 

 

Maturidade e projetos

Da criança e do jovem se pedem projetos. O que você vai ser quando crescer... é a pergunta clássica. Você ainda não tem carteira de motorista? Tomara que você passe no vestibular! Quando vocês vão se casar? O baby é para logo? Com esse seu belo currículo, você tem mais é que batalhar por esse emprego! Que tal um sítio para ter aonde ir aos fins de semana? Questões desse tipo são propostas pelos outros, que no caso representam a sociedade, e também pelo próprio indivíduo, que incorpora como seus os ditames e as expectativas da sociedade. São questões que remetem ao futuro. Essa dimensão do porvir costuma evocar esperanças, possíveis conquistas, realizações, desafios superados, dos mais variados tipos.

 

No futuro, afinal, pode-se corrigir erros, preencher lacunas, distanciar-se de dores. Porém a sociedade, que tipicamente não valoriza o adulto maduro, não faz essas cobranças de quem deixou de ser jovem. Então esse adulto, que vive nessa sociedade, é bombardeado por tais valores e é levado a deixar de se colocar projetos. Só que isso é uma terrível armadilha. Primeiro, do ponto de vista pessoal, abrir mão de projetos é causa de um grande vazio interior, de muita angústia. Creio que o ser humano não se completa se não incorporar a dimensão "passagem do tempo" em seu psiquismo, o que inclui passado, presente e futuro, sem exceção de nenhuma das três instâncias. Não podemos negar nossa história, nosso passado, embora não se possa modificá-lo, porque suas marcas estarão sempre conosco.

 

Precisamos ampliar ao máximo nossa consciência de nós mesmos e de nossa situação atual, no presente, para podermos gostar de nós mesmos e para nos sentirmos vivendo. Finalmente, não dá para viver sem se ter projetos, a não ser que se pague o preço de um sofrimento e de uma degradação... evitáveis! Aquela imagem da cenoura que é amarrada à própria cabeça do burro e que o leva a se mover para a frente, buscando alcançá-la, vale para nós, seres humanos maduros: se não nos movemos, o simples fato de ficar estacionados já representa um retrocesso; portanto, precisamos escolher alguma "cenoura" para nós, amarrá-la à nossa frente e persegui-la. Há duas diferenças com a fábula: uma é que somos nós mesmos que a atamos, ninguém faz isso por nós, e outra é que temos a capacidade de alcançá-la, sim; só que daí urge substitui-la por outra, sob pena do imobilismo, que significa decadência. Segundo, um adulto, de que idade for, sempre tem um futuro. O que não se sabe é qual é a duração desse futuro para essa pessoa.

 

Estatisticamente, sabe-se que deve ser uma duração mais curta do que a de uma criança. Porém, quando se trata do caso individual, a tendência estatística não quer dizer grande coisa, e nem sempre se aplica!... O mundo está cheio de histórias de exceções, de improbabilidades. O que se pode fazer, na prática, para lidar com essa incerteza quanto ao tempo de duração de que dispomos é quebrar nosso projeto de vida a longo prazo em pequenos projetos mais curtos, coerentes com o grande projeto, que irão se sucedendo, na medida em que nos for dado ter tempo para eles. Isto é, aumentamos a probabilidade de cumprir cada fase. Por exemplo: se seu projeto é ser dono de uma rede de supermercados, você vai começar com uma frutaria, depois um açougue, em seguida uma mercearia, e no ano seguinte vai juntar tudo isso, em seguida abrir uma filial, e assim por diante. Quando essa sequência, em algum momento imprevisível, for interrompida... paciência!

 

Pelo menos, enquanto tivemos vida, a aproveitamos da melhor maneira possível. Com um olho no futuro, vivemos intensamente o presente. Cabe ao adulto maduro, que quiser viver plenamente, sem abdicar de ser feliz, empreender um esforço dobrado para vencer essa inércia a que a sociedade o conduz. Ele precisa tomar consciência de que está sendo induzido, pelos valores vigentes na sociedade, a abandonar projetos pessoais e, portanto, está sendo condenado à passividade, à angústia, à depressão, à marginalização, à sensação de inutilidade.

 

Conscientizado, e se revoltando contra esse estado de coisas injusto, este adulto maduro precisa agir, e agir com muita energia. Deliberadamente, precisa ir em busca de propósitos para si próprio. Um projeto de vida, para funcionar, tem que ser personalizado, tem que ter a grife do seu autor-executor. Não adianta "emprestar" planos de outros, "colar", mesmo que tenham sido planos bem sucedidos; também não adianta fazer planos para outros: simplesmente, não funcionam. Nessa tarefa, nosso adulto maduro deve se servir dos palpites e exemplos alheios, sem dúvida; mas, como fontes de inspiração; deve como que peneirá-los, segundo critérios próprios, e só utilizar aqueles que fizerem sentido e entrarem em acordo com o que lhe dizem seu coração e sua experiência. Este projeto, esta cenoura apetitosa, pode representar uma guinada no rumo da existência da pessoa; sempre estamos lendo na mídia relatos de empresários bem sucedidos que se recolheram à singela administração de uma pousada em um recanto isolado, e que estão absolutamente felizes; há pessoas que na maturidade descobrem-se pintores ou literatos ou cozinheiros de talento bastante razoável; há mães de família que se revelam hábeis negociantes; e assim por diante.

 

Entretanto, as coisas não necessitam ser tão drásticas e radicais: o adulto maduro pode decidir que o que ele quer fazer é exatamente o que sempre fez enquanto adulto jovem, que está absolutamente integrado com esse projeto e não tem razão nenhuma para modificá-lo – por exemplo, fechar sua rede de oficinas mecânicas e passar a cultivar uma horta sem agrotóxicos, ramo com o qual não se identifica nem um pouco! Mudar de rumo ou não, isso não importa. O fundamental para a saúde mental, em qualquer fase da vida, é que se ponha energia e empenho para se conseguir as metas que, conscientemente, deliberadamente, ponderadamente propusemos para nós mesmos, não importa em que fase de vida se esteja; se estivermos na maturidade, o empenho deve ser dobrado, porque os valores da nossa sociedade ainda não facilitam as coisas para os maduros. Portanto, cidadãos maduros, que tal aproveitar esses tempos de final de ano para dar um balanço nos planos, rever as realizações do passado, avaliar as condições atuais e partir para um projeto de vida adequado aos seus sonhos e às suas competências, que mobilize suas energias e promova seu crescimento?

 

Maria Celia Teixeira Azevedo de Abreu

Publicado em 22/11/2001 na Folha Equilíbrio, suplemento semanal do jornal Folha de S. Paulo

 

 

Que tal agora?

Todos passamos por momentos difíceis no decorrer de nossas vidas. Isso é inevitável. Então, por que não nos preparamos, quando tudo está correndo bem, para ultrapassar tais crises com um mínimo de sofrimento? Em parte, é porque temos pensamentos supersticiosos: se não pensarmos em dificuldades, não as atrairemos! Ou então, quem sabe, estamos acima dessas fatalidades... Em parte, também, por pura inércia e preguiça. Uma autora contemporânea norte-americana, Gail Sheehy, afirma que há quatro pilares que nos sustentam nas épocas difíceis: o bom humor; empenhar-se numa atividade, num trabalho; ter algum tipo de religião; e ter amigos. Concordo plenamente com ela, e acho que as coisas funcionam bem melhor se esses pilares já estão sólidos quando a crise chega, do que se tentarmos solidificá-los durante a crise.

 

Vamos refletir um pouco sobre um dos pilares, o dos amigos. A partir de um olhar pragmático, uma rede de relacionamentos pode ser muito útil para abrir portas e dar sustentação quando precisarmos. De um ponto de vista psicológico, são os outros que preenchem nossas necessidades de afeto e de sociabilidade.

 

Na presença do outro, refletimos com mais coragem sobre nós mesmos, nossos erros e acertos, do que se estivermos sozinhos. Da experiência alheia, extraímos lições para nós, pois observamos o que acontece com os outros e principalmente percebemos e compreendemos o que se passa no interior deles, o que só se alcança conversando. Interagindo com outros, ficamos sabendo de novidades, atualizamos nossas informações; descobrimos pontos de vista diferentes dos nossos, que permitem nos questionar; enfim, aprendemos, nos renovamos e melhoramos como seres humanos.

É da interação com os outros que levantamos indicadores sobre nossa conduta, nossas ideias, nossos planos e que estabelecemos nossa autoestima. Tudo isso é especialmente verdade para a fase da maturidade, quando via de regra as relações de trabalho são drasticamente modificadas pela aposentadoria, e a estruturação da família evolui para novos modelos, pelo crescimento das crianças que se tornam adultas e pela perda de membros mais idosos. Contudo, não é só para estar mais forte para uma possível crise futura que vale a pena cultivar amizades. Amigos valem para o

aqui-e-agora.

 

Mesmo quando tudo vai bem, eles nos preenchem, nos aquecem o coração, nos animam, nos dão oportunidade de exercer o dom da doação, nos dão um significado extra para a vida. Se a vida não é uma felicidade perene, mas apenas tem momentos de felicidade, conviver com amigos tem um lugar importante nesses momentos. Só que amigos não nos aparecem se não vamos em busca deles.

 

É preciso um esforço pessoal para ampliar e para reavivar uma rede de relacionamentos. É uma ação que ninguém pode fazer por nós; se delegamos essa tarefa para outrem, os laços que se fortalecem não são os nossos. Amigos não são plantas nativas em nossa vida; precisamos ter iniciativa de ir procurá-los, descobrir onde estão, como um pesquisador vai atrás de mudas de plantas raras. Além disso, amigos não se criam da noite para o dia: são plantinhas de estufa, delicadas, que pedem cuidados regulares, adubação, regas, podas, e que vão florescendo e frutificando com o tempo. Mais complicado ainda: a amizade é uma planta que precisa ser regada de dois lados; se um dos lados fica preguiçoso, passivo, omisso, a plantinha não se desenvolve... Para quem andou inerte em relação a alimentar seu relacionamento com amigos, o final do ano me parece uma época especialmente favorável para se tomar iniciativas nesse sentido. Telefonar, marcar um encontro, pensar numa lembrancinha e coisas assim ficam mais fáceis sob o pretexto das "boas festas". Depois, é só não se recolher de novo à inércia. Embora demande algum esforço, os benefícios futuros o compensarão com folga!

 

Maria Celia Teixeira Azevedo de Abreu

Publicado em 09/12/2002 na Folha Equilíbrio, suplemento semanal do jornal Folha de S. Paulo

Geração madura, geração pioneira

Numa tarde dessas, estando ao telefone com uma jovem, pessoa vivamente interessada por assuntos da vida em geral, o tema rolou, na conversa, sobre as diferenças entre nossas gerações e, principalmente, as características de pioneirismo da minha geração. Ambas concordamos a despeito dos vinte e cinco ou trinta anos que nos separam, que pioneiro e pioneirismo são termos que vêm carregados de conotações positivas: sentimentos de orgulho, criatividade, ousadia, coragem e outros nessa linha. Quem tem hoje entre cinquenta e cinco, sessenta e cinco ou setenta anos, foi quem, aos vinte, conheceu a liberdade inédita que a pílula anticoncepcional passou a permitir às pessoas, acarretando as enormes transformações, que são bem sabidas hoje, no exercício sexual, nos valores vigentes na sociedade e até na estrutura da família. O conflito da jovem mulher – e de seu jovem companheiro de geração – era muito forte: de um lado, continuar seguindo com segurança (ou... covardia?) os mesmos moldes de comportamento que os pais e avós viveram, mas sem exercer a liberdade tão recentemente vislumbrada; de outro lado, usufruir das descobertas da ciência, mas sem ter padrões a imitar e tendo de bater de frente com os ditames morais e religiosos predominantes, o que causava enorme medo, e também gerava posturas excessivamente radicais. A opção era difícil, dolorosa e angustiante. A geração da minha jovem interlocutora já não enfrentou essas dificuldades, pelo menos não com tanta força; para quem tem hoje seus trinta, trinta e cinco anos, esses dilemas, se existiram, foram resolvidos em âmbito pessoal – uma questão de foro íntimo.

 

Nesta minha geração, foi sobretudo a mulher que sobressaiu por estar rompendo padrões. Tornou-se numerosa nas escolas superiores, incluindo-se em redutos tipicamente masculinos, como a engenharia e a medicina. Logo que entrava para a Faculdade, a jovem se punha a fumar em público: em sala de aula, em festinhas, embora nem sempre diante dos pais, pois isto era um desrespeito máximo em algumas famílias. (Infelizmente, até os anos 70 não se dispunha das informações que se tem hoje sobre o prejuízo para a saúde que esse vício provoca; quero crer que, se se soubesse desses dados, não se consideraria que uma moça fumando em público simbolizava elegância, sensualidade, ousadia, modernidade). A mulher dessa geração firmou-se no mercado de trabalho, reivindicando posições e salários até então pertencentes só ao homem.

 

Assumiu cargos até de chefia, familiarizou-se no trato com o dinheiro, abriu conta corrente pessoal no banco, tornou-se capaz de se sustentar. Dirigiu seu próprio carro, viajou sozinha, morou sozinha. Segura de si, começou a ter iniciativas de pedir divórcio se as condições do casamento não a satisfaziam. Desde então, até hoje, vem aparecendo num crescendo até em posições políticas, candidatando-se e sendo eleita. Claro que tudo isso não aconteceu sem sofrimentos, angústias, dor psicológica, desamparo. Sabemos que todas as coisas têm um lado de ganho mas também um outro lado de perdas. Por exemplo, essa mulher passou a ser vítima de muitos mais problemas cardíacos, além de outros, até então "doenças de homem", do que suas mães e avós, que se limitavam ao trabalho doméstico.

 

O pioneirismo do homem dessa geração, que compõe hoje a corte dos chamados adultos maduros, pode não ter sobressaído tanto como o da mulher, mas é evidente que ele também arrostou grandes novidades. Adaptou-se a novos costumes, pautou-se por novos valores, que eram estranhos aos seus antepassados. Adolescente, trocou as corretas meias brancas por escandalosas meias vermelhas, encontrou outras opções para vestir que não o paletó e a gravata, deixou os cabelos atingirem comprimentos impensáveis para seus pais e avós. Ouviu, tocou e dançou rock. E em seguida o twist, o hully-gully, os ritmos de discoteca e por aí afora. Passou a integrar um mercado de trabalho onde, além do fato novo de ter que lidar ombro a ombro com mulheres, às vezes até sendo chefiado por uma, a tecnologia começou a se aperfeiçoar a uma velocidade impressionante, até então desconhecida, e a produção de conhecimentos começou a jorrar aos borbotões, exigindo atualização permanente e flexibilidade, coisas que seus pais e avós não precisavam fazer. Evoluiu da máquina de escrever simples para a elétrica e desta para o computador; desde então, tem que dominar os novos programas que são criados em intervalos de tempo sempre muito curtos. Para propor mudanças e romper padrões, a geração pioneira passou por sofrimentos. Por exemplo, com frequência os pais foram desafiados e enfrentados e, é claro, as consequências (positivas e negativas) foram sofridas. Medo, desamparo, solidão, insegurança, incerteza, remorso, arrependimento eram sentimentos que coexistiam com o orgulho, o se sentir realizado, o idealismo.

 

Hoje, continuamos sendo pioneiros em compor uma geração que vai indo para a terceira idade novamente rompendo os modos de viver dos nossos antecessores. Parece que essa característica de pioneirismo é algo que não acaba jamais... Cá entre nós, ser pioneiro é cansativo e desgastante e parece injusto que continue para sempre. Quando penso nos pioneiros do Velho Oeste, me parece que eles conquistavam os territórios (a duras penas), se assentavam e podiam usufruir então de alguma rotina. Isso era mais do que justo. Podiam parar de batalhar e apenas colher o que haviam plantado. Para a minha geração, não houve a oportunidade de uma rotina; maduros, continuamos descobrindo vias inovadoras para nossas vidas. Depois de toda essa conversa ao telefone com minha jovem e estimulante interlocutora, comecei a pôr em dúvida se pertencer a uma geração pioneira foi tão vantajoso, tão motivo de orgulho assim... estar sempre desbravando, e portanto sempre em conflito e em dúvida... me pergunto com sinceridade se não foram mais felizes os que vieram antes de nós, com suas certezas, ou então os que vieram depois, com respostas já testadas. Porém... do fundo do coração, com toda a sinceridade, embora um pouco fatigada... eu não queria ter nascido em nenhuma outra época, pois não vejo como poderia ter sido mais emocionante, mais vibrante!

 

 

Maria Celia Teixeira Azevedo de Abreu

Publicado em 23/05/2003 na Folha Equilíbrio, suplemento semanal do jornal Folha de S. Paulo

 

 

Registrar a própria história

Em fins de 2003, publiquei um livro (Andanças pela Europa: 1927) que é o diário de viagem que meu pai fez, quando, jovem solteiro, passou um ano inteiro na Europa.

 

Para organizar o prefácio, não só eu e meu irmão, seus descendentes diretos, nos mobilizamos intensamente, como todos os membros de nossas famílias, e até os editores, não importando que não o tivessem conhecido, pois ele faleceu em 1968.

 

Foi preciso rever álbuns de fotos, desarquivar cartas, poemas, músicas, documentos já amarelados; trouxemos à tona reminiscências quase apagadas; conversamos com pessoas que o conheceram. Assim, formamos uma compreensão mais completa da sua trajetória de vida; de quebra, despertamo-nos para os agitados acontecimentos da Europa nesse período entre guerras. Na noite do lançamento do livro, parentes e amigos se deslocaram de pontos diversos, inclusive de Tatuí, cidade a hora e meia de São Paulo, trazendo filhos, seus cônjuges e até os netos, apenas (apenas?...) para aproveitarem a oportunidade de se encontrar, se abraçar e mesmo de se conhecer. Foi um momento para ser guardado na memória de quem participou dele, com uma intensa e deliciosa mobilização de sentimentos e uma oportunidade de recuperar de significados. Ora, isso tudo ocorreu em torno de alguém já falecido há cerca de 30 anos. Refletindo a respeito, lendo a literatura especializada que tem sido publicada nos últimos anos sobre o tema, e analisando com colegas psicólogos que têm se dedicado a isso, posso dizer que, com razão muito mais forte do que a situação que vivenciei, a experiência de elaborar a própria autobiografia é marcante, importante e muito positiva para a saúde emocional e o crescimento interior.

