Vários Autores

"Nostalgizações"

Tudo começou com um artigo da Folha de São Paulo, que Ivani Cardoso passou por e-mail para o grupo do IDEAC que se reúne às terças-feiras desde 2001, para estudar o envelhecimento e refletir sobre ele, e que se autodenomina jocosamente de Pantufas de Ouro. Nesse artigo, o autor libera o leitor de culpa; ao contrário, afirma que faz bem entregar-se a algumas visitas ao passado. Achei (Maria Celia de Abreu) o artigo interessante e manifestei essa opinião para o grupo. Alertado, Ezio Okamura não só leu, como escreveu umas linhas sobre alguma lembrança de sua história de vida, e criou o neologismo "nostalgizar". Eis trechos de alguns dos comentários provocados pelo artigo:

 

Ezio - Pantufeiros: Li o texto que Ivani nos indicou. Muito interessante. Pois bem, não sabia até então, que nostalgizei algumas vezes!

 

Lucy – Gostei! Lembrei-me da minha primeira Boneca!!!!! Achei interessante programar sua nostalgia para o futuro. Vivendo Hoje...

 

Regina - São lembranças da minha infância e que me tornaram o que sou hoje.

 

Sônia – Tô adorando a brincadeira! E os relatos. Nos ajudam a ver o outro colega de outra forma. Delícia de experiência.

 

Consuelo – Adorei a ideia de criar uma seção no site IDEAC para que possamos nostalgizar (adorei a palavra!!!).No texto que Ivani sugeriu, o que mais chamou minha atenção foi a ideia de buscar e criar, no presente, momentos que no futuro possam ser recordados sorrindo. A nossa história seria mais bonita se esse princípio orientasse nossas decisões e nossas atitudes. Olho para trás e percebo que, na maioria das vezes, me vem à mente a gratidão por ter vivido tantas coisas. Acho que é a
tal nostalgia que faz bem. Não é viver no passado, mas sorrir porque o passado deixou coisas boas. Curti demais o texto.

 

Na sequência, participantes e ex-participantes do grupo entraram na onda e foram escrevendo pequenos textos, nostalgizando e... sem culpa! A onda de nostalgias cresceu e se tornou tão interessante que a sugestão da Consuelo foi acatada: mereceu um registro no site do IDEAC. Para deliciar leitores e para incentivar autores a registrarem também suas nostalgias. Aí vão eles, ordenados por ordem alfabética dos autores.

 

Ana P. Fraiman – Caldo de Galinha. Tive uma avó que fazia um caldo de galinha perfumado e amarelinho, quente de queimar a língua! Acrescia àquele caldo dourado, servido ainda fervente, algumas porções de cabelinho de anjo, macarrão que servia de motivo para podermos sorver tudo com bastante slurps e outros deliciados ruídos, numa competição animada entre as crianças da família, que riam muito de tudo e de nada, por puro deleite, teimando em não ter bons modos à mesa. Nossa avó, viúva e meio pobrinha, baixinha, roliça, pele branca e macia, fala apolonesada, não sabia bronquear. Em torno da mesa reinava e distribuía conchas e mais conchas muito disputadas. As crianças primeiro, os adultos depois. Ninguém saía da mesa totalmente satisfeito, que o gosto era tão bom e a alegria tão presente, que não queríamos que acabasse, nem a sopa, nem as brincadeiras infantis, nem as broncas de mentirinha. Ninguém tomava sopa de caneca. Nem criança de dois aninhos. Era sempre no prato fundo e que as criancinhas tratassem de aprender a segurar direito. Ainda sinto em minhas mãos aquelas colheres pesadas, pura prata que ela conseguiu trazer para o Brasil. Uns poucos talheres foram preciosas lembranças que couberam em suas mirradas trouxas feitas às pressas, além de um castiçal onde acendia, às sextas feiras, três velas para receber a Noiva que se apresenta com a chegada do Shabat ao cair das noites em que ela nos recebia. Nunca mais pude sentir aquele aroma. Não se fazem mais galinhas como antigamente. Roliças, gordas e deliciosas como os carinhos de uma avó.

