Suely Tornaque (*)

Olfato, paladar, visão, audição e tato são os sentidos que nos auxiliam, desde o nascimento, a perceber o que ocorre no nosso entorno. Vejo imagens, registro sons; através do paladar consigo degustar sabores; percebo as particularidades de vários objetos que manuseio através do tato: peso, consistência, forma, temperatura.

O olfato desde pequena me levava a vários espaços, paisagens e locais, estão registrados no labirinto da minha memória, as lembranças longínquas da infância. Uma saudade fugidia me inunda quando a chuva cai na terra seca e, conforme ela vai penetrando e abrindo buracos no solo, um novo aroma vai tomando conta do ar que respiro e que translada nestes labirintos da minha memória. Hoje, rodeada do asfalto urbano, não capto mais a fragrância de terra ensopada de chuva. Só será possível essa experiência quando retornar a um sítio do interior, em algum lugar da natureza, abençoado pela chuva.

Lembro a letra da música de Milton Nascimento “ O Cio da Terra”- Afagar a Terra/Conhecer os desejos da Terra/Cio da terra, propicia estação/E fecundar o chão.

Na minha memória, outros labirintos se abrem para esconder inúmeros cheiros de minha meninice – o perfume do pão, quando assado na casa de minha avó. Vai entrando pelas minhas narinas e chega até minha alma; de longe sinto e fico paralisada pelo efeito do pão com abacaxi e amendoim moído. Mas o ingrediente que mais me inunda é a abundância de afeto que ali, minha avó Rosa Garibaldi, colocava. Misturado aos ingredientes, vislumbro a dedicação e benquerença no amassar do pão, que saboreio hoje, na sua ausência.

Sou “tomada” pelos cheiros, seja dos alimentos e dos cremes, após o banho, ao dormir, ao levantar no dia a dia. Quando criança, ao passar por uma mulher perfumada, acompanhava-a com meu olfato, de forma que minha mãe precisava puxar-me pelo braço, para prosseguir a caminhada. Já adulta cheguei a parar garotas, para perguntar os nomes de seus perfumes deliciosos.

Minha mãe Zilda, também desenvolveu o hábito do perfume, o que ficou registrado foram os odores das rosas; às vezes acho que é pelo nome da minha avó, e que está associado aos saborosos alimentos.

Com tantas informações sobre a Covid-19, quando estou preocupada com o tal vírus, a primeira coisa que faço é sair correndo para verificar se tenho olfato e fico cheirando o limão, a maçã, o abacaxi e algum perfume, com medo de perder o olfato. Ainda não sei se é verídico que um dos sintomas da Covid-19 é a perda do olfato e paladar, mas faço esse movimento.

Clarice Lispector, no livro “Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres”, diz que perfumar-se é um “ato secreto e misterioso”,  é uma forma única de se celebrar, você e o perfume se fundem, tornam -se uma completa presença.

Alguns vidrinhos de perfumes me acompanham desde sempre, alguns até não são mais produzidos – são substituídos por outros com fragrâncias mais elaboradas e modernas; tento aprender que as coisas se transformam, mudam e morrem. Outro dia encontrei uma amiga de anos, de antiga amizade, e a primeira fala dela foi que queria nosso perfume da adolescência. Frustrei-a, pois ele não existe mais, só restou a memória, a memória com meus 66 anos, que ainda é muito viva.

No romance italiano “A Escuridão e Mel”, do autor Giovanni Arpino (1927-1987), onde se inspirou o filme “Perfume de Mulher” (1992), a cena marcante é quando Frank (Al Paccino) e Donna (Gabrielle Annvar), dançam um tango divinamente. Ao começar a dança, com ela nos braços, ele diz: delicioso perfume!

Na verdade, ele cego, não vê sua companheira de dança, mas sente que ela é leve como uma pluma. Vai lembrar-se dela por muitos anos, quando sentir novamente a fragrância desse perfume.

Ele será eterno, vai morar dentro dele, em um lugar onde não existe tempo, vai lembrar uma dança iluminada, que começa e não termina. Assim como a marca de um corpo desejado…

(*) Suely Tornaque é gerontóloga e estilista