 

Há psicólogos que têm percebido a utilidade desse instrumento e têm desenvolvido trabalhos com seus pacientes maduros, nesse sentido, de compor a autobiografia. O produto final, com frequência, transforma-se num emocionante e insubstituível presente para filhos, netos e bisnetos. Entretanto, se este for o desejo do autor, não se fazem cópias da autobiografia e o original pode até mesmo ser destruído. O valor dela é essencialmente subjetivo; pode ser apenas o rico instrumento para um crescimento pessoal, ou pode ser também um legado para gerações mais novas. Como se sabe, o uso da palavra permite um grau máximo de simbolização e de abstração; aliás, uma marca registrada do animal homem. Pode favorecer crescentes graus de precisão: quando só pensamos sobre um assunto, somos menos claros e menos definidos do que quando falamos sobre ele; já quando escrevemos, somos obrigados a ter as ideias definidas, concatenadas, objetivadas, sem dispersões. Daí a importância da forma final dessa autobiografia ser escrita. Além disso, o contar e o ouvir histórias é uma das atividades mais fascinantes e prazerosas da mente humana – incluindo-se a própria história, por que não?

 

O autor se encanta ao rever sua autobiografia pronta, com começo, meio e fim, do mesmo jeitinho que uma criança com uma história da carochinha ou um adulto com um bom romance. Com a sabedoria que costuma ser uma conquista da maturidade, vai-se ter forças e tranquilidade para se empreender um mergulho dentro de si. Vai-se reordenar fatos, buscar informações para completar vácuos ou corrigir distorções, comparar opiniões, conferir sentimentos, e tudo isso dentro de uma perspectiva de todo um ciclo de vida, desde que se nasceu até o presente. Ampliando-se os horizontes da análise, vai-se procurar o entendimento das coordenadas históricas e sociais presentes ao longo desse ciclo, e como podem ter influído na trajetória pessoal.

 

O simples ato de se ir atrás das informações (depoimentos orais, documentos, fotos, cartas, bilhetes, objetos etc.) obriga a uma mobilização de sentimentos, a um despertar de memórias e a uma reativação de relacionamentos sociais que são, por si só, muito importantes para a finalidade de refletir sobre a própria vida e recompô-la. O objetivo não é chegar à elaboração de uma obra literária. A própria forma sob a qual a autobiografia vai se apresentar não tem regras pré-definidas, e depende da criatividade e do gosto do autor, bem como do material disponível.

 

O objetivo é, estando numa fase propícia da existência, fazer um balanço sobre o que a vida lhe ofereceu e como se lidou com pessoas, fatos, sentimentos, valores, imprevistos etc., até agora. Há uma reorganização na percepção do desenvolvimento do ciclo da própria vida; uma integração entre episódios; eventos quase esquecidos são devidamente valorizados, enquanto a importância de outros é minimizada; perdas marcantes podem ser finalmente melhor aceitas; há possibilidade de se compreender e talvez até de perdoar pessoas que causaram mágoas ou prejuízos. Claro está que os fatos do passado não podem ser mudados, mas a interpretação que damos a eles, sim. Além desse objetivo de enriquecimento pessoal, pode-se pensar também, como já dissemos, em deixar um legado para descendentes atuais ou por vir, de modo que possam compreender melhor suas raízes, e conhecer episódios marcantes da família a partir do ponto de vista do autobiografado.

 

Compor a autobiografia é tarefa para bravos, corajosos, persistentes, vitais, amantes da verdade. Daí o interesse em se ter um profissional que o acompanhe e atue como facilitador: um psicólogo ajuda a vencer os medos, faz as perguntas certas, percebe se há fugas ou recuos, vácuos ou incoerências e, sobretudo, sendo um conhecedor da psicologia da maturidade, auxilia o autor da autobiografia a ressignificar os episódios que viveu. Quem escreve a autobiografia com esse fim psicoterapêutico passa a se perceber e ao seu mundo de modo melhor: mais completo, mais redondo, mais apaziguado. É como se cumprisse a tarefa de fechar uma etapa, dando espaço para se lançar à próxima, a etapa da maturidade, que tem suas tarefas psicológicas específicas. Essa volta ao passado liberta a pessoa para que caminhe para o futuro, sem negar sua história, sem precisar ficar arrastando o peso do que já se foi, mas sendo capaz de usar tudo isso para lhe dar mais forças. Em uma palavra, amplia a compreensão do que ela significa como pessoa, do que significa sua trajetória de vida dentro do mundo e ajuda a responder as eternas questões humanas: quem sou eu? a que vim ao mundo? para que norte rumar de agora em diante?

 

 

]Maria Celia Teixeira Azevedo de Abreu

Publicado em 05/05/2004 na Folha Equilíbrio, suplemento semanal do jornal Folha de S. Paulo

 

 

Nada dura para sempre

Nada dura para sempre. Essa afirmação também vale quando pensamos na família. A família é um organismo vivo e, portanto, está em mutação. Constatar isso costuma nos entristecer... porque não queremos perder o convívio com certas pessoas, nem que elas estejam bem e felizes, só que longe! Em vez de pensar em perda, por que não focalizar a atenção na transformação? Parece que nossa cultura nos educa mais para aprovar a rigidez do que para aceitar a transformação... e nossos medos do novo e do desconhecido são maiores do que nossa capacidade de ser flexível. Estou falando de um momento em que muitas famílias precisam encarar um formato novo: é quando, com o passar dos anos, os filhos se tornam adultos e, embora jovens, querem – mais do que querem, precisam – se afirmar como tal. Continuar crescendo social e emocionalmente, para exercitar sua cidadania, autonomia e independência, e viver dentro da mesma casa, sob as mesmas regras e com as mesmas pessoas que sempre a viram como criança, torna-se muito difícil. Daí, manifestam o desejo de ir morar em outro endereço, talvez em outra cidade, ou mesmo em um país estrangeiro.

 

Tradicionalmente, o jovem saía de casa pelo casamento. Quantos só se casavam para conseguir essa independência dos pais, vivendo depois intermináveis anos de um relacionamento infeliz? Hoje, há a possibilidade dele sair de casa apenas para morar só. E isso não precisa representar um ato de rebeldia imatura e inconsequente, uma expressão de revolta irresponsável contra a família de origem.

 

É aí que a capacidade de adaptação a situações novas, a flexibilidade, são postas à prova. É bom saber que este é um importante fator da saúde mental, em oposição à rigidez, e também que não é um dom recebido de graça: é uma característica a ser buscada, cultivada, batalhada. Claro que em toda mudança há perdas. É preciso reconhecê-las, para se ter uma boa relação com a realidade. Porém, em vez de ficar lamentando e enfatizando as perdas, pode-se aproveitar para rever alguns valores da família e para crescer. Não é fácil aceitar que cada um sonha e constrói a sua trajetória de vida; não cabe a ninguém impor a outro seus próprios sonhos. Essa é uma das formas de manifestarmos prepotência, sem dar espaço ao tão difícil respeito pelo outro. Uma armadilha do egoísmo é querer manter os filhos junto a si, apenas porque isso é bom para os pais, é cômodo, eles não vão precisar ir em busca de novos hábitos, mesmo que ignorando necessidades legítimas dos filhos.

 

Há também a tendência natural para continuar a proteger a prole, o que era fundamental quando ela era imatura, mas que agora é mais do que dispensável, é prejudicial. À sombra de uma árvore excessivamente frondosa e pujante não nascem outras plantas fortes... Aceitar que aquela criança tão querida já é um jovem, e como tal tem o direito de experimentar suas forças, tomar suas decisões, e que esse desejo é legítimo (aliás, foi para ser independente e construtivo que foi educado) não significa que o amor fica diminuído nem desgastado, apenas que a família tem de encontrar outros caminhos para manifestar esse amor: uma oportunidade de se renovar sem perder a qualidade.

 

 

Maria Celia Teixeira Azevedo de Abreu

Publicado em fevereiro/2006 na: Revista Ir ao Povo

 

 

Tem doente em casa

Há uma fala popular que diz que podemos focar na metade cheia da xícara, ou então na metade vazia, simbolizando que uma situação pode ser percebida como tendo algo de positivo, não se dando ênfase ao que tem de desagradável; ou, ao contrário pode-se ressaltar o que tem de negativa ou de faltosa, esquecendo suas vantagens. Lembrando que a sabedoria popular também ensina que toda moeda tem duas faces, que todo evento tem vantagens e desvantagens, lucros e perdas, essa conversa sobre a metade cheia ou a metade vazia fica bem interessante. Uma situação em que é preciso se fazer um esforço para se focar na metade cheia é quando um dos membros da família cai doente. Nada é mais indesejado e inconveniente. Com um doente em casa, a dinâmica daquele lar é obrigada a se modificar. As funções, que estavam bem distribuídas, com os mais competentes para cada tarefa dando conta delas, precisam ser redistribuídas; tanto pode ser porque a pessoa doente é obrigada a delegar a outros o que lhe cabia fazer, como porque novas ações precisam ser cumpridas, para que o doente possa ser cuidado. Quanto mais longo o período da doença, mais a situação se complica. Junto com essa redistribuição de funções, quase que só uma reorganização de situações práticas da vida, o adoecer desperta emoções. São comuns a preocupação, ansiedade, impotência, revolta, insegurança, tristeza, irritabilidade, até depressão. Sentimentos até então pouco conhecidos, não habituais, podem tomar conta do doente, bem como dos familiares sadios que estão à sua volta.

 

Podem causar estranheza e até assustar. Porém, é aí que a gente descobre o lado cheio da xícara. Há o doente que se preocupa em isentar de sofrimento o seu cuidador, em vez de pensar primeiro na sua própria dor. Vemos o doente que levava a pecha de moleirão lutar tenazmente para se recuperar. Um membro da família que parecia desligado assume cuidados e responsabilidades que ninguém imaginava que fosse capaz. As pessoas daquele grupo familiar dão apoio e incentivo umas às outras; quando uma ameaça fraquejar, outra a levanta. Também vemos que aquelas que não têm disponibilidade para encarar o sofrimento, talvez porque naquele momento estão emocionalmente enfraquecidas por outras circunstâncias, são compreendidas, desculpadas e continuam sendo acolhidas.

 

Ressalta o quanto cada membro da família gosta daquele que adoeceu, se incomoda por ele estar doente, faz tudo o que pode para ajudá-lo; o que, por certo, faz bem para a autoestima do doente... se não tinha essa certeza, agora fica bem claro: é uma pessoa muito importante e muito querida! Claro está que é preciso ter muita paciência, humildade, tenacidade e esperança para ultrapassar uma fase de doença em família. É difícil reconhecer limites e fraquezas, que nos surpreendem quando são detectados. É necessário refletir sobre o que está acontecendo, e como isso está nos afetando. Com frequência, é preciso corrigir algumas reações e comportamentos inadequados, o que não é nada fácil, nem mesmo quando se está atravessando uma situação normal. Claro está que a xícara tem uma metade vazia, não adianta querer negar essa verdade. Porém, mesmo de uma situação indesejável e difícil é possível se aprender boas lições, sobre nós mesmos e sobre os outros. É possível se descobrir virtudes insuspeitadas e, acima de tudo, se ter a certeza de que entre aquelas pessoas afetadas por uma doença rola uma grande energia feita de amor. Essa é a metade da xícara que está cheia!

 

 

Maria Celia Teixeira Azevedo de Abreu

Publicado em março/2006 na Revista Ir ao Povo

 

 

Conviver com diferenças

Para pertencer a uma fábrica, é preciso que a pessoa seja capaz de produzir; do contrário, não interessará à fábrica e será dispensada (se é que chegou a ser admitida). Para trabalhar no comércio, é valorizado quem tem habilidade para vender. Para participar do corpo docente de uma escola, o professor deve saber o conteúdo de sua matéria e deve saber ensinar e educar. E assim por diante: dentro de cada organização social, os membros são homogeneizados em relação a uma ou algumas características. Em troca, recebem salário, benefícios e uma identidade profissional. Porém... e em relação à organização da família? O que uma pessoa precisa apresentar para ser admitida? O que ela recebe em troca do que apresenta para a família? Aqui, as coisas são diferentes.

 

Uma família é uma organização diferente das outras, que dá abrigo, segurança, uma identidade, um sentimento de pertencer. Cada um dos seus membros, ali dentro, é alguém, tem importância. São necessidades psicológicas fortíssimas, que outras organizações sociais não são capazes de preencher. Quem tem o infortúnio de não ter uma família passa por sofrimentos marcantes. Só que aquilo que homogeiniza seus membros não é alguma coisa que produzam, que façam, que saibam etc., como acontece em outros agrupamentos organizados.

 

É, simplesmente, a razão redundante de pertencer à família. A maneira mais comum é por nascimento; ou por ter sido agregado através do casamento; também pode ser por adoção, ou às vezes até pela simples convivência e bom entendimento ao longo de anos, que acabam consolidando laços de um parentesco afetivo. Dentro da família, não vale mais quem produz mais, quem vende mais, quem ensina melhor... todos têm valor! Não importa se são mais capazes ou menos capazes; mais fortes ou mais fracos; mais bonitos ou menos bonitos. Pertencem à família, com direito a receber e a dar amor, segurança e proteção, os muito inteligentes e os pouco inteligentes; os que têm corpo e saúde perfeitos e os que os têm cheios de limitações; os naturalmente bem humorados e os naturalmente pessimistas; os que mal nasceram e os que já estão entrados em anos. Cada um participa com suas possibilidades e suas características. Não importa se é uma pessoa útil para a sociedade, no sentido de que é capaz de produzir, ou não. Aliás, essa é a singularidade e o encanto da instituição da família, que não se submete às regras de um mundo em que todos têm que ser iguais (vestir-se dentro da moda, comer o que está na moda, falar como está na moda, ir aos lugares da moda), competitivos (deixando os mais fracos em péssima situação, sentindo-se sempre inúteis) e "úteis"; é uma situação em que a convivência e a intimidade dão espaço para uma troca de afetos desinteressados.

 

O compromisso ético e afetivo que une seus componentes permite vivenciar uma liberdade que não se encontra em outros ambientes. Daí, se tem a oportunidade de descobrir a força e o encanto próprios de cada um de seus membros. É um espaço de encontro, onde cabe aquele que, para os padrões da sociedade, é o "diferente".

 

 

Maria Celia Teixeira Azevedo de Abreu

Publicado em abril/2006 na Revista Ir ao Povo – www.iraopovo.com.br

 

 

Salsichas para quem amamos

Recebi dia destes um e-mail com uma mensagem muito terna, que contava a história de um mendigo que, ao ganhar algum alimento, dava a melhor parte para seu cachorro, convicto de que "ao amigo, a melhor parte": o mendigo ficava – feliz – com o pão e o cachorro com a salsicha. Fiquei pensando que é difícil discordar da filosofia do mendigo: foi um belo gesto. Porém, o que fiquei questionando é: até que ponto essa bela filosofia é restrita apenas aos amigos? Por que será que muitas vezes ela não é generalizada para os parentes? Até que ponto essa teoria é colocada na prática quando se trata da própria família? Longe de mim minimizar a importância dos amigos. Trata-se de um entre uns poucos esteios poderosos de nossa vida, que nos impedem de desmoronar nos momentos difíceis, e que nos aquecem o coração nos momentos bons. Junto com a família, uma ocupação, a espiritualidade e o bom humor, os outros esteios dos momentos de crise, a serem cultivados nas fases de bonança e usados nos instantes amargos (segundo a escritora norte americana Gail Sheehy), os amigos merecem de nós o melhor dos tratamentos. Mas, vamos refletir sobre a família. Se a família é a organização dentro da qual sabemos que somos aceitos, mesmo que ela conheça nossas falhas e pontos fracos, isso não quer dizer que se tem o direito de abusar dessa aceitação. Muitos dizem que, para "serem autênticos", falam e fazem o que querem, quando querem, do jeito que querem; não consideram se estão magoando ou ofendendo. Dizem que estão "sendo livres". Ora, ter liberdade não pode ser confundido com ser negligente ou ser grosseiro! Muito ao contrário, me parece que o justo é tratar muitíssimo bem quem temos certeza que nos acolhe sempre.

 

É preciso separar o exercício da liberdade do exercício do egoísmo, da tirania, da falta de educação. Se proclamamos aos quatro ventos que amamos nossa família, é bem aí que devemos mostrar o que temos de melhor, dar nossa melhor parte.

 

Respeitar a família não nos autoriza a falar e fazer o que bem entendemos; isso acontece quando só pensamos em nós mesmos, e os outros que se danem. Talvez seja mais fácil dar a "salsicha" para os amigos do que para a família porque não convivemos por tantas horas seguidas e nem compartilhamos os atos rotineiros de cada dia com eles; somos protegidos de nos irritar com os amigos, se quase só nos encontramos com eles para viver momentos agradáveis! E há outra coisa: dentro de casa, os outros conhecem nossas facetas ocultas, ou coisas que já fizemos e que não eram das mais louváveis; é mais difícil esconder-nos de pessoas que observamos e que nos observam dia a dia, ao longo de anos! Os amigos podem entrar em nossas vidas num determinado momento, sem saber de verdade nossa história anterior; ou então só compartilham conosco algumas áreas que selecionamos, aquelas que estamos dispostos a lhes apresentar. Só que sabemos que tarefas difíceis são as que mais nos fazem crescer interiormente, embora dolorosas... Quem se põe o desafio de dar a "salsicha" – o melhor de si – para a família não vai, possivelmente, conseguir fazê-lo se não se trabalhar, se superar, se vencer. É uma tarefa emocionalmente penosa. Porém, recompensadora! Ainda bem que podemos dispor de várias "salsichas", e dá-las tanto à família, como aos amigos. Como já disse, todos são importantes. Apenas quis chamar a atenção para o fato de que é mais frequente se pensar nos amigos do que na família.