 

Antonio Carlos Martinelli – Um perfume indelével! Minha pequena e saudosa Tambaú. Não cresceu muito, ao contrário, murchou. Mas chegou a ser, no slogan da rádio local: "O maior centro industrial cerâmico da América Latina", para dizer que fabricava telhas, manilhas, vasos de argila. Teve o milagroso Pe. Donizeti, que arrastou multidões em busca de cura. Grupo escolar Dr. Alfredo Guedes. Dona Adalgisa, minha primeira professora. Único equipamento didático, um álbum seriado que me inspirava: "Eu vejo um pato. O pato está comendo milho..." O que ficou, vivo no cofre de minha memória olfativa, foi o perfume inconfundível da Dona Adalgisa. Como todo perfume, ninguém consegue descrever, mas o sinto suave até hoje. Invade todos os meus sentidos, quando cruzo com alguma encarnação da mestra. Infelizmente com a mesma raridade dos fragmentos felizes da meninice. P.S.: Por favor, não maculem essa sensação com insinuações freudianas.

 

Célia Monaro Bianchini – Correria no pasto da fazenda. Em férias de verão em uma fazenda bem longe, perto de Assis, interior de São Paulo, eu, minha irmã e prima estávamos andando pelo pasto. Nossa que imensidão, nunca tinha visto aquilo tão de perto, corríamos naquela grama linda, verdinha, com muito espaço. Que diferença do apartamento na cidade, sem comparação! Entramos em êxtase, com risos e brincadeiras de pegador e tudo a que tínhamos direito, mas daí a pouco ouvimos um barulho estranho, para nossa surpresa um boi gigantesco vindo em nossa direção, com chifres enormes! Começamos a correr desesperadamente. A única saída era pular a cerca de arame farpado que dava para o caminho de volta. Que porteira que nada, nessa hora não a encontramos mais! Lá fomos nós, uma a uma pulando a cerca para fugir do "gigante?; de repente quando nos demos conta, estávamos no meio de muitos porcos que foram chegando perto de nós. Minha irmã, muito aventureira como sempre, teve a ideia de subir em uma mangueira. Às pressas subimos com a ajuda dela, pois é a mais velha, e ficamos nós três lá em cima. Não me pergunte como conseguimos subir! Quando olhamos para baixo havia vários porcos ao redor da mangueira lotada de mangas e aí tivemos a ideia de jogar as mangas para eles degustarem. Nossa! Foi a salvação! Ríamos tanto, foi uma cena inesquecível, mágica, eu diria. Percebemos que os porcos estavam tão entretidos que descemos vagarosamente e fomos para a casa da fazenda. Que delícia! Que ingenuidade! Tudo parecia tão grande! Até as emoções e descobertas tinham outro tamanho! Maravilha de infância...

 

Consuelo Fernandez – Nosso cemitério! Morávamos em um bairro muito pouco movimentado e éramos um bando de crianças que brincavam livremente por todos os seus cantos. Num desses cantos, à beira de um rio, havia um local que chamávamos de prainha, por suas areias brancas, e onde brincávamos de bang-bang. Os papéis variavam muito: ninguém era sempre bandido, ninguém era sempre mocinho e não importava se éramos menino ou menina. Como em todo filme desse tipo havia um cemitério, ampliando a fantasia, resolvemos construir um com túmulos pequeninos finalizados por cruzinhas de gravetos. Naquele dia, foi tudo bem; a brincadeira foi ótima e voltamos todos sujos para casa, de tanto cavar e formar montinhos. No dia seguinte ninguém quis voltar lá porque havia um cemitério... nossa prainha ficou abandonada por muito tempo... quando nos demos conta de que havíamos desistido da nossa prainha por causa de um cemitério já era tarde demais... a inocência havia acabado...

 

Ezio Okamura – Retorno. Passei minha infância num sitio cheio de cafezais e alguns pastos (gado), donde saí em 1957. Tinha 11anos. Voltei para nostalgizar (agora sei, ah, ah, ah) quando acho que tinha uns 23 anos. Foi uma delícia. O ambiente físico e humano não haviam mudado. A paisagem e a casa e o secos e molhados que fora do meu pai me pareceram tão pequenos! A escada entre a casa e a venda não era tão alta como ficara na memória. Os borrachudos não picavam como quando deixei o sítio. Voltei mais uma vez lá, em 2012. Aí, é outra história... Tenho outras com músicas e cantores, ah ah ah!

