Como está sendo esse período de isolamento para você? A psicóloga Maria Celia de Abreu, coordenadora do Ideac e autora de “Velhice – uma nova paisagem (Ed. Ágora) respondeu em carta para sua amiga Euza Vilela, que publicamos a seguir. São dicas pessoais excelentes para esse momento em que vivemos.

Cara Euza,

Como nós duas fazemos parte do grupo de risco, pelos nossos mais de setenta anos, fiquei curiosa por saber como você está atravessando estes tempos de pandemia. Começamos em março de 2020, e não sabemos quando terminaremos… Depois me conte quais suas reflexões, seus sentimentos e suas ações, sim? Deixe-me falar um pouco da minha vida atual. Eu estou bem, dentro do possível.

Será que, como eu, você fica feliz por ter escolhido a profissão de psicóloga, há cerca de cinquenta anos atrás? Ela nos levou a observar, conhecer, refletir sobre pessoas, sentimentos, valores, projetos de vida, possibilidades de adaptação e aprendizagem – habilidades que o isolamento social exige. Eu, que em especial me interesso pela psicologia do envelhecimento, já tive oportunidades de ter contato com temas difíceis, como o valor do velho na sociedade, a finitude da vida, as perdas… o que me deixou melhor preparada para pensar nesses assuntos que acabam vindo à tona por conta da situação criada pelo coronavirus.

Estamos tendo a oportunidade de colocar na prática de nossa própria vida tudo o que já estudamos… e não é fácil! Estou encarando como um desafio. Que pode ser difícil, mas não impossível, e vence-lo traz aquele sabor delicioso de tarefa cumprida, que é inigualável… Concorda comigo, Euza? Não gosto de ser vítima: prefiro ser a principal autora da história da minha vida!

Em vez de pensar no que estou perdendo, penso no lado do desafio e da conquista.

Claro que o isolamento social me trouxe perdas. Perdas geram luto. O meu luto evoluiu depressinha… já passei por fases de negação (que exagero, não vou mudar minha vida da noite para o dia, não há condição de eu abrir mão do que faço etc etc etc) e de revolta (que injustiça, eu vivo tão direitinho, com tanta consciência do outro e da ecologia, e agora tenho que pagar pelo que os outros fizeram, ser velho é ser o pior da humanidade, etc etc etc); não reconheci em mim a negociação com uma entidade superior, acho que pulei essa fase; logo entrei na aceitação (já que essa é a realidade agora, e nada posso fazer para modifica-la, vamos ver como posso atravessá-la da melhor maneira possível!).

Uma ideia me ajudou a evoluir para a aceitação: li em algum lugar que a quarentena não é um aprisionamento. Eu não estou presa! Se quiser, saio para a rua, e faço tudo o que não se recomenda. Porém, eu fiz uma escolha, exercendo minha liberdade. Estou cumprindo a quarentena porque assim estou me protegendo de uma doença sofrida e provavelmente mortal (grupo de risco), e protegendo outros de serem contaminados por mim, caso eu seja portadora do coronavírus. O comportamento final é o mesmo, mas a diferença entre fazer uma escolha ou ser constrangida, pelo menos para mim, é muito significativa!

Exercendo nossa profissão, comprovamos a profunda interdependência que existe entre o corpo e o psiquismo. Isso me leva a cuidar da minha saúde física com empenho, porque pretendo manter minha saúde psíquica em nível excelente.

Presto atenção em fazer exercícios de respiração diários, porque se o corona vírus me atacar, quero ter os pulmões em muito bom estado. Na sequência, faço alongamento e uma musculação leve. Quando termino, sou tomada por uma deliciosa sensação de prazer e de energia! Nos intervalos das tarefas domésticas, faço umas dancinhas… sou desajeitada, erro os passos, e acabo dando risada sozinha e levantando o meu astral. Se nunca fez isso, Euza, vença um natural sentimento de ser ridícula, e faça, que vale a pena!…

Durante as tarefas domésticas, presto muita atenção nos movimentos e nas posturas, para proteger a coluna, alongar, gastar calorias, em suma, procuro sempre prestar atenção nos meus gestos, em vez de me comportar mecanicamente, no automático.

Essa preocupação com a consciência corporal não substitui a meditação. Esta é uma prática importantíssima. A neurociência vem apontando suas inúmeras vantagens e benefícios.

Falei em tarefas domésticas. Está aí um belo aprendizado! Elas me conduzem a ser disciplinada, organizada, eficiente: habilidades que transfiro para qualquer outra área da vida, me trazendo benefícios. Elas me treinam a ter foco, a prestar atenção; melhoram minha memória: que coisa boa! Provocam infindáveis reflexões sobre o papel da mulher na sociedade, sobre a importância do que aprendi de minha mãe durante a minha infância, sobre a valorização do empregado pelo empregador: contesto meus valores, minhas crenças e provavelmente sairei deste período mais evoluída e mais forte.  Para exercer as tarefas domésticas com mais eficiência, pesquiso no Google, telefono para outras donas de casa, e peço instruções para minha funcionária, que está isolada na casa dela, mas atende telefone e WhatsApp: aumento meu repertório de respostas e conhecimentos, e passo por um belo aprendizado de humildade e de inserção na realidade. Vou pra cama de noite fisicamente cansada, mas alegremente realizada.