 

 

Maria Celia Teixeira Azevedo de Abreu

Publicado em maio/2006 na Revista Ir ao Povo

 

 

Sair de casa

Um sentimento muito frequente na maioria de nós, imperfeitos seres humanos, é a onipotência, o poder; quando nos acreditamos poderosos, nossa vaidade fica inflada... e é difícil se ter consciência de que isso está acontecendo, uma vez que a vaidade é uma grande preparadora de armadilhas... Quando exercemos (indevido) poder sobre outro estamos impedindo esse outro de crescer, e nós mesmos não estamos exercendo nossa liberdade: somos escravizados pela vaidade. Acabamos acreditando que somos melhores do que os outros!

 

Em uma família, escola, empresa, enfim, em uma estrutura que precise de uma organização para existir, há uma diferenciação de papéis e de funções. Por exemplo, não são as crianças pequenas que tomam as decisões importantes para a dinâmica da família, mas os pais, legitimamente autorizados e capacitados para tal função. Porém, o adulto, ao perceber que as decisões que toma são acertadas, que cumpre muito bem com suas tarefas de pai ou de mãe... pode começar a alimentar a vaidade com esses sucessos... pode começar a se sentir poderoso em relação aos membros da família... e pode começar a gostar disso – o que é até natural, esperado, desde que não vá além da conta! Aí, o tempo, implacável, passa, e traz mudanças nas pessoas. Aquelas crianças que precisavam de proteção, de direção, começam a querer fazer as coisas por si, a ter ideias próprias, a não dar satisfações. Nada mais natural no curso do desenvolvimento de um ser humano... É muito difícil, para os pais, recuar dentro do campo até então bem estabelecido de exercer poder sobre o outro; reconhecer que não são mais necessários do jeito que foram por anos e anos; e deixar o filho seguir seu caminho na vida conforme as escolhas dele mesmo que, do ponto de vista dos mais velhos, nem sempre são as menos sofridas ou as mais acertadas.

 

Em uma palavra, perceber que os papéis familiares, muito bem exercidos até então, precisam de uma readaptação, para ficarem adequados à nova realidade vigente. Cuidar de filhos, proporcionar-lhes crescimento, educação, aprendizado, é um fato extremamente recompensador para um adulto, talvez até um dos mais gratificantes na vida de uma pessoa. Sentir-se acolhido e protegido também! Então, há uma tendência a querer perpetuar essa dinâmica, em que os adultos cuidam, tomam decisões, proveem, se doam e os pequenos recebem, se deixam cuidar, pagam em alegrias, em sorrisos, até ousam pequenas aventuras fora, mas sempre retornando logo à casa e contando tudo o que aconteceu no mundo estranho. O sentimento dos pais é de grande realização, de que a função deles na vida está sendo cumprida, e com louvor. O dos filhos, de que estão muito cômodos e bem protegidos. Ao cair na grande tentação de tratar seus rebentos já crescidos como criancinhas, os adultos mantêm seu poder sobre eles. Já para o jovem, a tentação é se acomodar numa posição pseudoprotegida, sem sofrimentos e sem responsabilidades. (Na verdade, uma ilusão, pois não há possibilidade de alguém ter o poder de proteger outrem de todas as dores). A infantilização de filhos adultos tem recompensas para os pais, que procuram perpetuar uma situação que não existe mais, mas que era agradável, recompensadora e acertada no passado; e tem recompensas para os filhos, que procuram prolongar os privilégios da infância e se esquivar das durezas próprias da idade adulta. Só que é uma situação inapropriada, artificial, pois os filhos não são mais crianças; fugir da realidade, mesmo que seja com a intenção de não passar por sofrimentos, não é saudável do ponto de vista da saúde emocional e do equilíbrio psicológico! O melhor jeito de não se deixar cair nessas armadilhas tão sedutoras da onipotência, do exercício do poder e da vaidade é fazer constantes revisões das situações enfrentadas, dos comportamentos exibidos e dos sentimentos experimentados; manter conversas muito sinceras e bem intencionadas com outras pessoas da família (eventualmente com profissionais preparados para tais fins); e ter a coragem de ir se modificando, conforme o tempo passa.

 

 

Maria Celia Teixeira Azevedo de Abreu

Publicado em junho/2006 na Revista Ir ao Povo

 

 

Convivência intergeracional: avós e netos

Vivemos uma época interessante: não há um único modelo de organização familiar, mas diversos modelos. Tomando-se o aspecto de gerações diferentes que convivem dentro de uma família: há quem se torne avô ou avó desde os trinta e cinco até os setenta anos, por exemplo. Como generalizar sobre "avós"? Vejamos outras situações. Há avós que recusam assumir o papel de cuidadores dos netos; dizem que já criaram os filhos e que agora é tempo de fazerem outras coisas na vida. São decisões que não devem ser julgadas e muito menos condenadas pelos familiares; devem ser compreendidas e respeitadas. São decisões legítimas. Isso só é possível por causa dessa heterogeneidade da organização social atual. Temos avós que têm contatos frequentes com os netos, até diários, mas cada qual morando em seu espaço. Este é o caso em que mais comumente as obrigações de impor normas de disciplina ficam com os pais, e aos avós cabe mais o lado do afeto, dos mimos, do fazer as vontades dos netos. Normalmente, as crianças discriminam muito bem as situações e convivem gostosamente com elas... até tentando algumas chantagenzinhas para ver se conseguem alterá-las, testando seu poder!... E aí precisam perceber que as regras mais importantes, estabelecidas pelos pais, são respeitadas até pelos avós mais amorosos!... A situação em que todos vivem sob o mesmo teto exige que os avós assumam, junto com os pais, funções disciplinadoras. Trata-se de um papel delicado, para que os pais não sejam desautorizados. Conflitos quanto à educação das crianças precisam ser resolvidos com muito respeito, muita compreensão, muita conversa, e um grande esforço para abrir mão do poder do autoritarismo e dos desafios da competição entre os adultos da família. Se conflitos desse tipo são solucionados à medida em que vão aparecendo, a união entre os membros da família se fortalece, trazendo benefícios e satisfação aos adultos e levando as crianças a perceberem, através do exemplo, o que é viver em colaboração e harmonia. É frequente também que os mais novos aprendam que os mais velhos podem precisar de ajuda para algumas tarefas, que não são independentes, e que mesmo assim são tratados com respeito e carinho, e valorizados naquilo que podem contribuir para a família.

 

Em algumas coisas podem ser ajudados pelas próprias crianças, estabelecendo-se uma divisão das responsabilidades. E tais dificuldades não diminuem a capacidade do idoso de dar amor, nem a validade de receber amor. É uma oportunidade de enorme enriquecimento pessoal e familiar, que comprova na prática diária que a família é por excelência um espaço de ajuda mútua! O importante é a família ter um mente que cada um de seus membros, tenha as características que tiver, tem seu lugar assegurado. Normalmente, os mais velhos fazem o papel de "memória" social, aculturando os mais jovens nos usos e costumes da sua comunidade, o que lhes dá a inestimável segurança do sentimento de pertencer, de ter raízes.

 

A sociedade privilegia o adulto jovem, porque ele é produtivo. Porém, não se pode esquecer que tornar-se avô é um fato muito significativo na vida de uma pessoa, e que para a criança ou o jovem a figura dos avós costuma ocupar um espaço igualmente significativo.

 

 

Maria Celia Teixeira Azevedo de Abreu

Publicado em julho/2006 na Revista Ir ao Povo – www.iraopovo.com.br

 

 

A família é o berço

É lugar comum dizer que a família é o berço de tudo. Quando a voz do povo afirma alguma coisa, é melhor prestar atenção, porque a sabedoria popular costuma ser merecedora disso... Vejamos um pouco as consequências da afirmação acima.

 

A família é o espaço por excelência para que a criança se prepare para viver no mundo maior da sociedade. As pessoas aprendem pelo que lhes é falado e pelo que lhes é mostrado, muitas vezes até com mais força. Isso ocorre em qualquer época da vida, mas a infância é a fase das grandes aprendizagens. Assim, as crianças aprendem o que lhes é dito, mas também o que lhes é mostrado pelo exemplo. Muitas vezes o adulto não chega a se dar conta de que tal aprendizagem por imitação está se estabelecendo. Há pais que cobram da escola, ou da igreja, aprendizagens que eles se omitem de proporcionar dentro de casa. A escola é um complemento da família, não a substitui, nem deve ser mais importante para a criança do que a própria família. A igreja igualmente não substitui a função da família. Se a família quer que suas crianças se preocupem com os outros, se direcionem por valores definidos, sejam no futuro, adultos corretos, dignos, produtivos, capazes de exercer sua cidadania, deve saber que essa formação tem berço em casa, e apenas uma continuidade na escola e na igreja.

 

Uma criança que vê que os adultos que ela ama cometem pequenas infrações, pequenas trapaças, dizem pequenas mentiras, está sendo preparada para mais tarde cometer grandes infrações, grandes trapaças, criar grandes mentiras. Não adianta dizer que não é para fazer essas coisas! Sequer adianta castigar a criança que comete uma falta, se os adultos à sua volta cometem faltas... pensando que a criança não está percebendo nada. A mesma situação ocorre quando o adulto, para não ter que fazer um esforço extra, para não provocar uma discussão, porque lhe é difícil manter um "não", ou outras razões assim, finge que não vê que a criança está desrespeitando as regras da família, e deixa passar. Ele está ensinando que é aceitável falar uma coisa e fazer outra diferente. Não há "pequenas" infrações – aceitáveis – e "grandes" infrações, inaceitáveis. Essa linha de demarcação é duvidosa, subjetiva e muito perigosa. Há, sim, uma demarcação entre o "correto" e o "incorreto".

 

Tenho na memória a cena de um filme em que uma família atravessa o tempo da depressão econômica nos Estados Unidos, passando por enormes privações; um dia o garoto aparece com um salame; o pai, com a concordância da mãe, diante dos irmãozinhos, leva o garoto para devolver o salame à mercearia e pedir desculpas ao dono; de volta para casa, segurando-lhe a mão carinhosamente, a única frase que diz, e em seguida o abraça, é: "Na nossa família, não se rouba". Adulto, o garoto ocupou posição de liderança, com dignidade e honestidade, não escorregando nas muitas oportunidades de corrupção que lhe cruzaram o caminho. Quantos pais, entre nós, fariam o mesmo?

 

A sabedoria popular avisa que a família é o berço de tudo. Ela devia avisar também que essa é uma tarefa permanente, difícil, feita de detalhes, que exige persistência, não admite cansaço, deve ser precedida e alimentada por uma reflexão constante... mas cujas compensações são profundas e insubstituíveis!

 

 

Maria Celia Teixeira Azevedo de Abreu

Publicado em agosto/2006 na Revista Ir ao Povo – www.iraopovo.com.br

 

 

História de vida

Uma das coisas mais gostosas que acontece quando as pessoas de uma família se reúnem é quando começam a ser narrados episódios que marcaram aquelas vidas. Com as imposições da cultura atual, em que todos os adultos trabalham fora de casa, crianças e adultos correm pra lá e pra cá a semana inteira, e o lazer é feito diante da televisão ligada, situação pouco propícia a se bater papo e jogar conversa fora, as histórias de vida dos membros da família são pouco compartilhadas e até mesmo ficam guardadas só para aquele (ou aqueles poucos) que a vivenciou. Isso é uma pena, porque conhecer e dividir essas histórias tem um significado muito importante, tanto para cada indivíduo, como para dar uma determinada "cara" àquele grupo familiar, criando-se um verdadeiro "folclore" familiar. Os mais velhos se sentem valorizados; confirmam, em seu íntimo, que cumpriram sua missão enquanto adultos jovens; ocupam o espaço simbólico a que têm direito dentro daquele grupo familiar. Os mais jovens percebem os mais velhos com todo o seu valor, o que é dado por uma visão em perspectiva, uma visão histórica daquela determinada trajetória de vida, muito mais do que a partir de uma "fotografia" de como aquela pessoa é hoje. Os mais jovens também ficam assegurados de que "fazem parte"; conhecer suas raízes dá uma inestimável sensação de segurança e a percepção de que lhes cabe uma missão de continuidade no todo da trajetória do universo. Quando episódios do passado são ventilados e compreendidos, abre-se a possibilidade de vê-los sob novos ângulos; se os fatos não podem ser modificados, a interpretação que se dá a eles pode.

 

Desse modo, eventos esquecidos são devidamente revalorizados, a importância de outros é minimizada, perdas sofridas podem passar a ser melhor aceitas, pessoas que causaram mágoas podem ser compreendidas e até perdoadas. São experiências muito positivas para a saúde emocional, para o crescimento interior, e para um alargamento de horizontes. Olhando o fato sob outro aspecto, hoje se tem certeza que segredos não são saudáveis, do ponto de vista emocional; dificultam o crescimento interior de quem os conserva, são um obstáculo para a liberdade de comunicação entre os que "sabem" e os que "não sabem", e obrigam os que "não sabem" a carregar um peso emocional que eles intuem, mas não identificam, o que causa ansiedade e desconforto. Por difícil que seja a verdade, ela costuma tornar mais fácil a convivência entre as pessoas interessadas do que segredos não compartilhados. Acresce a isso o fato de que alguns episódios parecem pesadíssimos para algumas pessoas, em algumas épocas, mas são interpretados até como corriqueiros por outras pessoas, alguns anos depois. Felizes são as famílias que desenvolvem o costume de, ao se encontrarem ocasionalmente, todos possam dar vazão às suas curiosidades e ir descobrindo a enorme riqueza presente na história de vida de cada um de seus membros, como elas se entrelaçam entre si e também como se influenciam por episódios políticos, sociais, econômicos e geográficos amplos, aparentemente distantes, mas que assim passam a fazer um sentido!

 

 

Maria Celia Teixeira Azevedo de Abreu

Publicado em setembro/2006 na Revista Ir ao Povo – www.iraopovo.com.br

 

 

Rivalidade, ciúmes, inveja

Gostamos de pensar que as famílias – especialmente a nossa! – são perfeitas e estão acima do bem e do mal. Funcionam na base do amor, da colaboração, do respeito, da compreensão. Só que nem sempre é assim!... Individualmente, o ser humano tem qualidades e tem falhas. Por que seria diferente com a família, que é composta por seres humanos, que ainda por cima se relacionam? Para funcionar em harmonia, a família precisa do empenho de cada um de seus membros em direção a esse objetivo. A harmonia não é um presente que caia dos céus: é uma conquista; dá trabalho; exige esforço, determinação e persistência. Admitir ciúmes entre irmãos já é uma verdade relativamente bem aceita. Por exemplo, no caso do primeiro filho que se vê em segundo plano porque nasceu o bebê. Ou a rivalidade do adolescente (rapaz ou moça) que não consegue sucesso com o sexo oposto, enquanto o irmão (ou irmã) é campeão no item “namorar”. Ou a inveja daquele que vai bem nos estudos e no trabalho, por parte daquele que repete de ano, não passa no vestibular ou não consegue estabilidade em emprego algum

 

Mais veladas, com frequência não admitidas conscientemente, existem outras invejas, rivalidades e ciúmes. Pode ser a inveja da mãe em relação à jovem filha, que se mostra mais bonita do que ela própria (ué... as mães não são perfeitas?); a rivalidade do pai que compete com o filho que está se dando melhor na vida do que ele (ué... os pais não se orgulham do sucesso dos filhos?); os ciúmes do pai ou mãe em relação ao namorado(a) do filho(a), inseguros quanto a perder o amor do rebento para esse intruso que se meteu entre eles (ué... pais não colocam a felicidade dos filhos antes da deles mesmos?). Sem se falar no cônjuge que inveja o outro porque acha que em algum setor suas qualidades e conquistas são inferiores aos do outro (ué... o amor não promove o bem do outro?). Etc., etc., etc..

 

O ponto não é impedir que tais sentimentos surjam; nem se recriminar por eles. São manifestações naturais no ser humano. O ponto é impedir que cresçam fora de controle e que dominem as relações familiares. O primeiro passo é reconhecer os sentimentos em si próprio, o que pode ser um bocado difícil e sofrido. Exige-se um grande esforço da razão sobre o coração. Outros membros da família podem dar ajuda, alertando para o que está ocorrendo, indicando um rumo construtivo a ser seguido, ou dando apoio e incentivo a quem precisa redirecionar tais sentimentos para fins positivos e não destrutivos. Para ajudar, é preciso deixar de fora acusações, interrogatórios invasivos e a tentação de fazer pequenas maldades contra quem já está fragilizado. Interferir nos momentos oportunos, dando uma opinião, apresentando uma contestação para ser refletida, ou apenas ouvindo e acolhendo, é uma habilidade rara e preciosíssima.

 

Não se pode esquecer que aquele que sente inveja ou ciúmes em exagero provavelmente está inseguro e com a auto estima baixa, e é isso que precisa ser reforçado. Não é possível se viver em família sem vivenciar conflitos. Porém, ao longo do tempo, a família que corrige sua rota em direção à harmonia e à produtividade acaba amealhando um inestimável e indestrutível saldo positivo.