 

Gisnelli Bataglia Mincache – Vozinha dona Guiomar. Tinha uma vozinha... Dona Guiomar, vozinha por causa de tanto carinho que sentíamos por ela. Era arteira e escondia doces – do meu avô – em seu armário de roupas para nos dar. Tinha um jardim maravilhoso em Maringá, nos fundos da casa uma imensa mangueira que suportava alguns netos trepados comendo manga verde com sal. Nas tardes de calor dava-nos banho de mangueira e depois do banho íamos correr em torno da casa e comer biscoitinhos de polvilho ou um doce de casca de sidra em compota. Hummmm! Saudade.

 

Irene Yolanda R. Pais de Melo – Sons, perfumes... Os sons assim como a lembrança olfativa, são os meus condutores, o que sempre me impressiona é não me dispor a gravar as músicas que mais gosto, de vez em quando fico até de madrugada no youtube e é muito bom. Usufruo um bom momento gulosamente com todos os meus sentidos, é um lembrete; isso é para guardar. Obrigada pelo artigo.

 

Ivani Cardoso – Sabor de infância. Omelete de aveia. Faz parte das minhas nostalgias. Eu, pequena, ficava na casa da minha avó Pina enquanto minha mãe dava aulas. Minha avó olhava para mim e sempre dizia: Tá muito magrinha. E lá vinha omelete de aveia, preparado com carinho. Na minha lembrança ele era meio dourado, redondinho, lindo! Sabor mágico da minha infância. Até hoje adoro omelete, mas nunca me atrevi a fazer de aveia. O gosto não seria o mesmo e a avó já foi há muito, muito tempo. Um dia, quem sabe, vou resgatar a omelete para o dia em que vier um neto. Ainda mais se for magrinho.

 

Lucy de Araújo – Vovó Apolinária. Como muitos nostalgizaram, contando lembranças da avó... Lembrei-me... Minha avó não podia ser de outra cidade: nasceu em Caicó-RN, aliás todos os meus ascendentes são de Caicó-RN. Quando criança, nas minhas lembranças mais remotas, morávamos na Lapa, bairro considerado bom, com casas confortáveis. Meus avós e muitos primos, parentes e caicoenses, moravam em Vila Prudente, na época bairro simples; com casas sem muros e grandes quintais. Ruas sem calçamentos, totalmente de terra... Todos os domingos, meus pais, eu e meu irmão passávamos na Vila Prudente. Tenho boas lembranças daquela época. Brincava muito com meus primos, descalça, subindo nas árvores: goiabeira, pé de pera, colhendo as frutas e saboreando. A parreira que fazia sombra no terraço, onde muitas vezes era servido o almoço de domingo, produzia uvas rosadas e muito doces. Ainda tinha um pé de romã, azedinha, mas rica nas sementes coloridas. Como faz bem recordar e agradecer a infância feliz e livre que tive! Nas tardes de domingo, minha avó servia café com charutinho. Que delicia! Charutinho é uma espécie de bolinho de polvilho, compridinho e frito. Ficava douradinho... servido quentinho... hum... hum... A receita é de Caicó. Em visita à tão falada Caicó, pedi para minha tia fazer o bolinho (charutinho). Comi com muita vontade, mas o sabor não era o mesmo... Só a vovó Apolinária, sabia fazer... Sabor de infância...

 

Lurdes Ferreira Coutinho – Sucuri na beira do rio. Quando eu tinha apenas 5 anos morávamos na fazenda. Mais ou menos a duzentos metros da casa havia um rio onde morava uma temida cobra sucuri que comia os porcos e os bezerros quando eles se aproximavam do rio. Meus irmãos e eu éramos proibidos de chegar perto do rio. Nossos pais tinham muito medo de que as crianças fossem atacadas. Tentando resolver o problema, meu pai amarrou um pobre porquinho em uma árvore e ficou de tocaia. Não sei por quanto tempo. Um belo dia a bandida apareceu, enrolou-se no bichinho e tentava triturá-lo, como sempre fez com os outros animais. Meu pai que era ótimo atirador, deu-lhe um tiro na cabeça. A aventura não acabou por aí. Foi necessária a força de vários homens para levar, para perto de casa a cobra que media cinco metros. Amarraram-na em duas árvores para remover o couro que depois de tratado serviu para bolsas e sapatos. As crianças ficaram apavoradas, por muito tempo meus irmãos e eu tínhamos pesadelos e acordávamos chorando de medo. Essa experiência ficou na cabeça de todos nós e ninguém mais se aventurou a ir perto do rio sem que o pai estivesse junto.

