Waldir Bíscaro

Filósofo e psicólogo pela PUC/SP, onde foi professor por mais de 20 anos. Especialista em Psicologia do Trabalho, atuou em várias empresas públicas e privadas nas áreas de desenvolvimento e de saúde do trabalhador.

Um testamento diferente

Resiliência

Assunto encerrado

Por ela me apaixonei

Indivíduo: vítima ou agente

Pega ladrão......ou não?

Um testamento diferente

Estamos juntos há cerca de dez anos. Reunimo-nos toda terça feira, durante hora e meia, pela manhã. Somos, hoje, psicólogos, médicos, pedagogos, fisioterapeutas, um arquiteto e uma atriz.

 

Nosso propósito, desde o início, era estudar o processo da maturidade humana e seus percalços. Seria natural que esse estudo nos levasse, pela lógica, a lidar com a fase do envelhecimento e todos os problemas que essa fase representa.

 

Ao chegarmos nesse ponto do desenvolvimento humano nos acercamos da fronteira final cujo outro lado nos é totalmente ignoto. Sondamos então os arredores desse limite e demos de cara com a dor que costuma ser a companheira quase inevitável dos que conseguiram se aproximar dessa divisa final.

 

É fácil perceber que, se chegamos nesse ponto também vislumbramos o ato derradeiro, a morte. E aqui nos deparamos com uma quantidade de problemas que até há pouco nem sequer supúnhamos existir.

 

Sabemos como a medicina evoluiu em sua luta pela manutenção da saúde e, mais especificamente, pelo prolongamento da vida. A medicina dispõe hoje de verdadeiro arsenal de recursos para manter um paciente terminal em um estado de vida vegetativa: ventilação assistida, ressuscitação cardiopulmonar, diálise, cirurgia de urgência, transfusões de sangue, nutrição artificial, antibioticoterapias entre outros.

 

Acontece que os esforços pela continuidade da vida criam, muitas vezes, situações que colocam num impasse aquelas pessoas que deveriam assumir posição frente à continuidade ou não do tratamento. Isso se dá especialmente quando o paciente já se encontra em um estado de praticamente total incapacidade para expressar seus desejos quanto a aceitar ou não o emprego de recursos que artificialmente prolongariam sua vida.

 

Esse problema não é nada fácil de ser resolvido, nem é tão raro de acontecer e, pelo jeito, esse probleminha está sendo enfrentado há algum tempo no mundo ocidental. Países da Europa já o promoveram a tema de política nacional com debates intermináveis entre conservadores e liberais.

 

Como foi que esse assunto chegou até o nosso grupo? Foi um colega nosso que, ao ler o livro de Umberto Veronesi  sobre o direito de não sofrer, percebeu que o tema por ele levantado caberia muito bem nos debates que o grupo começava a empreender.

 

O problema poderia ser colocado de diversas formas:

 

a – Tem o cidadão o direito de decidir sobre os cuidados que serão empregados em sua fase final?

b – Poderia ele estabelecer antecipadamente a dispensa de cuidados artificiais para o prolongamento da vida, caso ocorresse perda total de sua capacidade de decidir e de se comunicar?

c – Poderia o cidadão determinar de forma consciente sua rejeição antecipada de mera extensão de uma vida apenas vegetativa?

 

Todos esses problemas poderiam ser resumidos em um conceito: o direito que todo cidadão teria de, previamente, definir as condições para morrer com dignidade e sem sofrimentos.

 

De que forma o cidadão expressaria este desejo, de modo a garantir seu cumprimento? Em alguns países europeus já está consagrada uma forma de expressão antecipada do desejo, sob diferentes denominações:

 

• Testamento Biológico

• Testamento Vital

• Living Will

• Testamento em Vida

• Vontade Prévia de Tratamento

• Declaração Antecipada de Tratamento

 

Esses países perceberam, em tempo, o que alguns estudiosos denominaram de “obstinação terapêutica” com custos altíssimos e resultados pífios ou nulos. Acontece que tal problema, pelo que sabemos, ainda não entrou no rol de temas nacionais no Brasil. Claro, diante de tantos outros assuntos mais urgentes, seria quase exagero acrescentar mais esse. Seja como for, o problema existe e tende a se tornar cada vez mais presente. Nossa intenção ao escrever e divulgar esse texto é de, talvez, iniciar um movimento a favor da criação de uma legislação que reconheça, no Brasil, a validade jurídica do testamento biológico.

 

São Paulo, dezembro, 2011

TESTAMENTO BIOLÓGICO

 

O testamento biológico é um documento escrito para garantir o cumprimento de sua própria vontade com relação à assistência médica (medicação, suporte vital, reanimação, etc.), mesmo quando você não está em condições de comunicá-la. Apesar de a lei ordinária brasileira ainda não sancionar a validade deste documento, é importante fazê-lo, por estas razões:

 

• O médico tem grande poder discricional (arbitrário) na prestação de tratamento (dosagem de medicamentos, avaliação da possibilidade de cirurgia etc.). O testamento biológico vai poder ajudar o médico – mesmo que (talvez) não o obrigue a respeitar a vontade do paciente.