 

 

Maria Celia Teixeira Azevedo de Abreu

Publicado em outubro/2006 na Revista Ir ao Povo – www.iraopovo.com.br

 

 

Como falar da morte

Não sei se há alguém que lide bem com perdas. Principalmente com a grande perda representada pela morte. Porém, essa é uma experiência pela qual todas as famílias passam. Não há como fugir. Quando a família onde ocorreu um falecimento tem crianças, os adultos com frequência sentem dificuldade de falar sobre o assunto com ela. Às vezes, o problema está mais com o adulto do que com a criança. Como explicar um fato que ele próprio não aceita? Para o qual ele nunca se preparou? Antes de mais nada, é bom que se volte para dentro de si mesmo, e separe o que é motivo de angústia para ele, daquilo que inquieta a criança, e que pode ser mais simples do que ele está imaginando. Se não fizer isso, pode aumentar a dor da criança, transferindo para ela dores que são suas. Ajuda muito quando a criança, desde pequenina, conversa sobre morte, com calma, sendo assim gradativamente preparada para encará-la, quando se fizer necessário. Lidar com perdas em geral (do brinquedo, do peixinho do aquário, do sapato que não serve mais, do amiguinho que se mudou, etc) funciona como uma preparação.

 

O adulto pode levar a atenção da criança para situações e imagens que conduzem à conclusão de que a vida tem um ciclo natural e finito. Por exemplo, folhas que caem da árvore, depois de cumprido seu ciclo vital. É bom também que o adulto saiba que as crianças compreendem o significado da morte de formas diferentes, conforme seu grau de maturação. Até uns cinco anos, a criança não consegue compreender morte como definitiva e irreversível; associa-a a uma separação, que pode ser temporária; sente-se insegura em relação a não ter alguém que vai cuidar dela. Até uns oito ou nove anos, o conceito de morte como irreversível começa a se firmar; a criança pode criar fantasias de ser culpada por aquela perda, ou de que não é mais amada pela pessoa que se foi. Só depois é que consegue compreender a morte como tal; pede informações detalhadas, pois assim se sente mais equipada para lidar com as emoções.

 

O adulto deve explicar o que aconteceu com clareza, com delicadeza e falando a verdade. Se a criança quiser saber, deve descrever o ritual do velório, do enterro, etc. Certamente, não é preciso se deter em detalhes trágicos, nem ressaltar o quanto se está sofrendo; mas também não é preciso se esconder que se está sofrendo. Se o adulto não responder às dúvidas da criança, ela não vai esquecê-las; pode criar respostas fantasiosas, que podem lhe causar um medo ou uma angústia indevidos. Se a criança não manifestar curiosidade, não há necessidade de atormentá-la com detalhes. Choro, desânimo, inapetência, raiva ou outras mostras de sofrimento não devem ser reprimidas nem censuradas, mas acolhidas, compartilhadas. Se a criança percebe que o adulto, embora sofrendo, acredita que isso faz parte da vida, que a vida deve continuar, ela tem condições de se refazer, de elaborar o luto, como se diz. Nesse momento leva enorme vantagem a família que tem uma fé religiosa, uma crença na imortalidade da alma, no sentido espiritual das fases da vida, e da fase final sobre a terra, que é a morte. Em uma palavra, na existência de um significado para a vida e a morte.

 

 

Maria Celia Teixeira Azevedo de Abreu

Publicado em novembro/2006 na Revista Ir ao Povo – www.iraopovo.com

 

 

Rituais familiares

Cada família tem um jeito de ser. Isso faz com que cada um de seus membros se perceba como pertencente a ela – com obrigações e deveres, e também aconchego, derivado da certeza de se ter um "lugar" no mundo, de se reconhecer entre aquelas pessoas. Uma das melhores maneiras de se perceber a família como um grupo é no exercício dos, por assim dizer, rituais, criados e seguidos por ela.

 

Nos relatos de história de vida, sempre aparecem recordações de rituais familiares; por exemplo, como eram os almoços aos domingos, o aniversário do avô-patriarca, os fins de semana de verão na praia, as festas de casamento, a oração à noite antes de se ir para a cama, etc. Por se repetirem podem, à primeira vista, parecer monótonos, sem criatividade. A longo prazo, imprimem um "logotipo" para aquela família (p. ex.: "em casa sempre se dança nos aniversários e casamentos, ninguém fica sentado"), definem obrigações de seus membros ("tenho que ir para o interior, nesse dia é aniversário de minha avó e ninguém pode faltar"), reafirmam que aquelas pessoas são participantes daquele grupo. São importantes para quem deles participa, exercendo funções diferentes: há os que os preparam, empenhados em que tudo dê certo, nada seja esquecido e todos compareçam, sentindo-se animados antes e gratificados depois; e há o momento em que todos comparecem, cada um se sentindo cuidado, atendido e importante. Claro está que se todo o peso da preparação, financeiro e de tarefas, recai sobre uns poucos, e outros só usufruem, não há harmonia nem satisfação geral. É uma ocasião para avivar os processos de comunicação, preocupando-se em distribuir as atribuições ou em combinar um rodízio. Daí o ritual se transforma em um momento feliz e significativo, a ser relembrado para sempre, inclusive trazendo conforto em épocas difíceis. Mesmo os membros eventualmente ausentes sabem que estarão sendo lembrados e em intenção estarão lá.

 

A celebração do Natal é propícia para o exercício desses rituais familiares. É uma festa que gira em torno da alegria, do pensar no outro (para escolher um presente, para preparar o prato de que ele mais gosta, etc.), do acolher. Há a excitação da expectativa; decisões anteriores; a necessidade das pessoas se comunicarem para tomar as decisões e realizar as tarefas preparatórias; as alianças cheias de pequenos segredos, para criarem surpresas no momento da festa; o exercício do respeito e da aproximação, quando se busca atender as necessidades e gostos de cada um, com paciência e jeitinho. O ponto alto é o momento do encontro festivo, que depois deixa lembranças e permite comentários por muitos dias. Sabemos que tudo na vida tem dois lados. Reunir a família para os rituais do Natal tem o lado da trabalheira, das despesas extra, do sair da rotina, do dar oportunidade para os mais irritadiços e difíceis criarem conflitos que do contrário permaneceriam encobertos. Mas o lado bom, de exercer a criatividade, de exibir habilidades e receber elogios, de ir em busca do belo, de se dispor a acalmar gênios difíceis e a arbitrar conflitos, de poder estar junto com os outros, de experienciar sentimentos de pertencer, de amor e de amizade, esse é um lado que pesa bem mais na balança!

 

 

Maria Celia Teixeira Azevedo de Abreu

Publicado em dezembro/2006 na Revista Ir ao Povo – www.iraopovo.com.br

 

 

Autoridade dos pais

Alguém questionou se a autoridade paterna e materna ainda se fazem necessárias, ou se não se deve mais exercê-la sobre os filhos. Trata-se de dúvida legítima, e capaz de causar ansiedade em pais, mães, avós, filhos e outros componentes da família. Já houve tempos em que a autoridade paterna era absoluta e incontestável. E manifestações de amor aos filhos eram reprimidas e omitidas. Para romper com esse extremo de autoridade e com essa dificuldade de expressar amor, a família precisou pular para o lado oposto: quem "mandam" são os filhos, e cabe aos pais provar insistentemente que os amam.

 

Será que já não estamos na época de movimentos menos exagerados, seja para um lado, seja para o outro, e de mais equilíbrio e harmonia? Um bebê vem ao mundo indefeso e desadaptado. Para que sobreviva e se transforme num adulto construtivo, é protegido e educado por organismos sociais, dos quais o primeiro e mais duradouro é a família (ou algum substituto dela). Através do que aí aprende, e também na escola, nos grupos de lazer, esportes ou produção artística, nas comunidades religiosas, nas associações formadas para fins de trabalho, nas organizações que cuidam da saúde, etc., o "bebê" é capacitado para viver em sociedade, ter saúde, ser feliz, ser útil. E formar sua própria família. Internalizou valores, sendo capaz de uma conduta ética, além de resolver problemas, tomar decisões, criar, assumir liderança, suportar frustrações. Como assimilar e praticar todas essas habilidades? A família funciona como um laboratório de experiências, dentro do qual, protegida, a criança pode treinar e desenvolver, dentro das medidas suportáveis para sua idade, as habilidades que a farão um adulto pleno. Aí entra a importância da autoridade dos pais. Ela estabelece os limites, mostra que chantagens não têm bons resultados práticos e leva a criança a perceber que, por não ter todos os caprichos e fantasias satisfeitos, não deixa de ser amada. Quem enfrenta pequenas perdas na infância se capacita para se defrontar com perdas maiores, inevitáveis na vida adulta, sem se desestruturar. O uso da autoridade dos pais não é descartável. Unicamente com amor, por imenso que seja, não se consegue educar adequadamente...

 

O que a Psicologia tem mostrado é que a autoridade não pode mais ser exercida indiscriminadamente. O adulto precisa antes ter refletido a respeito, conversado com outros interessados, pensado nos prós e nos contras, para estar seguro e tranquilo. Precisa também ser muito consistente no exercício da autoridade; não há nada pior do que dizer uma coisa e fazer outra; ou numa hora dizer uma coisa e em seguida o oposto. A autoridade do pai e da mãe precisa ser exercida de comum acordo, com muita coerência; é igualmente muito deseducativo quando um adulto significativo dá uma ordem, ou estabelece um limite, e outro adulto significativo propõe coisa diferente. Autoridade refletida, consistente e coerente, junto com muito amor manifesto – quem pode pensar em melhor fórmula educativa?

 

 

Maria Celia Teixeira Azevedo de Abreu

Publicado em Janeiro/2007 na Revista Ir ao Povo – www.iraopovo.com.br

 

 

A evolução do amor

Muitas pessoas, especialmente os mais jovens, indagam como é possível se unir a alguém e permanecer apaixonado por essa mesma pessoa por vinte, quarenta, sessenta anos... Sejamos francos: não é possível. Ninguém aguenta ficar apaixonado por muito tempo... entendendo-se paixão por aquele estado alterado, em que a sensibilidade fica à flor da pele, o foco de uns noventa por cento dos pensamentos se dirige para o objeto da paixão, o coração dispara a cada toque de campainha ou telefone, os olhos se enchem de deliciosas lágrimas ao se ouvir uma canção de amor... etc., etc., etc.!!! Esse estado alterado, quase doentio, aproxima o casal, faz com que um se interesse pelo outro, se encante por ele, se dedique a ele, lute por ele. Quando começa a arrefecer e os apaixonados vão retornando a seu modo habitual de ser, pode ir sendo substituído por um sentimento mais brando, mais possível de se conviver com ele, portanto com mais possibilidade de ser duradouro, mas que nem por isso é menos forte. É o que chamamos de amor. O amor não é só um sentimento espontâneo e sobre o qual não se tem controle. Ele envolve uma decisão e um compromisso, que vêm do nosso intelecto, do raciocínio. O amor não é estático nem sempre igual. Ele evolui, transforma-se, frutifica, ou então retrocede, seca, apodrece... dependendo de como é tratado. Exatamente como uma planta que está sob nossos cuidados...

 

O segredo do amor de um casal atravessar décadas está em renová-lo, em vez de desistir dele quando surgir um obstáculo e sair em busca de solução fora da relação. Problemas, dificuldades, crises, ao longo dos anos, são praticamente inevitáveis. Por que não usá-los como uma alavanca para aperfeiçoamento e crescimento, ao invés de desistir e cair fora? Por que não ser generoso com seu cônjuge, e cuidar de si próprio, da aparência, da cultura? Por que não se tornar uma pessoa mais interessante? E tornar o casamento uma relação pela qual valha a pena batalhar, em vez de ser um ninho de censuras, reclamações e outras coisas desagradáveis? Por que não se empenhar em seduzir, namorar, cortejar? Por que não investir em estar a sós? Por que não ir em busca de atividades prazerosas para os dois, que possam sem feitas em comum? Por que não se empenhar profundamente em ouvir o outro, antes de fazer um julgamento ou de determinar uma regra? Por que não sair da rotina, conhecer novas pessoas, novos lugares? Se você se aprimora no seu trabalho, por que não gasta energia para se aprimorar dentro de casa? A flexibilidade e a capacidade de perceber e de se adaptar a novas fases da vida permite que o amor evolua, se transforme e se aprofunde.

 

De paixão, vai para a cumplicidade, chega na amizade e no companheirismo, passa pela dependência, convive com a saudade, encara desafios – e outras nuances. Ao longo dos anos, essas nuances se repetem, só que sempre com algum aspecto novo... e assim se escrevem as histórias de vida. É porque se renova que o amor entre as mesmas duas pessoas pode durar tanto. Desde que o respeito nunca seja esquecido.

 

 

Maria Celia Teixeira Azevedo de Abreu

Publicado em março/2007 Revista Ir ao Povo – www.iraopovo.com.br

 

 

Orçamento familiar

Entre os assuntos que mais ocasionam brigas e desentendimentos nas famílias estão aqueles que giram em torno de dinheiro. Nem importa se ele é abundante ou minguado: os bate-bocas e as mágoas acabam surgindo. Só que o dinheiro tem que estar presente no cotidiano das famílias, pois não vivemos sem ele... O trato com o dinheiro nos acompanha ao longo da vida, exercendo uma pressão forte e persistente, e permeando todas as áreas. Então, já que é inevitável, o melhor que se tem a fazer é não fugir do tema, mas encará-lo, embora sabendo que é difícil, e buscar as melhores soluções para aquela família.

 

O dinheiro precisa ser levado a sério, sem que se caia no extremo oposto, de ficar obcecado por ele. É um meio para um fim. Não se deve dar mais importância ao meio do que ao fim. Porém, é preciso que se saiba qual é esse fim: o que é que queremos da vida, que tipo de pessoa queremos ser, quais são os valores que orientam as ações? Ao ter consciência de tais respostas, consegue-se lidar com o dinheiro sem se escravizar por ele. A sociedade nos estimula a ganhar e a administrar; por que não aproveitar essa contingência, essa condição da qual não se pode escapar, para através dela buscar o significado que o dinheiro tem para cada família? Costuma-se dizer que o dinheiro desune as pessoas. Isso ocorre, além do fator já mencionado de que nem sempre se tem consciência do que de fato nos motiva, porque é associado a muitas emoções. Entre elas, o prazer de manipular as finanças para ter domínio sobre outros. Portanto, para lidar com o orçamento da família de modo construtivo e equilibrado, é preciso ter muita calma e fazer muito esforço para que o raciocínio, e não as emoções, determinem os planos. Elaborar um orçamento familiar é tarefa para envolver todos os membros.

 

As opiniões dos adultos, por terem mais experiência e mais familiaridade com o tema, devem pesar mais nas decisões finais. Porém, crianças e adolescentes têm aí uma inestimável oportunidade de aprender uma habilidade que lhes vai ser útil para sempre. Podem surpreender com ideias bastante criativas, tanto sugestões para reduzir gastos, como para aumentar a renda da família. Ao participar dessas conversas, se comprometem a colaborar com as decisões tomadas, não importa a idade e a posição que ocupem na constelação familiar. É muito difícil distinguir despesas necessárias de desejo por coisas dispensáveis. Conta a sobrevivência física, em primeiro lugar, e depois valores morais, psicológicos e espirituais.

 

Explicitar essas categorias permite ver com clareza para que rumo se vai direcionar o orçamento

da família. Também ajuda a perceber se desejos individuais não estão se sobrepondo ao bem comunitário do grupo familiar, o que seria mais justo. Manter-se dentro dos planos traçados é outra tarefa árdua, que exige grande disciplina. Neste momento, um pode ajudar o outro a não se desviar dos objetivos traçados. Em suma, mesmo em torno de um assunto espinhoso como é o do orçamento familiar, é possível encontrar alternativas e transformá-lo em ações educativas para os jovens da família e em ações de colaboração e compreensão, bem como exercício de disciplina, para todos os seus membros.

 

 

Maria Celia Teixeira Azevedo de Abreu

Publicado em fevereiro/2007 na Revista Ir ao Povo – www.iraopovo.com.br

 

 

Quando os pais não aceitam

Desde até antes dos filhos nascerem, os pais tecem sonhos sobre o futuro deles. Porém, esses bebês se tornam adultos, tomam suas próprias decisões e nem sempre elas correspondem ao que os pais tanto almejaram. Por vezes, as escolhas dos filhos são inesperadas para os pais, difíceis de serem compreendidas, muito mais de serem aceitas. Entre essas "surpresas", está a escolha de um/a parceiro/a amoroso/a que escapa dos padrões desejados pelos pais. Por razões de diferença de idade, de religião, de raça e outras assim. O/a jovem muitas vezes se protege de decepcionar a família, foge das situações, tenta evitar o relacionamento – mas, então, vem a certeza de que está apaixonado e de que encontrou o companheiro/a da sua vida. Como prevê a não aceitação dos pais, começa a namorar escondido, passa a inventar desculpas, o que lhe é muito desagradável; também se sente profundamente feliz, sem poder compartilhar isso com a família, embora esse estado de felicidade transpareça para quem está perto. Muitas vezes essa é a primeira vez em que o/a jovem diz pequenas (pequenas?) mentiras para a família; até então não o fez; agora, porém, para evitar confrontos profundamente desagradáveis, usa o recurso clássico do oprimido: impedido de fazer o que deseja imperiosamente, não deixa de fazê-lo, só que usa subterfúgios para isso.

 

Para os mais velhos, é uma grande dor descobrir que o/a jovem mente. Para o/a jovem, é uma grande dor ter a família contra seu namoro. É papel dos pais dizer o que pensam, alertar para possíveis perigos, indicar o que imaginam que é o melhor caminho. Só que a palavra final é do/a jovem: ninguém tem o direito de determinar a vida de ninguém, de sonhar por outrem. O/a jovem precisa ouvir com consideração e respeito os argumentos dos mais velhos, que afinal são mais experientes e que os amam; à luz desses argumentos, vai reconsiderar suas decisões, ver se não são simples impulsos, talvez alguma rebeldia, talvez mera curiosidade... mas sem perder a perspectiva de que está redirecionando os rumos de sua própria vida, seu próprio futuro, que não será vivido por outra pessoa.