 

Maria Celia T. A. de Abreu – Madame e Monsieur Courty. Não conheci nenhum dos meus quatro avós: todos já eram falecidos quando meu irmão e depois eu nascemos. Tínhamos uma tia-avó, que tinha sido responsável por criar minha mãe – órfã desde os 4 anos de idade – e que aprendemos a chamar de Vovó Mariquinhas, a respeitar e a pedir a benção com um beija-mão a cada vez que a encontrávamos. Mas... também tivemos Monsieur e Madame Courty. Octávia era filha de uma negra mineira pobre e de um rico fazendeiro branco. Foi colocada como interna num requintado colégio de freiras francesas, pago pelo pai, e ali teve uma educação esmerada. Nenhuma dama da sociedade era mais prendada e culta que ela. Não sei como conheceu Georges, francês que tinha vindo ao Brasil a trabalho, como uma espécie de engenheiro. Formavam um casal simpático, sorridente, e cheio de opostos: ele, longilíneo, pele claríssima, olhos muito azuis, o pouco cabelo branco, que devia ter sido loiro, tímido, fala mansa e pouca; ela, baixinha, gordinha, mulata, cabelos pixaim presos em coque, expansiva, pronta a abraçar e beijar, fala forte e abundante. Quando meus pais se casaram, moraram num sobrado geminado em Pinheiros, à rua Alves Guimarães, e eles eram os vizinhos do lado, mais velhos que meus pais. Nunca tiveram filhos. Penso que moraram em Paris recém-casados, e depois que Monsieur Courty se aposentou, voltaram para lá de mudança, mas não se adaptaram, retornaram a São Paulo. Tenho lembranças de madame Courty amparando minha mãe em momentos de doença minha e de meu irmão, presente em nossa casa. Mas minhas lembranças mais vívidas são da madame Courty chegando em casa para passar a tarde e de longe gritando pelas crianças, convidando a jogar baralho, dominó, achando lindos os cadernos e livros da escola, indo pra cozinha e fazendo brigadeiro ou bolinho de chuva pra nós. Espaçosa, mandona, calorosa, amorosa. Transformava aquela tarde numa festa. E um detalhe: quase só falava em francês. Meus pais falavam francês correntemente, gostavam da oportunidade de praticar. Para mim e meu irmão, ela ensinava palavras, nos fazia repetir frases, nos fazia caprichar na pronúncia, no meio das brincadeiras, e sem que isso fosse um peso (Até hoje tenho facilidade com o francês, e o considero uma língua lindíssima...). Que diferença de nossa tia-avó vovó Mariquinhas! Madame Courty faleceu primeiro, penso que de um AVC, Monsieur Courty uns poucos anos depois. Eu deveria ter uns oito anos quando um câncer o levou. Como foi bom tê-los por perto durante a infância!

 

Maricy Ribeiro – Saudades Natalinas. Ainda lembro dos Natais de minha infância... Papai trazia da fazenda frangos, peru, carnes frescas de leitão e cabrito para serem preparadas em casa. O aroma de panetones preparados por mamãe e mais cassatas de chocolate e muitas pipocas que enfeitavam pequenas arvores natalinas de papelão misturavam-se no ambiente. Na sala de jantar duas mesas enfeitadas para a ocasião – uma infantil e outra para adultos – aguardavam o almoço. Presentes sob a árvore de Natal fariam a alegria de adultos e crianças. O tempo passou, mas ainda conto os dias para a chegada do Natal, que continua a ser meu grande encantamento.