Tenho me empenhado em limpar, arrumar, organizar: na medida em que mexo em papelada, documentos, livros, fotografias, souvenirs, louças, panelas, roupas de cama e banho, roupas e sapatos de uso pessoal etc, minha casa vai ficando mais agradável, melhor de se viver dentro dela. Eu mesma, no meu psiquismo, por uma mágica correspondência entre mundo externo e mundo interno, também vou ficando mais leve, mais livre, mais agradável. De quebra, os internos do Lar São Vicente de Paulo, de Tatuí, para onde sempre encaminho doações, vão receber as coisas que estão em bom estado para serem usadas por eles ou postas à venda no brechó e que estou separando aos poucos.

Como cozinho pessoalmente tudo o que meu marido e eu (os dois isolados habitantes de nosso apartamento hoje) comemos, tenho aperfeiçoado meus talentos culinários. Resgatei do fundo do baú velhas receitas, com todas as boas lembranças que elas trazem. Relembro e procuro colocar em prática informações que me vieram de nutrólogos e nutricionistas, para elaborar um cardápio equilibrado, conciliando saúde do corpo e prazer gastronômico. Unir o útil e o belo. Quanto criatividade isso me exige! É cansativo, faço erros e me frustro, mas no balanço final é compensador.

Já que a situação favorece uma jornada para dentro de mim, embarquei ativamente nessa proposta! Ela só pode me tornar uma pessoa mais plena, mais consciente de mim mesma, mais espiritualizada, mais coerente. Difícil? Novo? Ora, um desafio!

Por causa disso, procuro não gastar meu tempo com internet, celular, computador, televisão e outras fontes de informação superficial, que não levam a nada. Seleciono o que de fato é importante e o que é confiável, e não me disperso em informações repetitivas ou não confiáveis. Dou meus escorregões… mas mantenho o foco! Como diz a música: levanto, sacudo a poeira e dou a volta por cima. Vou aprendendo a discriminar o que para mim é supérfluo do que é de fato fundamental!

Desse jeito, vou liberando tempo psicológico para refletir sobre minhas experiências passadas, refazer mentalmente a trajetória da minha vida (sei de pessoas que estão literalmente escrevendo suas autobiografias), as muitas paisagens que percorri, me perdoar por erros, identificar se repito padrões de comportamento negativos dos quais é bom que me livre… e por aí afora. Uma quarentena inesperada pode gerar crescimento, ora se pode!

Pode parecer paradoxal, mas essa jornada interior inclui desfocar de minhas dores, penas, injustiças, do que me está faltando, e focar no seguinte: há pessoas em situação mais difícil que a minha. Identificá-las e as suas carências, refletir sobre o que tenho e que posso oferecer a elas, descobrir se elas estão dispostas a receber, e agir… está aí um movimento que faz um enorme bem (para mim e para outros). Um cérebro ocupado com tais assuntos não tem espaço para se autocompadecer, se desesperar, se deprimir. Ao compartilhar, doar, sem esperar elogios nem recompensas, percebo que pertenço a uma espécie viva (a espécie humana), e que entre seus componentes a ajuda mútua é imprescindível. Dentro desse esquema, tenho valor, minha presença no mundo tem um significado. Posso estar em isolamento social, posso viver sozinha, posso ser velha, mas faço parte, pertenço, influencio, cuido, protejo.

Talvez eu pudesse resumir o que estou aprendendo em poucas sugestões: aproveite a quarentena se adaptando a essa nova paisagem, seja flexível, aprenda, cuide do corpo, cuide do psiquismo, medite, cuide dos outros, mantenha o bom humor, cante, dance e dê risada, produza, tenha disciplina, seja muito mais ativa do que passiva,  busque insistentemente pequenos prazeres ao longo do dia, contribua para a saúde da humanidade, tenha planos para quando essa fase terminar, empenhe-se para sair dela uma pessoa melhor do que quando começou…  só que, mesmo sendo paulistana, não adquiri a pressa e a eficácia típicos da minha querida São Paulo… não sou rápida, sou lenta… não sou sintética, sou prolixa… portanto, o resultado foi uma carta bem longa!

E você, Euza? Agora eu que gostaria de saber: como é que você, aí em sua querida São José do Rio Preto, está atravessando esse período de pandemia?

Com um abraço, que por ser virtual não é menos carinhoso,

Maria Celia