 

É preciso pensar bem que arcará mais tarde com consequências dessa decisão de hoje, sejam elas quais forem, para o lado da boa vida ou das dificuldades e obstáculos, e que não é justo levar aos pais problemas criados por ele/a, ainda mais se tiver sido alertado sobre essa possibilidade. O/a namorado/a rejeitado/a precisa ser forte e confiante para lidar com a sua não aceitação por aquela família, compreensivo/a e paciente para conviver com os conflitos de seu/sua amado/a, e se encher de persistência para ir provando, aos poucos, que os preconceitos não se justificam, e que o novo casal se ama de verdade e tem todas as chances de viver uma relação longa, produtiva e feliz. Deixar-se conquistar, superar as próprias crenças preconceituosas, em nome da felicidade do/a filho/a, confiar que a educação dada em casa só poderá trazer bons frutos, tudo isso é uma enorme manifestação de amor que os pais podem dar, colocando à frente de suas ideias a esperança na felicidade do/a jovem, e de confiança em sua capacidade de tomar decisões, mesmo que não as compreenda muito bem. E também mantendo a convivência do núcleo familiar, que é um bem precioso, com a aceitação de um membro novo, embora surpreendente!

 

 

Maria Celia Teixeira Azevedo de Abreu

Publicado em abril/2007 na Revista Ir ao Povo – www.iraopovo.com.br

 

 

Sofrer violência em casa: Não!!!

A violência tem frequentado bastante a mídia. Jornais, TV, rádio mostram-na à luz do dia, nas ruas, praças, feiras, escolas... Ela vai se tornando banal e nós vamos ficando indiferentes a ela. Vamos deixando de nos indignar. Vamos deixando de julgá-la como totalmente inaceitável.

 

A violência contra a mulher tem antigas raízes históricas. Foi considerada normal e permitida, até que o movimento feminista, lá pelos anos 70 e 80, passou a denunciá-la como absurda e injustificável. A imagem da mulher submissa, dependente, sem desejo sexual, servindo exclusivamente para as funções domésticas foi finalmente desmascarada como falsa. Em consequência, o casamento passou a ser entendido como o encontro entre dois seres, com diferenças, porém iguais em dignidade e em direitos; o abuso do poder não é aceitável por parte de nenhum dos parceiros. Porém, resquícios dessas ideias permanecem. Há mulheres que se julgam inferiores e, portanto, merecem as agressões do companheiro. Isso não é verdade. Homem e mulher são absolutamente iguais em termos de quanto cada um vale! Há também aquela mulher com um exagerado e distorcido senso de responsabilidade, que se sente obrigada a "recuperar" o companheiro, o que beira a prepotência de achar que ela terá competência para tal tarefa. Isso também não é verdade. A violência recorrente, uma vez que a tal da "recuperação" não se estabelece, começa a fazer parte "natural" do casamento; desgasta a relação e o respeito desaparece. A perda do respeito é uma situação para a qual não há volta. Ainda entre as mulheres responsáveis, há as que suportam a violência para que a família não se desfaça, para que os filhos não sejam prejudicados. Só que o clima familiar respira desajuste, e não há quem seja feliz e cresça equilibrado nesse ambiente.

 

O exemplo é um dos fatores educativos mais fortes; o que as crianças aprenderão é que a violência é aceitável, que a mulher é inferior, portanto deve se humilhar e até por em risco a própria vida e que o homem tem sobre ela poder ilimitado. E não é isso que a mãe conscienciosa e responsável que ensinar aos filhos... A causa que desencadeia a violência conjugal pode ser essa crença indevida na superioridade do homem; ou então pode ser de origem biológica, psicológica, psicossocial. Não importa: nenhuma delas justifica sua aceitação. A violência fere, produz sofrimento, humilha, envergonha, culpa e apavora. Gera depressão, ansiedade, perturbação do sono, transtornos alimentares, fobias, dificuldades sexuais, taquicardia, dores no peito, hipertensão, crises de asma, úlcera, queda de imunidade favorecendo infecções, alcoolismo, tabagismo, uso de remédios calmantes. A manutenção da dignidade como ser humano e da saúde e integridade, físicas e emocionais, é um valor que se sobrepõe à aceitação de ser objeto da violência.

 

 

Maria Celia Teixeira Azevedo de Abreu

Publicado em maio/2007 na Revista Ir ao Povo – www.iraopovo.com.br

 

 

Violência conjugal: é preciso sair dela!

Quando se fala em violência conjugal, em geral se pensa em violência física contra a mulher. Talvez esta seja mesmo a situação mais frequente. O que não quer dizer que seja aceitável: tendemos a nos acostumar com acontecimentos frequentes, eles acabam se banalizando, achamos que temos que conviver com eles... Ao contrário; para se reagir a um fato banal, precisamos reunir uma energia redobrada. Nem sempre a mulher é vítima inocente. Há quem provoque o parceiro e incentive o seu comportamento agressivo, para depois ficar como vítima aos olhos de todos. Alguma gratificação essa mulher alcança com tal tipo de provocação. Pode-se falar então em um casal violento. O que não quer dizer que o comportamento violento seja aceitável! Não importa qual a causa, ele não se justifica. Também não é sempre que a vítima é a mulher. Quando se trata de uso da força física, os homens têm uma natural superioridade sobre as mulheres, portanto a frequência de violência física é maior nessa direção. Os homens tendem a ser mais agredidos psicologicamente, emocionalmente, o que não significa que a dor e a humilhação sejam menores, nem que a perda do respeito e da dignidade sejam inferiores à da violência física.

 

Para se libertar de uma relação conjugal onde exista a prática da violência, a mulher (ou o homem) precisa de ajuda. Precisa rever e esclarecer, para si mesma, alguns valores: a importância de cada sexo, os direitos de cada cônjuge, a diferença entre autoridade e poder; o peso do compromisso do casamento diante da perda da dignidade pessoal. Esse tipo de organização das ideias dificilmente é bem realizado se a pessoa não tem ajuda de alguém com quem dialogar com liberdade. Ela precisa fortalecer sua auto estima.

 

Precisa tomar decisões difíceis, que podem afetar pessoas que ela ama e considera, inclusive filhos, por cuja educação se sente responsável. Precisa reunir forças para agir de forma enérgica e coerente com suas decisões, o que em geral passa por situações de denúncia, vergonha, medo, incompreensão. As decisões precisam ser pesadas e analisadas sob vários pontos de vista, e uma pessoa mergulhada no problema costuma ter dificuldade em ver para ele algumas saídas. Poucas mulheres (e homens) conseguem vencer tudo isso sem ajuda. O simples fato de ir em busca de ajuda já é um obstáculo a ser transposto, pois pode representar uma exposição da vida pessoal difícil e humilhante; ou pode supor um reconhecimento de que se errou, de que algo está errado, o que não é nada agradável e exacerba sentimentos de culpa. Se a ajuda virá da delegacia de polícia, da comunidade religiosa, da vizinhança, de familiares, de estranhos, etc, depende de cada caso e de cada mulher (ou homem). O fato básico é que uma pessoa que é vítima de violência não pode continuar participando de uma situação que é indigna, inaceitável, uma verdadeira armadilha mortífera.

 

 

Maria Celia Teixeira Azevedo de Abreu

Publicado em junho/2007 Revista Ir ao Povo – www.iraopovo.com.br

 

 

Alimentos, vaidades e poderes

Observemos quanto de tempo e energia uma mãe de família (mais raramente, o pai) emprega em torno do tema da alimentação: ela procura receitas nas revistas e jornais, assiste a programas de culinária na televisão, informa-se sobre as propriedades positivas e negativas dos alimentos, troca informações com parentes e amigas, quando prova um prato feito por outra pessoa fica tentando identificar como foi feito, com que temperos, etc. Além disso, a mãe de família planeja o que vai oferecer à mesa, o que faz bem, o que faz mal, o que atrai e apetece... e daí vai às compras. Compara os preços, descobre alguma novidade, rejeita o que lhe parece de má qualidade, modifica mentalmente o que tinha planejado. Manipula os alimentos: separa, lava, pica, descasca, tempera... cozinha, assa, frita... e finalmente dá uma atenção à estética, à apresentação do prato para levá-lo à mesa. Ufa!

 

Pensando assim, compreende-se o quanto do afeto da mãe de família está colocado naquele prato. Mas... é uma pena, mas parece que tudo tem um "mas" nas nossas vidas!... Se por um lado a mãe de família deu o melhor de si para cuidar dos seus – isso é indiscutível – por outro lado ela corre riscos de usar o mesmo processo de cuidar com o fim de exercer e ampliar sua vaidade, obrigando os outros a reconhecer o quanto ela é importante, habilidosa, econômica, criativa, dedicada, e por aí afora. Comprando elogios, torna-se pesada e desagradável para essas mesmas pessoas de quem ela cuida. Pode centralizar-se na bela apresentação e no delicioso sabor de um prato que ela sabe fazer melhor que ninguém, visando os elogios que vai receber, e ignorando que na composição dele entram componentes que vão fazer mal à saúde de quem está sentado à mesa (por exemplo: lindas sobremesas com açúcar para quem tem alta taxa de glicose, frituras e outras comidas gordurosas e saborosas para quem tem alta taxa de colesterol ou triglicérides, sem falar em uma bela garrafa de vinho aberta diante de quem tem dificuldades com o álcool). Aquela conversa de que "é só hoje" e "só este pouquinho não vai fazer mal", junto com "eu fiz pra você, como você não vai nem provar?" é uma tentativa de exercer poder sobre os outros, de obrigá-los a fazer o que eles não devem, como uma forma de demonstrar consideração e afeto por quem se dedicou a eles. Raramente é uma demonstração consciente, do qual a pessoa se dê conta. Também não é proposital, ela não está visando o mal do outro. Apenas, o outro é deixado para segundo plano: o que é visado é o enaltecimento de si própria(o). Junto com a busca de compensação para tanto esforço e dedicação gastos com o tema da alimentação. E a mãe de família fica atônita e sinceramente magoada com as reações rudes e inexplicáveis dos outros... Como contornar essas dificuldades?

 

Cada família, cada mãe de família, vai ter soluções próprias. De modo geral, algumas sugestões. Pensar sobre o que acontece em casa, com honestidade e humildade, partir de uma observação isenta de paixões, é a primeira condição para se encontrar onde estão as falhas e quais podem ser as soluções. Talvez pedir ajuda de membros da família para montar um cardápio, descobrir uma receita, fazer algumas das compras, quem sabe preparar algum prato... ou seja, descentralizar os cuidados com a alimentação, dividindo responsabilidades. O que permite que os outros também cresçam e aprendam. Principalmente, tirar o foco de si, de suas habilidades, e colocar como mais importante do processo cada uma das pessoas que vai consumir aquela alimentação. O que implica em respeitar suas necessidades de saúde, bem como seus gostos e preferências. Reconhecer que não são os que comem que estão a serviço de quem cozinha: cuidar da alimentação de uma família significa "estar a serviço de".

 

 

Maria Celia Teixeira Azevedo de Abreu

Publicado em julho/2007 na Revista Ir ao Povo – www.iraopovo.com.br

 

 

Papel de pai

Educar filho é tarefa das mais gratificantes. Cada pequeno progresso, cada etapa vencida, quanta alegria para os pais! Compartilhar com alguém que vibra tanto quanto a gente, que compreende profundamente essas pequenas (e grandes) vitórias, torna esse sentimento ainda mais intenso. Mãe e pai dividem em partes iguais o privilégio de observar o desenvolvimento de sua criança, cujo progresso se deve em boa parte às ações educativas deles mesmos. A educação do filho é um importante objetivo de vida, comum a ambos. Como tudo tem dois lados... educar filho é tarefa das mais exigentes. Não tem hora, nem data para acabar, nem férias. Demanda esforços físicos, intelectuais e emocionais. Gera insegurança, pois ser mãe ou pai não garante que se sabe tudo, que se tem certezas, que não se erra. Exige renúncias. Pede constantes e cansativas revisões, para se decidir se os atos educativos estão apontando para os objetivos pretendidos. Dividir essas exigências e responsabilidades alivia a tarefa de educar, e também aumenta a probabilidade de se acertar, pois duas cabeças pensam melhor que uma. Se o compartilhar de alegrias e a busca de alívio para as exigências ocorre num clima de colaboração e compreensão, torna-se fator de crescimento para os pais e de aprofundamento da união entre o casal. Até há pouco tempo, mais do que compartilhar, havia uma divisão desigual de tarefas entre o casal. A sociedade mudou com rapidez, e a meu ver foram beneficiados os filhos, as mães e os pais. Evoluiu para uma situação mais equilibrada, em que pais e mães têm direitos e deveres de mesmo valor, e em que os pontos fortes de cada um podem ser bem aproveitados para educar os filhos, independente de serem atribuídos tradicionalmente ao homem ou à mulher.

 

O homem está mais presente nas tarefas de ser pai, e ganhando uma boa oportunidade de contribuir com a tarefa educativa, além de ser apenas o tradicional provedor. Como isso é gratificante para o pai! de ajuda. O pai não precisa mais ser durão, cobrador, exigente, poderoso, inflingidor de castigos. Claro que também não é para ser frouxo! Pode ser sensível à dor (embora às vezes seja difícil expressar que se está sofrendo...), pode demonstrar afetos, adotar uma postura amorosa, carinhosa, empática (às vezes, é difícil mostrar que se ama...), pode ir às reuniões escolares, e coisas assim... e nada disso tem a ver com perda de masculinidade. O que continua importante é o respeito: ensinar o filho a respeitar, o que começa pelo exemplo de respeitá-lo. É pelo exemplo que as crianças aprendem muito, e com frequência não temos consciência disso. Brigas, grosserias, palavrões terão alta probabilidade de serem incorporados ao repertório da criança se fazem parte dos comportamentos do pai (ou da mãe). Ironias e piadas que ridicularizam grupos humanos ficam registradas para a criança, não como tiradas de humor inteligente, mas como verdade. Quem dá o tom na relação pai-filho(a) é o pai, o adulto. Para introduzir o respeito, ele dá o exemplo, inclusive na forma como se relaciona com a mãe, e também coloca com clareza os limites e os segue sem exceção.

 

Os prováveis conflitos com a mãe devem ser resolvidos entre os dois apenas, e com calma. Diante da criança, o respeito à mãe e às regras pré-estabelecidas é estritamente mantido. Caso o pai tenha errado, é mais saudável reconhecer e corrigir-se, do que tentar esconder o erro, disfarçar ou trapacear, fazendo pouco da capacidade intelectiva do filho/a. Esperando que em ocasião futura o filho não irá disfarçar ou trapacear com ele, pai; ou com outros adultos significativos.

 

O pai de hoje, que divide e compartilha a educação do filho(a), que aproveita seus pontos mais fortes e os da mãe, que valoriza o respeito nas relações familiares, que é amoroso sem perder os limites, oferece ao filho(a) uma educação emocional e social, além da intelectual e dos cuidados físicos, preparando caminho para que essa criança se torne um adulto maduro e equilibrado. De quebra, está oferecendo a si próprio uma boa oportunidade de crescimento pessoal...

 

 

Maria Celia Teixeira Azevedo de Abreu

Publicado em agosto/2007 na Revista Ir ao Povo www.iraopovo.com.br

 

 

Televisão: para o bem ou para o mal?

Quem não ouviu discursos saudosistas, afirmando que antigamente sim é que a vida era boa, que a televisão acabou com a vida da família, as visitas, as conversas com os vizinhos à noite nas calçadas... Ora, lembranças pessoais são deliciosas; porém, não adianta brigar contra a evolução da sociedade. O fato é que a televisão faz parte de nossas vidas. Assim como o automóvel, o telefone, o computador, a máquina de lavar, etc., etc., etc....

 

Viver o presente, com o olhar voltado para o futuro, significa considerar a realidade e refletir sobre como tirar proveito dos seus pontos positivos. A televisão – como outros inventos da tecnologia – existe nem só para fazer bem, nem só para fazer mal. Depende de como é usada. O tempo em que se assiste televisão precisa ser dosado; cada família vai chegar num acordo sobre as horas, talvez os dias, em que o aparelho é ligado. É importantíssimo que ela não seja um substituto de babá: "vamos deixar as crianças vendo televisão, porque assim não aprontam"! Mas o que é que elas estarão aprendendo diante de uma TV ligada? Há uma tendência de usar a televisão para "entreter" também idosos: eles ficam ali sentadinhos, dão umas cochiladas, nem sabem direito a que estão assistindo, mas não incomodam, não querem conversar, se meter nos trabalhos da casa, pensar em ir pra rua...

 

Nem é preciso comentar o quanto isso pode ser pernicioso para a saúde física, emocional e mental de um adulto idoso... A família que melhor aproveita a televisão é aquela em que os adultos assistem aos programas junto com as crianças. Assim os temas se tornam assunto de conversa e pretexto para os adultos irem transmitindo valores aos jovens, bem como chamando a atenção para conceitos que os programas informam, mas nem sempre são captados pelo telespectador. Telenovelas ou filmes, por exemplo, levantam excelentes pretextos para se debater temas importantes. Mas é preciso que os adultos estejam atentos para aproveitar as oportunidades, para que as ideias sejam incorporadas com senso crítico pelos mais jovens e não simplesmente resvalem pela pele sem deixar marcas.

 

São temas com as quais, mais cedo ou mais tarde, o jovem vai se defrontar na vida; por que não prepará-lo para isso? Cabe à família, aos adultos da família, criar de modo ativo essas oportunidades. Também cabe aos adultos da família decidir se seus jovens já estão ou ainda não estão preparados para discutir e compreender determinadas situações de vida, permitindo ou não que determinados programas sejam assistidos. Cabe à família assumir a difícil e demorada tarefa de formar valores sólidos em seus jovens. Educar é primordialmente função da família; não se deve abrir mão dela, delegá-la para a escola, para grupos comunitários ou para o governo. A televisão faz parte dessa tarefa.

