Por Suely Tonarque (*)

Poder manter um diálogo conosco, sobre os nossos medos e dificuldades, nos auxilia e muito nesse tempo de pandemia e, consequentemente, de inúmeras crises atuais em nosso país (econômica, sanitária, política, moral e de liderança).

Registro aqui o “sofrimento” de uma grande amiga e vizinha que no primeiro mês da quarentena ficou apreensiva ao ministrar o conteúdo das aulas aos estudantes, na nova forma de ensinar. Hoje ela domina esta ferramenta, mas ainda tem um desagrado: “Prefiro as aulas presenciais, já tenho 57 anos e sinto falta do carinho, do afeto, da troca com meus alunos. Ficou e fica um relacionamento frio”.

Outro lamento foi de um amigo (36 anos) que trabalhava como vendedor e que, dispensado por corte de funcionários, comenta “ Não soube vender produtos on-line, não me adaptei à nova ferramenta de atendimento! Gosto de olhar, do toque, da produção ao vivo”.

Precisamos do contato humano, da interação com o outro. É assim que vamos continuar pessoas, incompletas, provisórias, frágeis seres humanos.

Entrar em contato com nossas fragilidades não nos faz mais fracos ou menos resistentes para viver. Pelo contrário, essa fragilidade é uma âncora que nos preserva vivos. Experienciar a realidade faz com que qualquer crise que vivemos derrube nossas máscaras e destrua nossos pressupostos.

O desaparecimento desses pressupostos significa que se perderam as respostas antes aceitas, sem sequer percebermos que, na sua origem, essas respostas serviam àquelas questões.

Uma crise força-nos a regressar e exige de nós respostas novas sob a forma de juízos diretos. Uma crise só se torna desastrosa, nos diz Hannah Arendt (1906-1975), quando pretendemos responder com ideias prontas, já feitas, embrulhadas em preconceitos. Atitudes que não apenas camuflam a crise, como fazem perder a experiência da realidade e a oportunidade de refletir, o que uma situação complexa nos proporciona.

Desde 17/03/2020, quando iniciou o isolamento social, levamos um “susto”. Nas primeiras semanas as notícias, as expectativas nos impactaram; fomos surpreendidas(os) com um outro cotidiano…

As palavras de ordem, “Fique em casa”, exigiram a reformulação de nossas vidas: a rotina escolar dos netos, a vida dos profissionais, que até então não tinham desenvolvido as habilidades da Era da Comunicação On line.

Fomos exercitando a comunicação com os grupos de estudo, através de ferramentas como zoom, meet, etc, e foram surgindo novas aprendizagens, por exemplo, lidar com as lives. Até dois meses atrás, não conhecia nada desse mundo… E assim nos reinventamos, construímos novas habilidades que não dominávamos ou que até tínhamos receio de aprender. O confinamento social forjou coragem, iniciativa e ousadia para o  risco.

Neste período do “retiro”, além da confecção e promoção de minhas roupas, li um livro chamado  ”Um Cavalheiro em Moscou”, de  Amor Towles, Editora Intrínseca. Em meio às convulsões sociais que alterariam para sempre a Rússia e o mundo no início do século XX, o personagem principal do romance, o Conde Rostov, sofre um golpe do destino e passa de hóspede do Hotel Metropol à detento.

Após ser acusado de ter escrito um poema contra a revolução, é condenado a passar o resto de seus dias, confinado à prisão domiciliar (1922) no Hotel Metropol.

Rostov teve uma educação refinada, nunca trabalhou e na sua juventude escreveu o célebre poema:

“… Mas de uma coisa eu sei:

Não está perdido entre as folhas de outono na Praça de São Pedro.

Não está entre as cinzas das borralheiras do Ateneu.

Não está dentro dos pagodes azuis de sua Chinoiserie.

Não está nos alforjes de Vronski:

Nem no Soneto XXX, estrofe um;

Não em vinte e sete vermelhos…” 

Onde está agora? ( Linhas 1-19)

Conde Aleksandr Hitch Rostov – 1913

Por este poema foi condenado à morte, mas por ser uma pessoa muito importante, o Conselho do Comissariado do Povo da Rússia, decidiu não matá-lo, e sim deixá-lo na prisão perpétua dentro do Metropol, mas seria fuzilado caso tentasse sair.

O conde Rostov sai de sua suíte presidencial e vai morar no sótão. E para pagar sua estadia começa a trabalhar como chefe dos garçons do hotel.

O que queremos ressaltar aqui é que, mesmo com todas essas penalidades pelas quais passou o Conde Rostov, ele não perdeu a ternura, a generosidade, o bom humor e sua alegria de viver!

Perdeu a liberdade, ficando durante três décadas confinado… Oras, esta pequena narrativa, pode ser relacionada à quarentena que estamos vivendo.

Neste período de recolhimento, acredito que houve algumas mudanças e um jeito novo de nos comportarmos.  Muitas mudanças foram necessárias como, por exemplo, aprender a cozinhar a própria refeição, limpar, lavar, passar as roupas. Todos esses afazeres e fazeres foram desafios para a grande maioria das pessoas e necessários à reinvenção do nosso cotidiano.

A nossa comunicação pelo Whatsapp ficou enlouquecedora, quantas sugestões de filmes para assistirmos. Uma imensidão de lives acontecendo com conteúdos significativos, uma infinidade de músicas que não tínhamos tempo de ouvir.

Quantas aprendizagens e quantos desafios mesmo confinados fomos vivendo e exercitando, elaborando perdas e ganhando novos desafios.

A nossa subjetividade, parece ter ficado mais intensa, muito mais rica. E foi na leitura do livro que me identifiquei em um certo momento com o Conde Rostov, o recolhimento e o diálogo comigo mesma trouxeram o cuidado e a interiorização de nossas vidas.

(*) Suely Tonarque é gerontóloga, especialista em moda para o envelhecer e faz parte do Grupo de Reflexões do Ideac)

Créditos: Vestido @dudabyduda / Óculos: @hayo_objetos / Foto: @sandrazimmermann