Suely Tonarque (*)

O que é o passado para cada um de nós? Não dá para voltar ao passado de muitos anos atrás. Para ter essas lembranças longínquas, tenho de carinhosamente conduzir tudo para o presente. Trazer tudo para esse aqui e agora. Sei, no entanto, que muito pouco do que aconteceu, vejo agora, foi me contado por meu pai ou minha avó, e pouco trago como lembrança.

A menina de trança no cabelo, subindo no toco de uma amoreira cortada e depois pulando, surpreendendo todos no quintal de casa, aconteceu, mas quanto é lembrança, quanto é uma narrativa formulada a partir das falas de outra pessoa?

Regresso às fases de minha vida: tenho saudades… Elas trazem uma leve melancolia que me atrela à janela da sala, como se pudessem ir passando e me carregando pelas mãos. De vez em quando demoro mais em uma etapa, passo apressada a um tempo que talvez tenha sido longo, mas me apavora: a solidão ao cair da noite, as incertezas de ter nascido ali. Relembrar tudo isso é cobrir meu rosto, para me ver por dentro.

Quem era eu na potência da vida, que esperava a proteção dos pais, que nada sabia do mundo e o mundo nada sabia de mim? Faço do passado um companheiro para desconstruí-lo novamente. Já com cabelos brancos, pés calçados, trágica, mas não pessimista. Fosse realmente minha vida…

Não posso desembaraçar-me dele. As experiências daqueles momentos fazem com que minha vida, com esse passado, não me deixe uma estranha comigo. De repente eu me sinto uma carta de um baralho que descubro entre outras; todas juntas desfazem o coringa. Coloco em cada uma a chama que me permite viver até hoje.

São tantos fios que me ligam ao passado, enroscados em tantas pessoas que cruzam meu caminho. Como agradecê-las? Tudo parece adoecer de propósito, amaciando as rugas do sono, as promessas desejadas. O passado, acredito eu, está guardado dentro de mim.  Por isso é importante conheceros seus limites e continuar acreditando que posso ampliá-los.

Continuamos confinadas, desde 17 de março, e com tristeza, sem uma pequena esperança de retomarmos a nossa vida “normal”. Ir visitar as amigas, ir ao cinema, agendar um café na livraria ou tomar um vinho na Vila Madalena, entre tantas outras pequenas delícias cotidianas.

Está muito difíci! Mas estou agora conhecendo o hábito de participar cada vez mais nos grupos de estudos por meio da ferramenta ZOOM. Percebo que a cada live que participo saio um pouco melhor, ou seja, o medo e o constrangimento ficam menores. Gosto de ir ao cinema, na escolha do filme já fico criando expectativas, comprar o ingresso, tomar um café, observar o público, ficar com atenção aos novos filmes. Enfim, é um ritual de uma ou duas vezes viver este programa que tanto gosto.

Com o “fique em casa”, aprendi a assistir filmes na TV, são tantas ofertas de canais, que chego a me atrapalhar. Tenho um vizinho jovem que me ajuda a acertar os canais para a programação desejada. Estou quase aprendendo, criando um caderninho do passo a passo.

Nesta pandemia, que parece nunca acabar fui reassistir pela quarta vez ao filme “Cinema Paradise”, de Giuseppe Tornatore, lançado no Brasil em 1990. Imagino que um grande numero de pessoas já viu este espetáculo de filme, que se passa na Sicília (Itália). Um garoto chamado Totó se fascina pelo cinema e inicia uma grande amizade com Alfredo, responsável pela projeção dos filmes na cidade.

A película é de uma sensibilidade que não consigo encontrar palavras para defini-la. A música belíssima nos leva a entrar na tela e ir ao encontro de nossas memórias mais remotas. Leva-nos a  pensar novamente a extensão do que foi registrado e como sentíamos e víamos em cada período de nossas vidas… a infância, a adolescência, a vida adulta e a velhice.

Durante o filme, quando Totó há trinta anos saíra de sua terra natal, ele volta para a cerimonia do enterro de Alfredo. Então, mãe e filho conversam.  A mãe indaga o que ele está pensando.  Sua resposta, faz com que ambos se emocionem (e também o espectador). “Nunca conversamos mãe… Quando era pequeno lhe via como uma velha… só agora me dou conta que era jovem e bonita”

O que é essa memória que fica guardada em nossas lembranças e nos leva a abraçar por uma pequena abertura que somos, em um passado tão presente, para lembrar quem fomos e quem somos, nos oferecendo a oportunidade ter em nossas mãos  a sabedoria e discernimento que o passado às vezes nos alimenta… para continuarmos vivos.

Através destas misturas e misteriosas lembranças é que encontramos e concretizamos novos desafios em nossa velhice.

Uma amiga, quando jovem, tinha o sonho de acampar com seu namorado em uma praia deserta. Deixou guardado em sua memória o sonho.  Os anos se passaram: casou, teve três filhos, ficou viúva.  Está hoje namorando (ele com 72 anos e ela com 70 anos), e verificando  que ambos  não estavam com a Covid-19 puderam  acampar em Parati.

Após esta aventura, ligou para anunciar que seu sonho tinha se realizado.  Com voz embargada de alegria ,confessa:  “Na minha memória, eu me sentia com 19 anos; na memória dele,  apenas 17 anos. Fomos aos poucos, e com muitas dificuldades, descobrindo o quanto foi difícil armar e sair da pequena barraca, contando com a ajuda de dois pescadores em uma praia deserta.

No filme relatado acima, as recordações de Totó estavam todas em sua memória e reaparecem quando volta para sua terra, onde passou a infância e parte de sua juventude.  As cenas nos levam, com encantamento e poesia, a refletir sobre o filme como um espaço de preenchimento que vai ocupando e completando o significado do nosso existir.

Vestido @dudabyduda
Óculos @hayo_objetos
Foto @sandrazimmermann

  (*) Suely Tonarque é integrante do Grupo de Reflexões do Ideac, é gerontóloga e especialista em moda com foco no envelhecer