 

 

Maria Celia Teixeira Azevedo de Abreu

Publicado em setembro/2007 na Revista Ir ao Povo – www.iraopovo.com.br

 

 

Vamos brincar?

Para a sociedade funcionar como deve, o trabalho é um fator essencial. Ora, brincar é o trabalho das crianças. É fundamental para a infância funcionar como deve! As brincadeiras são diferentes conforme a idade e conforme a herança cultural. Cada criança tem um estilo diferente de brincar e gosta de brincar com coisas diferentes. Muito novas, brincam sozinhas; depois, ao lado de outras crianças; por fim, estão capacitadas para interagir e para cooperar (o que não quer dizer que abandonem seus momentos de brincar sozinhas). Na brincadeira solitária, são estimulados o desenvolvimento cognitivo e físico.

 

Em grupo, pratica-se habilidades interpessoais e de comunicação, experimenta-se papéis e obedece-se a regras. Por exemplo, quando a criança pequena, brincando sozinha ou ao lado de outra, constrói uma torre empilhando blocos de cores e formas diferentes, estabelece bases para os conceitos da matemática, coordena a visão com o movimento, aprende a usar músculos, discrimina formas, tamanhos e cores. O faz-de-conta inicia como solitário e evolui para os jogos dramáticos que envolvem outras crianças. Nele, os pequenos experimentam papéis novos, enfrentam emoções desconfortáveis, colocam-se no ponto de vista de outros e não se sentem ameaçadas por tais "ousadias”, uma vez que sabem que estão atuando no plano da imaginação. Ao lançar um pano sobre os ombros e "tornar-se" um super-herói, a criança experimenta ser poderosa, bondosa, importante, diferente etc. e também como é ser percebida pelos outros desse jeito. O faz-de-conta exige abstração da realidade, uma capacidade cognitiva, portanto, não costuma aparecer antes dos dois e meio ou três anos de idade. As crianças que costumam brincar de faz-de-conta são em geral mais cooperativas com outras crianças, mais alegres e possivelmente mais criativas. Assistir televisão por muitas horas dificulta brincar usando a imaginação, não só porque não sobra muito tempo, como porque a TV estimula a receber mensagens passivamente, em vez de inventar as próprias.

 

Crianças com seis anos ou mais já são capazes de entender e apreciar jogos sociais com regras formais, como pular corda, jogar bolinha de gude ou futebol de botão. São brincadeiras que preparam emocional e socialmente para viver em sociedade, quando forem adolescentes e adultos. É função dos adultos da família proporcionar ambiente e momentos para suas crianças poderem brincar. Com muita alegria, e sem serem censuradas por estarem "perdendo tempo”, porque na verdade elas estão exercendo tarefas legítimas e indispensáveis para um desenvolvimento saudável e harmonioso.

 

 

Maria Celia Teixeira Azevedo de Abreu

Publicado em outubro/2007 Revista Ir ao Povo – www.iraopovo.com.br

 

 

Refeições em família

Alimento e afeto andam de mãos dadas. A boa qualidade de um tende a facilitar a boa qualidade do outro. Em torno da mesa, a família nutre os tecidos do corpo e também se sustenta emocionalmente. Uma refeição em família simboliza união e comunicação, e isso não tem a ver com iguarias complicadas ou uma simples sopa. O hábito da família se sentar em conjunto para as refeições fica difícil na correria do dia-a-dia. Usar esse momento para dizer coisas agradáveis e para rir também é prejudicado pelo estresse em que costumamos viver. Porém, sua importância é tão grande que vale a pena refletir sobre ela e convencer-se de que vale a pena um esforço para montar estratégias com o fim de conseguir resgatar esse hábito. Claro que há perdas envolvidas: quem está com a família, está deixando de usufruir da companhia de amigos naquele momento. Claro também que não adianta se reunir para brigar, para se exibir, para chantagear emocionalmente.

 

O momento da refeição deve ser agradável, em que se conversa sobre o dia de cada um, se relata coisas boas e dificuldades, se escuta quem fala, se dá opiniões, se debatem valores, sempre tomando muito cuidado para ser respeitoso e não agressivo. Se nossa família é que nos dá segurança e identidade, para ela devemos oferecer o que temos de melhor em nós (o que com frequência nos acostumamos a mostrar para amigos e estranhos...). É uma ocasião em que as crianças, os adolescentes e os velhos da família são ouvidos, não importa o quanto sejam hábeis ou inábeis em se comunicar. Experiências e informações são trocadas. É hora de se alimentar intelectual e emocionalmente.

 

Do ponto de vista da nutrição, come-se sem exagero e mais lentamente, o que é muito saudável, pois a conversa acalma e não se cria a necessidade de compensar afeto de menos com comida demais. Normalmente, quem prepara a refeição vai se preocupar em elaborar pratos mais saudáveis do ponto de vista alimentar, porque o faz de boa vontade e consciente da importância daquele momento. Fica aqui a sugestão de que esta seja uma tarefa assumida em rodízio, ou então distribuída entre algumas pessoas; uma ideia é que se formem subgrupos misturando um idoso com um jovem ou criança, para juntos assumirem a responsabilidade de preparar a refeição daquele dia; de quebra, as receitas e os truques culinários dos mais velhos vão sendo assimilados pelos mais jovens, o que representa um elemento carregado de muito afeto dentro da família. O acolhimento, a segurança, o sentimento de pertencer a um grupo familiar são assegurados nos momentos em que as refeições são compartilhadas em torno da mesa.

 

 

Maria Celia Teixeira Azevedo de Abreu

Publicado em novembro/2007 na Revista Ir ao Povo – www.iraopovo.com.br

 

 

No curso da vida

Sou uma pessoa idosa. Quantos se descrevem com essa frase? E, entre aqueles que o fazem, quantos a dizem com naturalidade, sem amargura? Um adulto jovem conta sem nenhum problema e até com certo entusiasmo: sou jovem!

 

Um adolescente fala com orgulho e com a tranquila expectativa de ser respeitado: sou adolescente! Uma criança tem alegria quando diz: sou criança! Por que o adulto idoso não se sente à vontade para se auto definir como idoso? E por que outras pessoas, referindo-se a ele, hesitam em taxá-lo como idoso, como se isso fosse magoá-lo? Acima de qualquer outro fator, esta é uma dificuldade criada pela nossa sociedade e pelos valores que ela transmite. A pessoa idosa se percebe um cidadão de segunda, desvalorizado pelos outros. Ela própria, quando jovem, possivelmente teve palavras e comportamentos que revelavam que ela considerava o idoso como uma categoria inferior, porque sua capacidade de produzir, de trabalhar, estava diminuída.

 

A sociedade convenciona simbolizar o ciclo da vida por uma montanha, que se sobe até certo ponto, adquirindo coisas; atinge-se um pico, que corresponde à fase de produtividade máxima; e depois se empreende uma descida dolorosa, na qual só se vão perdendo coisas. Acho essa imagem inadequada, irreal e baseada em valores injustos. O valor do ser humano é sempre o mesmo, em qualquer etapa da vida. Prefiro a imagem de se percorrer, ao longo da vida, uma estrada que vai atravessando paisagens diversas, algumas mais áridas, algumas mais amenas, ora atravessando um atoleiro, ora protegendo o caminhante com um delicioso sombreado, marginada ora por rochas, ora por flores. No curso da vida, cada fase de idade é tão natural e tem tanta importância quanto qualquer outra. Todas as fases têm alegrias e todas têm dificuldades. Quando se passa para uma fase seguinte, seja ela qual for, se adquirem novas características, bem como se perdem outras, próprias da fase anterior. Esse andamento é inexorável e imutável. Será interrompido, em algum momento que não nos é dado conhecer de antemão, pela morte, outro fator natural, inexorável e imutável... e que a gente também tem enorme dificuldade em aceitar!

 

Convido o leitor idoso, a quem esta coluna se dirige, a refletir sobre essa proposta de se encarar as diversas etapas da vida com naturalidade e considerá-las de igual valor, embora com características diversas. Compactuar com esse ponto de vista tem consequências em comportamentos do dia-a-dia. Em próximos artigos, vamos abordar itens de interesse da pessoa idosa, partindo dessa ideia de que as várias etapas da vida são melhor simbolizadas por uma estrada com uma sequência de paisagens. Pode nem sempre ser tarefa fácil: assumir essa ideia significa derrubar alguns preconceitos...

 

 

Maria Celia Teixeira Azevedo de Abreu

 

 

Os desafios das mudanças

Com o passar do tempo, ocorrem necessariamente modificações no ser humano. Quem está na fase da maturidade ou da velhice tem uma tendência a prestar mais atenção às mudanças que aparecem no corpo. Quem já viveu um tempo razoavelmente longo, considerando-se a expectativa de anos de vida, sofre alterações físicas e biológicas. Isso pede que se vá em busca de novas alternativas, novos procedimentos e novas soluções, para que a qualidade de vida seja preservada.

 

Os antigos procedimentos eram bons para um corpo com características diferentes. Aliás, a busca de novas adaptações não ocorre só na fase da velhice; o que era bom para o bebê deixa de ser bom para a criança; o adolescente precisa adotar novos procedimentos, deixando para trás os que lhe eram eficientes quando ele era criança; e assim por diante. As modificações ocorrem também no plano psicológico, emocional, embora nos demos menos conta disso de que no plano físico. Há dificuldades subjetivas típicas da fase do envelhecimento. Por exemplo, a elaboração de perdas; a percepção da finitude da vida como um fato razoavelmente próximo; o ter consciência de que alguns sonhos não terão mais possibilidade de serem concretizados; a percepção de si próprio como uma pessoa em estado de mudança; a exigência de uma grande flexibilidade para que a nova etapa do ciclo de vida seja bem recebida e bem aproveitada, habilidade sobre a qual o idoso nunca pensou antes e para cujo exercício nunca de preparou.

 

É voz corrente que ser adolescente é difícil, porque exige certos ajustes emocionais. Bem, ser idoso é tão ou mais difícil, porque ajustes emocionais também precisam ser feitos, só que ninguém toca nesse assunto. Para complicar mais a situação do idoso, é bom lembrar que também há mudanças na área das relações sociais: família, lazer, trabalho, finanças. Para aqueles que, enquanto adultos jovens, trabalhavam “fora”, como se costuma dizer, a aposentadoria é um vigoroso divisor de águas. Por alguns, recebida como uma bênção; por outros, como uma catástrofe... e em geral como uma surpresa!... Pode surgir o tempo livre, e o não saber o que fazer com ele. A reorganização da família tem que ser vivenciada pelo adulto maduro, novas fórmulas de convivência e novas definições de papel precisam ser descobertas, e isso não é nada fácil: pessoas que falecem, membros que são agregados através de casamento ou de nascimento, filhos que se tornam adultos e saem de casa, adultos idosos que perdem parte de sua antiga independência e passam a reclamar cuidados.

 

Há também a questão dos rendimentos financeiros, que tendem a diminuir. A ideia que quero passar, estimulando que se reflita sobre tais fatos, não é uma ideia de pessimismo. É de desafio. Ser idoso é uma fase natural do ciclo de vida humana, e tem características próprias, que não aparecem ou não são importantes nas outras etapas. Viver é uma constante luta, um permanente corrigir a rota, para se manter voltado para o norte da boa qualidade de vida. Há boas recompensas para quem topa esse desafio com empenho, entusiasmo, sem preguiça nem acomodação. Ter consciência do dinamismo natural da vida – que se manifesta no corpo, no emocional e nas relações sociais – é um importante componente para se viver bem a fase da velhice.

 

 

Ensinar a ser respeitado

Respeito é bom e eu gosto. Eis um dito popular que bem poderia ter sido inventado por um idoso... O idoso gosta de ser acarinhado, admirado, amado... mas também gosta muito de ser respeitado. Nesta sociedade na qual idosos costumam ser considerados cidadãos de segunda, o respeito nem sempre é um valor lembrado. Mas também ocorre que há pessoas bem intencionadas, mas que não sabem como expressar respeito, confundindo-o com expressões de carinho ou de intimidade; há os que não percebem que estão sendo invasivos, autoritários ou inadequados.

 

O idoso é vítima dessa falta de respeito, ou falta de uma reflexão sobre o respeito que lhe é devido. Só que ele não precisa ser uma vítima passiva. Ao contrário, pode tomar para si a tarefa de educar os seus próximos. Com firmeza, paciência e tenacidade, e não com gritos, agressividade, irritação, ironia ou maldades, como cabe a um educador. Vai acabar conseguindo bons resultados. Deve partir do princípio de que os outros não são mal intencionados; são apenas desinformados, desatentos, despreparados ou negligentes. Cada idoso decide o que o incomoda, o que ele considera falta de respeito, e se isso pode ser modificado. Sabemos que algumas mudanças são quase impossíveis. Por exemplo (como muito bem observa dona Teresinha), o idoso internado num hospital não tem possibilidade de escolher qual enfermeiro quer para ajudá-lo no banho: os enfermeiros não são muitos, são sobrecarregados de tarefas e precisam ser rápidos para dar conta de todos. Portanto, por constrangedor que seja expor o corpo a um estranho, é preciso compreender que isso precisa ser feito, em nome da saúde, e que aquele enfermeiro(a) é um profissional. Porém, há situações em que a expressão do respeito pode ser melhorada, e o idoso deve aproveitá-las.

 

Só não vamos confundir o lutar por ser respeitado com teimosia ou falta de compreensão de uma situação global complicada. Vejamos alguns exemplos. Se ser tratado de "vovozinho/a" o incomoda, o idoso deve dizer com delicadeza, mas claramente e com firmeza: "Eu prefiro que me chame de "seu" Fulano, de dona Fulana; não sou vovozinho/a". Ou em outra situação: "Não gosto de ser tratado como criança; não precisa falar comigo como se eu fosse um bebê para eu saber que você gosta de mim". Quem sabe, ainda: "Você não precisa fazer isso por mim, porque posso fazer sozinho; se eu não tiver nada pra fazer, vou me sentir inútil; só tenha paciência porque faço devagar". Ao expor seu modo de pensar, dizer o que o incomoda, explicar como o outro pode fazer e expressar com clareza como se sente, o idoso vai ensinando aos seus próximos como podem ser carinhosos e atenciosos sem deixar de serem respeitosos. Como todo educador, o idoso vai ter que se repetir, sem desistir nem perder a paciência, pois às vezes as pessoas demoram a aprender, e podem ter retrocessos. Quem não se considera um cidadão de segunda categoria adota a postura saudável de batalhar para se fazer respeitar, ao invés de cair na armadilha, sem objetivo, de ser passivo, "engolir o sapo" ou exercer pequenas vinganças.

 

 

Munição para as crises

Atravessar a etapa de vida da velhice nem sempre é fácil. Em fases anteriores, nada nem ninguém advertiu o futuro idoso para fazer uma preparação. Aí, o adulto se percebe idoso e é tomado de surpresa; ignora informações das quais já poderia dispor, prejudicou a saúde física porque não percebeu que a prevenção é mais importante até que a cura, e assim por diante. Muitas das dificuldades da velhice são sócio-emocionais: solidão, não existência de objetivos, perdas. Ora, há alguns elementos que funcionam como um reservatório de munições: dão forças e ajudam a superar momentos de fragilidade, que fatalmente ocorrem, com o mínimo de dor e de duração possíveis. São munições que idealmente devem ser acumuladas e cultivadas, deliberadamente; quanto mais bem fornido o reservatório, mais apoio tem a pessoa para enfrentar as crises. Se não tiverem sido acumuladas, sempre é tempo de correr atrás das soluções, só que o esforço precisa agora ser bem maior.

 

Vejamos uma dessas categorias do que estou chamando de munição para crises. Está melhor equipado para enfrentar uma dor emocional o idoso que ao longo de sua vida dedicou tempo e energia para cultivar relações sociais, variando do conhecimento à amizade. Parentes, vizinhos, compadres, colegas de trabalho, sócios do clube, frequentadores da igreja, etc., de sexo, idade, profissão e condição social diversas, enriquecem as experiências de vida de uma pessoa, em qualquer fase da vida, e são elementos importantes quando se está na velhice. Formam uma rede de sustentação para ocasiões dolorosas, de combate à solidão e uma fonte de renovação de interesses pela vida. Cultivar amizades é uma habilidade sócio-emocional; como tal, quanto mais praticada, mais fácil e prazerosa fica. Mesmo dentro do grupo familiar a amizade precisa ser cuidada; não é pelo simples fato de ser parente que alguém se sente afetivamente próximo de outrem; é preciso que comportamentos e palavras, em ocasiões diversas, expressem e consolidem o afeto e a solidariedade.

 

O idoso de hoje, que não se municiou em momentos de vida anteriores, pode refletir sobre sua importância, e reunir energia, persistência e criatividade para ir em busca de uma ampliação de sua rede de relacionamentos. Há pessoas naturalmente mais sociáveis e expansivas, outras naturalmente mais introvertidas. Com frequência, as mulheres são mais ricas em amizades do que os homens. Não se trata de uma contagem numérica, nem de um concurso que ganha quem se relaciona com maior número de pessoas. Trata-se de cultivar relacionamentos de qualidade... porém, lembrando que é preciso ir atrás deles, cuidar, alimentá-los, principalmente quando tudo está indo bem... porque essa é uma das munições de melhor qualidade para sustentar uma pessoa quando nem tudo vai tão bem!

 

 

Aposentadoria para quê?