 

Regina Lúcia Godoy de Oliveira – Quem sou eu. Quem sou eu... Eu sou o fogão a lenha, o doce no tacho de cobre, os canteiros de margaridas, a casa do joão-de-barro no abacateiro. Os fios elétricos repletos de andorinhas, o bando de rolinhas em cima do telhado esperando pelo alimento. O revoar de maritacas, o céu azul salpicado de brilhantes estrelas. A mangueira frondosa, o cheiro da terra molhada após a chuva torrencial, a enxurrada morro abaixo. Os animais soltos pelo quintal de terra batida... Isso tudo é pura recordação... viva... muito viva. Disso tudo restaram os bichos enclausurados no peito, presos pela cidade grande, pelos engarrafamentos, pela poluição... Velhos, meus queridos velhos. Deles nunca me esquecerei. Povoaram meus dias infantis. E quando cresci ainda permaneceram lá... altivos. Os anos arquearam, pouco a pouco, seus portes altivos. Seus passos tornaram-se lentos, suas mãos trêmulas, suas vozes embargadas pela emoção do passado, mas os olhos continuaram muito vivos, contando no presente os contos do passado. Agora eles já se foram... mas suas almas ainda se elevam por aquela rua, que um dia os viu ainda meninos, soltos como passarinhos fugidos de uma gaiola.

 

Regina Lúcia Godoy de Oliveira – Casa da Minha Avó. Lembrei da casa da minha avó... ah... como se eu as esquecesse um só dia da minha vida... Lembrança feliz! Quanta vida teve aquela casa! Corre-corre do dia-a-dia, roupa corando, fogão aceso, comida fumegando. Quanto cheiro de tempero "criado" no quintal. Quanto som de riso, quanto barulho de bicho. Lá teve de tudo: coelho, galinha, periquito, codorna, pomba-do-ar, cachorro, gato, tartaruga, cavalo e o que mais aparecesse. Teve gente de todo tipo: brincalhão, sisudo, chorão. Teve muito sorriso e muita dor. Teve lufada de vento e um raio atravessando a parede. Só não teve rede. Esta ficou guardada esperando um dia ser pendurada. Teve paredes caiadas, barrado de piçarra. Teve telhas artesanais e flores pelos quintais. Teve bisavó benzedeira e avó rendeira. Teve crianças correndo, teve doces no tacho e desejo satisfeito. Teve carinho de fato, abraço apertado e até pé queimado. Pão caseiro todo dia – doce, salgado – recheado de alegria. Teve tanta vida! Mas hoje anda vazia, esperando pelo dia em que apagada da lembrança se torne apenas paredes. Famíla... que coisa maravilhosa, não é?

 

Sônia Fuentes – Férias Mineiras! Saudades das férias mineiras da querida Itajubá. De brincar com os primos, aventurar nas pirambeiras... Quintal da Vó; fuçar nos girinos, trepar na goiabeira... Dançar com as galinhas, sacudir o pó. Comida cheirosa do fogão a lenha, panela de pedra, bife acebolado, doce de leite, rapadura, broa de milho, pamonha, lombo melado. Tantos primos, tantos gastos, papel jornal no banheiro, banho gelado! Casa cheia, alegria de férias... pena que passageira! Trouxa de roupa alva entregue na sala, panelas ao sol areadas! Diversão garantida até o sono não mais aguentar, ou... pular escondida a janela do quarto pra namorar no sombreiro. Piquenique no quintal! Subir o morro, caixa d’água, Ver a cidade lá de cima, pequenina, gritar, correr, desbravar, enfrentar cobra enrolada no pau. Cheiro de goiaba no céu! Fábrica de doces na beira do rio, pipoca com molho, sorvete de massa, algodão doce! Sino da Igreja Matriz! Voltas na praça, namoro, alegorias, carnaval, fantasia... Férias mais que intensas, do mesmo tamanho, a nostalgia!

 

Waldir Bíscaro – A Última Seresta! O clima de depressão na PUC de Campinas, em 1969, contagiou todo mundo. Assim mesmo, uma noite, consegui reunir um grupinho e fomos cantar frente ao pensionato mais próximo, mas dessa vez estávamos sem o violão do Euvaldo e sem a clarineta do Beto Sion, foi só no gogó. Continuamos a caminhada e cantamos em mais dois ou três lugares. Fomos até o Bosque dos Alemães e lá cantei “Apelo”. Nenhuma janela se abriu, ninguém ouviu meu apelo, e nem viu como era triste a canção. Inês não estava. Só restaram o frio da noite e o perfume da saudade. Triste serenata foi aquela e a última!

 

 

 

ANEXO – O texto cuja leitura estimulou todas essas nostalgizações:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/newyorktimes/123659-nostalgia-que-faz-bem.shtml