 

• O Conselho Federal de Medicina já se manifestou a favor da ortotanásia (Wikipedia: a morte natural, sem interferência da ciência, permitindo ao paciente morte digna, sem sofrimento, deixando a evolução e percurso da doença. Portanto, evitam-se métodos extraordinários de suporte de vida, como medicamentos e aparelhos, em pacientes irrecuperáveis e que já foram submetidos a suporte avançado de vida).

 

• O direito à autodeterminação é sancionado pela Constituição Brasileira. Cedo ou tarde, o legislador vai afirmar esse direito mesmo para aqueles que estão temporariamente incapacitados de expressar a sua vontade. Quando isso acontecer, no infeliz caso de uma superveniente incapacidade de se comunicar, o testamento biológico poderá oferecer maior garantia de respeito de sua vontade.

 

• Quanto mais pessoas preencherem o testamento biológico em vida, mais o legislador vai perceber a necessidade de reconhecer o direito à autodeterminação mesmo para os que estão temporariamente impossibilitados de dar o seu consentimento (ou discordância) informado.

 

Você deve preencher um testamento biológico em vida (ver modelo abaixo), a ser assinado no original e em várias cópias, para que mais pessoas (incluindo parentes, amigos, testemunhas etc.) possam apresentar aos médicos responsáveis pela assistência quando ocorresse incapacidade para se comunicar. Você pode enviar uma cópia assinada igualmente a seu médico pessoal/familiar.

 

 

TESTAMENTO BIOLÓGICO (MODELO)

(ou DIRETRIZES ou DECLARAÇÕES ANTECIPADAS DE TRATAMENTO ou qualquer outro título para o mesmo conteúdo)

 

 

Eu, abaixo assinado/a, ___________________________, nascido/a na cidade de __________________, em ____/____/_______, e residente na cidade de _____________________, Rua _______________________ __________________ _______________, no auge de minhas faculdades mentais, e para salvaguardar a dignidade da minha pessoa,

 

Afirmo solenemente

 

com este documento, que deve ser considerado como uma verdadeira declaração de vontade, o meu direito, em caso de doença, de escolher entre diferentes opções de tratamento disponíveis e também, se for o caso, de rejeitá-las todas, em respeito aos meus princípios e às escolhas assinaladas a seguir.

 

Quero dizer que as declarações contidas neste documento têm um valor, mesmo que no futuro eu venha a perder a capacidade de decidir ou de comunicar minhas decisões aos médicos responsáveis por meus tratamentos sobre as escolhas a fazer com relação a uma doença.

 

Para estes fins, prevejo a nomeação de um representante fiduciário que se obriga a assegurar o pleno respeito de minha vontade e, se necessário, substituir-me em todas as decisões.

 

Premissa – O valor da vida e da dignidade da Pessoa.

 

Considero sem valor e prejudicial para a dignidade da minha pessoa todas as situações nas quais eu não seja capaz de uma existência racional ou esteja impedido/a por uma doença fatal (irreversível) de ter uma vida de relacionamentos, e, consequentemente, considero indignas todas as situações nas quais a assistência médica não tenha nenhum outro objetivo a não ser o de uma mera extensão da vida vegetativa. Portanto, uma vez que em tais circunstâncias a vida seria para mim muito pior que a morte, quero que todos os procedimentos destinados a delongá-la sejam suspensos ou cancelados.

 

Considero igualmente inaceitáveis, como sendo piores que a morte e, também, contrárias a meu conceito de valor da vida e da dignidade humana, as situações em que doenças sem perspectivas de cura sejam desnecessariamente prolongadas por meios de curas e métodos artificiais.

 

POR ESTAS RAZÕES DISPONHO O QUE SEGUE

 

Disposições Gerais

 

Disponho que intervenções hoje comumente chamadas de "providências de suporte vital" e que consistem em medidas urgentes tais como, por exemplo, ressuscitação cardiopulmonar, ventilação assistida, diálise, cirurgia de urgência, transfusões de sangue, nutrição artificial, antibioticoterapias, não sejam implementadas, se o seu resultado for, na opinião de dois médicos, um dos quais, especialista:

 

 um prolongamento do meu morrer;

 a manutenção de um estado de inconsciência permanente;

 a manutenção de um estado de demência;

 paralisia total com incapacidade de me comunicar.

 

Em particular, se eu for afetado/a por uma doença em seu estado terminal, por uma doença ou uma lesão cerebral incapacitante e irreversível, por uma doença que envolve o uso permanente de máquinas ou outros sistemas artificiais, incluindo todas as formas de alimentação artificial, e tal que me impeça ter uma vida normal de relacionamentos, recuso qualquer forma de reanimação ou manutenção de minha existência dependente de máquinas e eu não quero mais ser submetido/a a nenhum tratamento terapêutico.