Aposentar-se é visto como um prêmio, um alívio, um merecimento. Por que será que para tantas pessoas é tão angustiante e tão ruim? Esse desencontro vem tanto de valores que aprendemos para viver em sociedade, de dificuldades para nos adaptarmos a situações novas, bem como de uma rejeição ao envelhecimento, considerado como decadência, em vez de como uma nova fase natural da vida. Aprendemos que é pelo trabalho que uma pessoa se valoriza. Para os homens este é um princípio mais forte do que para as mulheres, para as quais não há demérito em se dedicar ao lar e à família, sem entrar para o mercado formal de trabalho. Através do trabalho, forma-se a identidade social, que serve para dar um sentido à existência, para se ter um status na sociedade; ao trabalhar, se tem uma organização no espaço e no tempo, sem dizer que é através dele que vem a remuneração financeira. Ao se aposentar, a pessoa precisa se posicionar de novas maneiras diante do mundo. Precisa lutar para ser valorizada pelo que é, não pelo que produz.

 

O mais difícil de tudo é ela mesma incorporar o conceito de que não perdeu seu valor, não permitindo que sua auto-estima caia, e de que está apenas passando para uma outra etapa de vida, tão importante quanto qualquer uma das anteriores. Nessa mudança profunda, o conjunto da vida familiar sofre modificações. A vida social também. Do ponto de vista emocional, o aposentado busca respostas para questões como: para que sirvo? em que sou bom? o que ainda não consegui da vida, e que agora posso batalhar para ter? Quanto à questão financeira, o mais frequente é haver uma diminuição na renda, obrigando a cortes em despesas e adaptações dos planos econômicos. A vida não se resume a uma carreira formal. O trabalho pode ser o foco durante algumas fases da vida, não todas. Há projetos pessoais a serem estabelecidos. Pode-se cuidar mais da própria saúde, pode-se abraçar uma causa voluntária, pode-se decidir iniciar uma nova carreira, ou despertar um potencial que durante os anos dedicados ao trabalho formal ficou adormecido. Pode-se querer conviver mais com pessoas da família.

 

É preciso preparar-se para tomar essas decisões, pensar sobre elas, conversar, ler, ir a palestras, entrar para grupos que discutam esses temas. De preferência antes da aposentadoria se efetivar. Enfim, hoje em dia, quando um trabalhador se aposenta, ele ainda é saudável, produtivo e independente e pode continuar ocupando seu lugar no mundo, contribuindo como voluntário, familiar ou mesmo trabalhador, conforme sua escolha.

 

 

Falsas associações

Dia destes estive assistindo à gravação de algumas entrevistas em que idosos discorriam sobre as condições que, segundo eles, lhes tinham permitido ter uma boa qualidade de vida nessa fase. Chamou-me a atenção o depoimento de um médico, muito bem situado durante longos anos nos meios intelectuais e universitários, agora afastado; ele dizia que não era velho, porque mesmo com cerca de oitenta anos mantinha-se intelectualmente curioso e aberto a novas experiências. Dizia-se criança. Ora, pensei discordando, um homem com essa idade cronológica, se não for idoso... é o que? Criança é que não é! Esse é um bom exemplo de preconceitos a respeito do idoso, sobre os quais venho falando nesta coluna, e que são tomados como se fossem naturais. Só que não são.

 

Manter-se com a mente ativa, perguntador, curioso, interessado no mundo e na vida podem muito bem ser traços do idoso. Fazer esporte, usar a vaidade para conservar a saúde e para se tornar agradável no contato social, alimentar uma rede ampla e animada de relacionamentos... podem muito bem ser condições do idoso. Namorar, apaixonar-se, amar... por que seriam exclusividade do jovem? A ciência e a pesquisa mostram essas verdades: características desse tipo são perfeitamente possíveis de fazerem parte do mundo do idoso. Porém, nossa cultura acostumou-se a associar ao velho, indevidamente, adjetivos tais como desinteressado, desinteressante, parado no tempo, feio, doente, sozinho... e outros semelhantes.

 

É contra essas falsas associações que precisamos estar alerta, para poder combatê-las. Sendo inverdades, são prejudiciais. O próprio idoso, que vive inserido nessa cultura, assimila as associações e prejudica a si próprio, impondo-se limitações desnecessárias, preconceituosas. Então, proponho que o primeiro a se dispor a combater essas inverdades seja o principal interessado, o idoso. Deve retificar suas crenças indevidas. Antes de assumir como correto qualquer afirmação sobre sua fase de vida, deve se perguntar: "por que não? será mesmo? isso é verdade ou é preconceito?" e coisas desse tipo. A partir dele, os que o rodeiam, e que estão em outras etapas do ciclo da vida, vão começar a ser induzidos a fazer os mesmos questionamentos. E aí não vamos mais precisar dizer que um homem de oitenta anos não é idoso; vamos dizer que ele é idoso, ativo e inquiridor; vamos parar de pensar em certas características como propriedade exclusiva do adulto jovem. Para terminar, vou relatar uma frase que foi ouvida de uma senhora idosa, ao se consultar com um médico que lhe dizia para se conformar, porque o mal que ela portava em uma das pernas era "natural", era "coisa da idade": "Não aceito que não tem cura, doutor; a minha outra perna tem a mesmíssima idade desta e está perfeita!".

 

 

A arte de seduzir

Talvez o idoso de hoje já tenha desenvolvido a arte de seduzir. Em geral, é uma habilidade muito útil quando se é jovem, em relação a pessoa de sexo oposto, com fins amorosos. Também é uma arte da qual se lança mão na fase de adulto, em relação a potenciais parceiros de trabalho, de cuja colaboração se necessita. Por exemplo, o vendedor seduz o potencial comprador; o empregado seduz o chefe tendo em vista uma possível promoção, etc. A sedução também é exercida, em qualquer fase da vida, em relação a amigos, que não se quer perder, ou a pessoas que se quer conquistar para o rol de amizades. Também há quem nunca, ao longo da vida, se tenha aperfeiçoado na habilidade de seduzir. Para o idoso que aprendeu a seduzir, a vida fica mais fácil. Para o que não se treinou para isso, ainda é tempo de se dedicar a essa arte e se desenvolver nela. A consequência é uma vida povoada de relações sociais e familiares que dão prazer e que se fortalecem espontaneamente, não por obrigação ou por... péssima alternativa, dó!

 

Seduzir é fazer-se agradável, leve, interessante, de modo que o outro tenha vontade de se aproximar, lucre alguma coisa por estar na nossa companhia, sinta-se bem conosco, tenha saudades por estar à distância. Como fazer isso? Aí vão sugestões práticas, pequenas dicas que podem tornar o idoso alguém cuja companhia é desejada. Quando os ouvintes terminam suas ideias favoritas por você, ou dizem que já conhecem aquela história, é tempo de se esforçar para não mais se repetir.

 

Vá em busca de novas ideias para os mesmos temas. Escreva suas histórias de vida prediletas, mas não mais as introduza em suas conversas; em vez disso, introduza histórias que você vai buscar, por exemplo, em biografias de pessoas famosas. É enfadonho ser ouvinte de fatos que já se ouviu; não dá vontade de conversar com essa pessoa... Um conversador sedutor tem a sabedoria de não se repetir em suas conversas. Não fique descrevendo em detalhes as condições fisiológicas de cada um de seus órgãos. Nada demais em contar rapidamente suas condições de saúde, mas detalhes são enfadonhos e o ouvinte não tem nada a fazer com eles. A não ser que seja o médico... ou a pessoa que deve tomar providências sobre sua saúde. Mesmo que o outro faça ar de interessado, pense três vezes se aquele relato sobre doenças, operações, remédios, tratamentos é de verdade interessante... para o outro (porque sabemos que para você é, e muito); se é um tema sedutor. Substitua-o rapidamente por comentários sobre as últimas notícias internacionais. Sobretudo não faça cobranças. Não cobre presença. Não cobre afeto. Se você encontra uma pessoa e a entope de censuras (porque não apareceu, porque não telefonou, porque não se importa comigo, etc.) é bem provável que você esteja sendo uma companhia desagradável e irritante. Admita que se a pessoa não apareceu, ela deve ter tido motivos. Respeite-os! Porém, faça o possível e o impossível para oferecer – em vez de exigir – situações agradáveis, que façam a pessoa ter vontade de estar de novo com você. Seduza-a!

 

 

Nem menino de recados nem panos quentes

Há famílias – ou outros grupos – que entendem que o idoso tem como obrigação assumir a penosa tarefa de transportar mensagens de uns membros para outros, quando estes se desentendem e não querem se falar diretamente. Se isso der prazer ao idoso, se ao fazer papel de intermediário ele se sentir útil, e for competente para desenvolver essa função sem se sacrificar, ótimo! Se não se sentir à vontade nesse papel, e assim mesmo o desempenhar, estará sendo desrespeitoso consigo mesmo. Todos têm seus limites, e o idoso, como qualquer um, tem o direito de observá-los. Há o caso de quem usa essa função para ter poder sobre as pessoas. É uma tentativa de manipular o comportamento alheio. Não permite que as pessoas se conheçam a si mesmas e aos seus próximos como efetivamente são e, em consequência, se desenvolvam como pessoas independentes, nutrindo sempre uma relação de dependência com esse manipulador. Neste caso, mesmo que dê prazer ao idoso, essa não é uma função aconselhável, do ponto de vista psicológico e do ponto de vista ético.

 

A sabedoria é por excelência uma característica da velhice. Ela não é possível em fases anteriores, porque precisa de muitas vivências, de muitas experiências acumuladas, para se consolidar. E quem já viveu muita coisa, e acumulou sabedoria, sabe que proteger o outro da dor nem sempre é uma boa ideia. Não é possível viver sem conflitos e sem sofrimentos. O que é possível é reagir a eles de modos mais ou menos construtivos. Por exemplo, diante de um rompimento amoroso, há quem se embebede, e há quem se inspire para escrever lindos poemas descrevendo o sofrimento: duas reações opostas. Aí, sim, o idoso pode – sabiamente – alertar o familiar, amigo ou conhecido de que está reagindo inadequadamente, que pode olhar o episódio sob outros aspectos, etc.

 

Ao intermediar recados entre pessoas da família que não se falam, por exemplo, pode-se estar tirando dessas pessoas a oportunidade de encararem de frente uma situação difícil, da qual sairão mais fortalecidas e mais sábias do que antes. Claro que o conflito pode ficar ainda pior; mas... não cabe ao idoso sofrer pelos outros! Do mesmo modo, ao proteger pessoas do contato com a verdade, sob o pretexto de que as está protegendo de sofrer, na verdade se está impedindo essas pessoas de tomarem decisões baseadas na realidade. Por exemplo, que direito tem um avô ou avó de proteger o pai/mãe da verdade sobre o comportamento do filho, encobrindo atos perigosos dele, para que o filho não seja castigado, ou para que esse pai/mãe não fique cheio de preocupações? Ou, pior, para "comprar" a cumplicidade do jovem? Não é colocando panos quentes que esse filho vai se emendar... não é tratando o pai/mãe como um bebê indefeso que ele/ela vai tomar as melhores decisões educativas em relação ao filho... O idoso já passou por muita coisa difícil. Agora, ele não precisa mais carregar as cruzes que pertencem a outros. Esta é a fase para se entregar ao que gosta, ao que quer fazer de verdade, ao que lhe dá prazer... e sem culpa! Não é tarefa da terceira idade ser menino de recados nem ser colocador de panos quentes.

 

 

Prevenção de acidentes

Muitas são as normas para prevenir acidente aceitas sem dificuldade, como manda o bom senso: "não fico na corrente de ar para não pegar uma dor de garganta"; "não dirijo alcoolizado para não provocar um desastre"; "não como feijoada à noite para não ter uma indigestão"; etc. Porém, há normas de prevenção, específicas para o idoso, que muitas vezes são ignoradas, ou então, mesmo sendo conhecidas, são "esquecidas". O que não é um comportamento de bom senso!...

 

São normas em geral relacionadas com a saúde e a integridade do corpo. Ao chegar à maturidade, o corpo humano adquire características novas, que vêm substituir as anteriores. Ignorar essas modificações não detém a passagem do tempo, nem apaga as marcas que ela nos deixa. A melhor política, portanto, é buscar recursos para se adaptar às novas características. Vejamos alguns exemplos, para explicar melhor essa ideia da prevenção.

 

Se a visão está prejudicada, pode-se ir atrás de recursos, além dos óculos, para diminuir essa desvantagem. Uma mesa de refeição com louças lisas, de cores fortes, é melhor distinguida do que uma mesa arrumada com uma só cor em tons diversos e com transparências, por elegante que seja. Se a artrite limita os movimentos finos dos dedos, roupas com botõezinhos miúdos e sapatos que pedem um laço são substituídos por roupas fáceis de vestir, com elástico na cintura, com botões grandes, por sapatos de enfiar nos pés. Se os joelhos não têm muita firmeza e as pernas não têm muita força, tapetinhos de quarto, cozinha ou banheiro, embora tornem o ambiente aconchegante, são deixados de lado. O chuveiro ganha um banco sobre o qual se pode sentar confortavelmente para lavar os pés. A escada ganha corrimão e o banheiro algumas barras nas quais se pode segurar, para ajudar o corpo a entrar e sair do chuveiro e a sentar e levantar da privada. Se o coração enfraqueceu, algum tempo do dia do idoso passa a ser usado em caminhadas. Algum outro tipo de exercício físico, pode ser musculação, é acrescentado à rotina, para manter músculos fortalecidos e as juntas com flexibilidade.

 

Se começa uma incontinência urinária, em vez de se trancar em casa e acabar com a vida social, com vergonha, manda o bom senso que se vá atrás da ginástica do períneo, que os fisioterapeutas, recentemente, comprovaram ser extremamente eficaz para acabar com o descontrole da urina; há outros recursos, inclusive a cirurgia; se nada disso funciona, há a fralda geriátrica. Usá-la não é uma humilhação: é dispor de um recurso que existe e que vai dar conforto para um corpo que tem novas características.

 

Em cada casa, para cada pessoa, com bom senso e criatividade, se descobre que tipo de prevenção precisa ser feita, qual é o recurso mais adequado. É importante não ficar agarrado a formas de viver boas para fases anteriores, que não funcionam mais, bem como é preciso um esforço ativo para buscar informações e decidir que mudanças fazer. Ser idoso não é ser passivo! Ao seguir algumas normas de prevenção, não só acidentes são evitados, como a pessoa vai tirar do mundo o que de melhor ele pode oferecer.

 

 

A questão da moradia

Quando tratamos de temas relativos ao envelhecimento, um dos mais controversos é aquele relacionado com a moradia do idoso. A situação ideal é que o idoso continue vivendo onde sempre viveu, e que viva com os familiares. Entretanto, nem sempre morar com a família significa que as necessidades do idoso são atendidas. Nem sempre morar sozinho significa que se é independente. Como já disse antes nesta coluna, a estrada da vida vai percorrendo paisagens novas a cada fase; sabendo disso, podemos nos propor a ser flexíveis. Para cada nova paisagem, adaptações práticas precisam ser feitas, uma vez que ela é diferente das anteriores. Uma situação ideal – continuar morando onde sempre morou – nem sempre é possível para o idoso. Podem pesar razões financeiras e razões pessoais; o grau de dependência do idoso tende a ir aumentando com o passar dos anos, e cada vez mais ele precisa contar com outros para socializar, ter lazer, praticar ritos religiosos, fazer as compras, cuidar da casa, gerir o dinheiro, alimentar-se, fazer sua higiene, tomar os remédios, etc.

 

Outra situação ideal – viver em casa, com a família – nem sempre é possível. Nem sempre a casa tem espaço que permita conforto. Nem sempre as pessoas da família passam o dia em casa e quando chegam à noite estão cansadas e nem um pouco disponíveis para cuidar de um idoso que passou o dia inteiro só, ou mesmo conversar. Ou seja, as circunstâncias de organização da sociedade e das famílias modificaram-se; as crenças sobre a moradia precisam acompanhar essas mudanças. Nos dois casos, uma solução é a presença de um cuidador. Durante o dia, supre as necessidades do idoso, esteja ele em que grau de dependência estiver. Pode também pernoitar. As dificuldades aqui são: encontrar essa pessoa ideal; poder remunerar o cuidador; saber que o idoso se contenta com o convívio social com o cuidador, quando ele está acostumado a conviver com outros tipos de pessoas. Enfim, um cuidador pode ser uma solução perfeita, tanto quanto pode fazer o idoso se sentir rejeitado e mal atendido.

 

Outra possibilidade são as residências especializadas em idosos. Pode oferecer vantagens, se encarada como um apoio à família, um lugar onde vão ser feitas coisas que a família não tem condições de fazer, e não como um substitutivo da família, que vai deixar de pensar em seu idoso e de se preocupar com ele. Hoje em dia, muitos idosos recorrem espontaneamente a tais residências, em busca de escapar do isolamento social e de tirar de seus ombros o peso de cuidar de si mesmo. É uma solução ainda mais adequada para o idoso que tenha alto grau de dependência física, ou que tenha perdido a lucidez, casos em que uma assistência profissional especializada é altamente benéfica. Não é uma solução simples (aliás... qual é?). É preciso que a residência seja um lugar onde a qualidade de vida do idoso seja a mesma que sempre teve em casa. Respeite sua dignidade, atenda suas necessidades de individualidade e privacidade. Condições de higiene, alimentação e saúde precisam ser rigorosas. Para o idoso lúcido, é preciso que ele próprio aceite essa situação, sem se sentir rejeitado e abandonado. Cada família é um caso e cada idoso também. Não há indicações prontas para uma solução ideal. Cada qual deve encontrar o que para ela é a melhor solução. Indicamos algumas possibilidades; há outras. O principal é que tanto o idoso como a família considerem possibilidades sem se deixar limitar por preconceitos emocionais.

 

 

A busca de ajuda na psicoterapia

O conceito de que em qualquer fase da vida – inclusive na velhice – a pessoa tem a possibilidade

de crescer e se desenvolver do ponto de vista da sua personalidade e das suas emoções é relativamente novo na Psicologia. É novo em grande parte pelo aumento numérico recente da população de terceira idade, obrigando a voltar atenção para ela; e também por ser a Psicologia uma ciência ainda jovem, sem ter tido tempo de se dedicar a todas as questões importantes que lhe dizem respeito. Sem aprofundar estudos sobre o tema, acreditava-se que o adulto, depois de uma “certa” idade (seriam os vinte anos? seriam os quarenta? não há concordância a respeito), cristalizava sua personalidade e suas emoções e nada o faria adaptar-se construtivamente a novas circunstâncias. Hoje se sabe que não é assim; porém, em nossas mentes restam traços da falsa crença herdada do passado. Daí a origem de uma dúvida frequente: será que adianta buscar ajuda psicoterapêutica para o idoso? Por vezes, por trás desta dúvida, pode jazer oculta uma razão menos nobre: é mais conveniente ter em casa um idoso deprimido e com baixa auto-estima, do que um idoso ativo, reivindicador, com consciência crítica da realidade. Há também o fato de que a dor no idoso é subestimada; é como se se acreditasse que ela faz parte natural dessa fase, o que não é verdade. Isso diz respeito não só à dor física, que é mais difícil de ser ignorada, mas principalmente à dor psicológica. A resposta à pergunta acima é clara e inequívoca: a psicoterapia pode ser de grande ajuda para o idoso. As mudanças da velhice são radicais. Há necessidade de se desapegar de características de fases anteriores e de assumir condições de uma nova fase, uma nova paisagem, para o que em geral não houve preparação. Deve haver adaptações físicas, familiares, sociais, profissionais, e outras; com o acompanhamento profissional de um psicólogo tais mudanças são conscientizadas, aceitas, solucionadas com mais facilidade do que quando se está só.

 

Um familiar, um amigo, embora muitíssimo bem intencionado, está envolvido na mesma situação que o idoso, o que faz com que a percepção da situação seja a partir do ponto de vista dele; além disso, há um treinamento profissional, um conhecimento da psicologia do envelhecimento, que são fundamentais para o idoso se sentir ouvido e atendido, e para isso o leigo não está preparado.

 

Não necessariamente se procura psicoterapia quando se está em crise. A melhor hora não é essa. O objetivo do crescimento pessoal precisa de um trabalho continuado, persistente, tranquilo, e não ações tipo pronto-socorro para uma dor aguda. Quando se começa a ter algumas dúvidas, alguns questionamentos, quando não se consegue definir com precisão os próprios sentimentos, quando se começa a não se gostar de si mesmo em alguns aspectos, quando se começa a perceber que as metas de vida não servem mais e precisam ser revisadas, essa é uma boa hora para buscar ajuda profissional. Feito um balanço dos fatos e uma reorganização de significados, a pessoa é aliviada da dor e fica apta a explorar com intensidade, inteireza e liberdade as próximas paisagens de vida, porque se tornou mais consciente e mais plena do que quando iniciou o tratamento da psicoterapia – muito embora seja idosa.

 

 

Ideias orientadoras

Este é o último de doze artigos nos quais se tem levantado pontos para reflexão, tendo em vista a melhora da qualidade de vida do idoso. Algumas ideias estiveram orientando esse questionamento. Vamos revê-las, dando-lhes destaque, para ajudar o leitor a fazer um sumário de princípios, útil como orientação para qualquer questão prática, embora estejam subjacentes em todos os artigos desta coluna. O envelhecimento é uma fase natural da vida. Como as outras, tem características próprias, algumas consideradas vantajosas, outras não. Porém, não é uma fase só de perdas e desvantagens, em comparação com fases anteriores que seriam só de ganhos e aquisições – o que também não é verdade. Apenas, é uma paisagem diferente das anteriores. O idoso não perde seu valor como ser humano porque deixa de ser produtivo na sociedade. Esta é uma visão radicalmente capitalista, que considera o bem da produção maior do que o valor do ser humano, seja ele capaz de produzir ou não. O idoso continua em pleno exercício de sua humanidade.

 

Temos visto, nas últimas décadas, um fortalecimento dos movimentos em defesa dos idosos, visando torná-los visíveis, dentro de uma preocupação com os direitos humanos, que incluem os idosos. Em parte tais movimentos se devem ao fato de que a população velha é cada vez mais numerosa e faz maior pressão na sociedade. Essas revisões de posição, trazendo novas soluções, se dão em nível pessoal, com o indivíduo e os familiares revendo o conceito que se tinha do velho, bem como em nível social, reconhecendo o peso da população idosa na economia do país e... nas urnas de uma eleição. Mais do que em qualquer grupo etário, as diferenças individuais entre os idosos são muito fortes. Assim, o que é bom para um idoso, ou para um subgrupo, não funciona para outro.

 

As histórias são cada vez mais diferentes ao longo do curso de vida de cada um, e tornam cada idoso único, diferente dos outros. Por exemplo, há idosos que ao se aposentarem não querem saber de nada mais que passear, dançar, viajar. Outros, que têm um histórico de produção intelectual, por exemplo, não se satisfazem com essas atividades, precisam continuar a se estimular intelectualmente. Questões como o que fazer depois da aposentadoria, onde morar, como morar, quais os deveres e quais os direitos que tem dentro da família, como se comportar para ser um velho agradável e produtivo e não um chantagista emocional e um peso, que recursos usar para cuidar da saúde física, emocional e social, e outras semelhantes, são objeto de reflexão e consequente ação; porém, para cada um, a melhor solução será única. O importante é que sejam explicitadas e discutidas, sem serem deixadas passar batido, ignoradas. Dentro da concepção de que idoso é um ser humano e tem plenos direitos à dignidade e à liberdade, a meta é integrar o idoso à sociedade, e não segregá-lo. Isso inclui manter sua autonomia ao máximo, independente das dificuldades específicas que cada um possa apresentar. Supõe que pessoas de todas as faixas etárias se preocupem com a situação do idoso, inclusive ele mesmo; mais que nunca, deve não se conformar em ser só paciente, recebendo prontas as condições em que vai viver, mas agente ativo dessas propostas, que vão promover sua libertação.

Stress e qualidade de vida

Dentro do simpósio: NOVAS PERSPECTIVAS SOBRE O STRESS

 

Sumário

Esta comunicação, usando informações da Psicologia, propõe-se a: – recordar conceitos de uso corriqueiro quando se aborda o tema focado; – provocar uma reflexão sobre os porquês que levam uma pessoa a se enredar em um estado de stress; – esclarecer como a psicoterapia é fundamental para consolidar modificações oferecidas pelas diversas estratégias de se combater o stress.

 

I PARTE – Recordação de informações de domínio comum – Dr. Hans Selye * 1907 (Viena) + 1982 (Canadá) com 72 anos. Estudou em Praga, Paris e Roma e fixou-se na Universidade McGill, em Montreal. "O experimento malogrado do Dr. Selye" (1934): uma mesma resposta (cortisona aumentada, defesas diminuídas, úlceras gástricas e duodenais) a agressões diferentes ao organismo (além de uma resposta típica a cada tipo de agressor): síndrome geral de adaptação, síndrome de stress biológico, e (em 1936) stress. Teoria apresentada de modo mais completo em 1952: Stress – a Tensão da Vida. Sentidos do termo stress Fontes de stress Externa – agente estressor – condição ambiental que faz exigências Interna – crenças do indivíduo; como o indivíduo interpreta as condições externas, o significado que dá para os fatos; as escolhas que faz.

 

Alterações no organismo

 

– biológicas – psicológicas Curva do stress;

– natural e inevitável;

 

– mecanismo de adaptação e de restabelecimento da normalidade Distress, ou stress negativo, é aquele que é prejudicial ao organismo: – por falta;

 

– ou por excesso Eustress, ou stress positivo, é aquele que está na dose certa para se ter saúde e qualidade de vida. Como um desafio, nos leva a superar nossos limites. Os agentes estressores podem ser: – reais (um terremoto) ou imaginários (acho que meu chefe vai me dispensar);

 

– negativos (a morte de um parente) ou positivos (um aumento salarial) Fases do stress A síndrome geral de adaptação do stress passa por três fases. . Se a ação do estressor é interrompida, o organismo volta ao equilíbrio, esteja em que fase estiver. A duração de cada uma depende: – da capacidade de adaptação do organismo;

 

– da intensidade do estressor Alarme ou alerta – o organismo entra em estado de alerta bioquímico, a resistência do corpo diminui; se o agente estressor for excessivamente forte, pode ocorrer a morte; se o organismo se adapta, surge a segunda fase Resistência – o organismo se adapta às necessidades de defesa; a resistência do corpo aumenta; se o organismo não consegue se manter nesta fase, entra para a terceira Esgotamento ou exaustão– reaparecem os sinais de alarme; aparecem lesões orgânicas; eventualmente ocorre a morte. Consequências do stress Já mencionamos consequências resultantes de alterações endócrinas e do sistema nervoso autônomo. Vejamos algumas outras: Envelhecimento Depois que se sai de uma situação estressante, não se volta ao mesmo nível anterior. A recuperação nunca é completa. As reservas de vitalidade queimadas não se reconstituem por completo. Mesmo que mínimas, as perdas de energia vão-se somando ao longo da vida, precipitando o fenômeno do envelhecimento. De onde deriva essa conclusão: estudos com idosos centenários saudáveis, cujas respostas imunológicas não estão diminuídas. O declínio das respostas imunológicas não depende da idade cronológica, mas do stress acumulado. Depressão Distúrbio do humor, que diminui a qualidade de vida. Pode ser secundária a um stress. É como se a pessoa se refugiasse na depressão para poder conviver com o stress. (Depressão e Maturidade, Brasília: Plano, 2003) Produtividade Ficam prejudicadas funções fundamentais para o trabalho, tais como: – concentração e atenção;

 

– pensamento lógico;

 

– tomar decisões acertadas;

 

– planejar a longo prazo;

 

– organizar;

 

– fixar e buscar informações na memória;

 

– assimilar informações novas;

 

– índices de acertos nas tarefas e de comparecimento ao trabalho;

 

– capacidade de empatizar com clientes e com colegas etc

 

Qualidade de vida Tão ou até mais importante do que a duração da vida, é o nível da qualidade de vida. A busca pela QV deve ser um norte que oriente as ações e as escolhas da pessoa. A qualidade de vida se manifesta em quatro áreas (Marilda Novaes Lipp): – social

 

– afetiva

 

– profissional

 

– da saúde Não basta só a da saúde, por exemplo: bom sono, boa nutrição, bom condicionamento físico. Não bastam só aspectos materiais, como bens adquiridos, sucesso profissional, salário. O stress favorece o desequilíbrio entre essas 4 áreas, e a percepção de que a pessoa não se sente bem sucedida em uma ou mais delas.

 

II PARTE Por que alguém se enreda num estado de stress prejudicial?

Razão cultural Comparado com os últimos 50 anos, temos que hoje a QV melhorou muito, principalmente no que se refere à saúde. Porém: houve um avanço vertiginoso na tecnologia e no acesso a ela. – passamos a viver cada vez mais alertas e mais tensos,

 

– pensamos de forma acelerada,

 

– nossos reflexos são rápidos,

 

– temos dificuldade em nos dedicar:

 

# à discussão sobre valores,

 

# ao lazer relaxante

 

# e à vida interior. Ora, nossa capacidade adaptativa às mudanças é mais lenta que os progressos tecnológicos, que acabam se tornando agentes estressores. A melhora nas condições de QV não é suficiente para neutralizar isso. Razão individual É difícil perceber que se está em stress. Além da valorização cultural para o excesso de trabalho, excesso de compromissos, competitividade, etc, o próprio indivíduo, quanto mais mergulhado num processo de stress, menos percebe os sinais de alerta que o organismo vai dando; só vai se dar conta deles quando estão num nível muito elevado.

 

III PARTE Que contribuições a psicoterapia pode dar?

Motivar a pessoa para que empreenda e se mantenha na busca ativa necessária para – compreender o stress

 

– administrar o stress. Desenvolver uma ação preventiva e equilibrada: facilitar para a pessoa investir ativamente na QV nas áreas social, afetiva, profissional e de saúde Programar o dia-a-dia para ter mais momentos agradáveis e menos eventos ruins; equilibrar prazer e sacrifícios; isso demanda: – uma análise dos hábitos e do estilo de vida,

 

– um pensamento flexível, capaz de visualizar opções Refletir sobre os significados do stress na vida daquela pessoa; encontrar respostas individualizadas para perguntas, como: – há alguma valorização em estar estressado?

 

– a quem convém que a pessoa esteja estressada? Uma habilidade adquirida sem o lastro de um significado não basta para se manter uma boa QV: costuma ser abandonada em pouco tempo, para que os antigos padrões se restabeleçam. Vimos que é mais importante saber como a pessoa encara uma situação do que a situação em si. Para administrar em profundidade o stress, é preciso conhecer-se: – saber o que lhe causa medo, preocupação, insegurança;

 

– reavaliar valores;

 

– reavaliar a auto-estima;

 

– reconhecer seus sentimentos.

 

Maria Celia Teixeira Azevedo de Abreu

 

RESUMO DE COMUNICAÇÃO: STRESS E QUALIDADE DE VIDA

SIMPÓSIO: NOVAS PERSPECTIVAS SOBRE O STRESS

Promoção: SBMF

Publicado em 12/11/2005

 

 

Considerações sobre as fases da vida

Não gosto nem um pouco da imagem de que a vida consiste em nascer ao sopé de uma montanha, ir subindo, subindo, subindo até chegar ao topo, no auge da vida adulta, e depois começar a descer, descer, descer... até encontrar o fim da jornada em algum ponto imprevisto. Ora, pensar que envelhecer consiste em ir perdendo, pouco a pouco, cada uma das coisas que se foi ganhando desde a infância, durante a adolescência, e enquanto adulto jovem, até atingir a maturidade, é uma concepção muito triste e muito derrotista do envelhecimento! Pior: não corresponde aos fatos da vida! Fiquei então procurando uma imagem que explicasse melhor o envelhecimento, ou pelo menos minha percepção do envelhecimento. Não nego que envelhecer é difícil. Nem que é uma fase em que há perdas. Porém... também não é difícil ser criança? Ser jovem? Ser adulto? Por que será que há adolescentes que se negam a assumir seu papel de adultos, prolongando, espichando mesmo, uma idade que a rigor já se foi? Não será porque para eles é mais atraente continuar a ser adolescente do que enfrentar as perdas que ocorrerão quando passarem para a vida adulta? E o mesmo “protesto”, a mesma dificuldade, não aparece em crianças que se recusam a amadurecer, e insistem em comportamentos infantis que não se justificam mais? Além de não terem a menor vontade de perder traços, vantagens, comodidades típicas da infância, sentem um natural medo de viver o desconhecido de uma fase nova.

 

Não é exclusivo do adulto, que acaba de entrar para a fase de ser maduro, esforçar-se para prolongar o quanto pode sua fase de vida de adulto jovem. Ele sabe que haverá perdas e ele também tem medo do desconhecido que vem pela frente. Esse é um fenômeno que aparece em todas as mudanças de fase da vida. Para algumas pessoas, com muita força; para outras, mais discretamente; enquanto que para outras pessoas não chega a se manifestar, e elas mudam de uma fase para outra com suavidade e sem problemas. Felizes os capazes de abraçar a nova idade, seja ela qual for, com curiosidade, entusiasmo e alegria, sem se lamentar do que perderam e sem se agarrar de unhas e dentes ao que já conhecem. Por que será então que só se dá destaque ao fenômeno quando se manifesta na pessoa madura? Não é injusto? Talvez a única característica que só ocorre na velhice é que depois dela não há mais outra fase: ela é a última. Prefiro imaginar que a vida, em vez de ser uma montanha que se sobe e depois se desce, é uma estrada que se percorre. Vai atravessando terrenos diversos, com características diversas, e ao percorrê-la nós precisamos nos adaptar a cada nova paisagem.

 

Haverá ladeiras íngremes, a serem galgadas ou descidas penosamente; haverá trechos desérticos, sob sol escaldante, com solo cheio de pedregulhos pontiagudos; haverá trechos sob árvores frondosas, que fornecerão sombra e frutos, ou campos floridos. Em momentos, caminharemos animadamente em alegres grupos; em outros, cabe a nós vencer a distância sozinhos, quem sabe até no escuro. A cada vez que a estrada nos introduz numa nova paisagem, precisamos descobrir a melhor maneira de transpô-la, de vencer obstáculos, e talvez o que já sabíamos no cenário anterior não nos sirva mais. Temos que reunir energias e entusiasmo e nos concentrar em aprender essas novidades, pois essa é a melhor maneira de se conduzir essa viagem pela vida. Do mesmo modo precisamos contemplá-la com olhos curiosos, sem preconceitos, para desvendar suas belezas e amenidades. Porém, só teremos a liberdade necessária para descobrirmos qualidades se estivermos desprendidos das belezas e vantagens das paisagens anteriores. Se ficarmos nos dedicando a relembrar como era belo o cenário que já percorremos, e a ficar comparando o que vivenciamos hoje com o que já foi vivenciado no passado, não teremos disponibilidade interna para as belezas do novo cenário.

 

É preciso relembrar que o novo costuma causar medo, e para lidar com esse sentimento usamos de muitas desculpas e até de incríveis subterfúgios! Partindo dessa imagem da vida como o percorrer uma estrada que atravessa diversas paisagens, concluímos que cada fase tem suas características. A velhice apenas é uma dessas fases; não se define por acumular perdas em relação a momentos passados: define-se por ter paisagens diferentes das já conhecidas! A chave para se fazer uma viagem alegre, produtiva, saudável está em se ter muita flexibilidade, para que a gente consiga se adaptar às novas paisagens e tirar de cada uma delas o que de melhor possa nos proporcionar!