 

Eu também solicito formalmente que, se eu for atingido por alguma das doenças listadas acima, sejam tomadas todas as medidas necessárias para aliviar meu sofrimento, incluindo, em particular, o uso de opióides, mesmo que eles possam antecipar o fim da minha vida.

 

Disposições Especiais

 

Tendo em vista, também, de uma esperada descriminalização, em nosso país, da eutanásia, quando até mesmo a suspensão de toda terapia não puder determinar minha morte, eu peço que me seja aplicado o tratamento da eutanásia, na forma que for considerada mais apropriada para a conclusão serena da minha existência.

 

Outras Disposições Específicas

 

Dito, por fim, as seguintes disposições (inserir suas próprias disposições – aqui estão alguns exemplos):

 

o eu quero/eu não quero assistência religiosa;

o meu corpo pode/não pode ser doado para transplante;

o meu corpo pode/não pode ser usado para fins científicos e educacionais;

o eu quero/eu não quero ser cremado;

o eu quero/eu não quero funeral ou outra cerimônia fúnebre;

o quero que minhas cinzas sejam dispersas na natureza.

 

Nomeação de Tutor Fiduciário

 

Para efeitos da aplicação da vontade expressa neste documento nomeio meu representante fiduciário _____________________________________, nascido/a na cidade de _____________________ em ____/____/_______, residente na cidade de _____________________________, UF ______, Rua _________________________________o/a qual aceita a nomeação e aceita empenhar-se em assegurar minhas decisões expressas acima e em substituir-me em todas as decisões que eu não puder tomar se eu perder a capacidade de decidir por mim mesmo/a.

 

No caso em que o meu representante fiduciário esteja na impossibilidade de cumprir sua função, delego para substituí-lo nesta tarefa _______________________________________, nascido/a na cidade de ______________________ em ____/____/_______, residente na cidade de ________________________, UF ______, Rua _________________________________.

 

Testemunhas

 

As testemunhas do presente ato são:

 

I. (Nome)____________________________, nascido/a na cidade de __________________________, em ____/____/_______, ___________________ (____) ___________________ residente na cidade de ______________________________________, Rua ________________________.

 

II. (Nome)____________________________, nascido/a na cidade de __________________________, em ____/____/_______, ___________________ (____) ___________________ residente na cidade de ______________________________________, Rua ________________________.

 

Entende-se que estas minhas vontades poderão ser revogadas ou modificadas por mim a qualquer momento, mediante declaração posterior dada a eles por mim. No caso de declaração superveniente, serão consideradas válidas minhas mais recentes disposições.

 

Consigno esta declaração aos representantes fiduciários e às testemunhas acima mencionados.

 

 

(Local e data) ______________________________

 

 

_____________________________ Assinatura do signatário

(Nome_________________________)

 

_____________________________ Assinatura do representante fiduciário

(Nome_________________________)

 

_____________________________ Assinatura do representante fiduciário substituto

(Nome_________________________)

 

_____________________________ Assinatura da 1ª testemunha

(Nome_________________________)

 

_____________________________ Assinatura da 2ª testemunha

(Nome_________________________)

 

 

Resiliência

Apresento-lhes, hoje, mais um comportamento que até pouco tempo atrás raramente costumava aparecer entre os indicadores de maturidade psicológica.

 

Quem é que já não passou por alguma contrariedade, pequena ou grande, em sua vida? Perda de alguma pessoa querida, perda de emprego, conflito com pessoas de seu relacionamento, agressões injustificadas, perda de algum bem precioso, amores desfeitos, doenças graves e muito mais.

 

O que se espera, em geral, de uma pessoa que sofreu qualquer tipo de adversidade? Como ela responde a tais ataques, venham eles de onde vierem?

 

Poderíamos enumerar uma série de sentimentos e de reações possíveis: tristeza, revolta, frustração, ódio, ciúmes, saudade, depressão entre outros que indicam um estado de derrota, de prostração.

 

Essas reações podem ser consideradas naturais e até aceitáveis como primeiro efeito da situação que as causou. Acontece, porém, que muitas e muitas vezes esse efeito permanece mais tempo do que seria desejável. A mágoa se instala na pessoa e a domina. O mal que isso provoca na vida dessa pessoa nem se pode dimensionar. Ela se torna uma pessoa amarga e seu desenvolvimento praticamente paralisa.

 

Haveria, por acaso, alguma outra saída que não levasse a pessoa contrariada para essa condição de derrota? Teria a psicologia alguma resposta a dar para essas pessoas?

 

Volta e meia, a psicologia vai buscar em outras ciências a inspiração para identificar novos conceitos que ainda não se encontravam catalogados como uma categoria própria e, muito menos, como indicador de maturidade psicológica.

 

Este é o caso de um vocábulo pouco conhecido nos meios não profissionais: Resiliência. O conceito psicológico sempre existiu, mas não tinha nome próprio. Foi na Física que a psicologia encontrou a palavra adequada para designar o termo certo.

 

Na física, resiliência vem a ser a propriedade que tem um determinado material de voltar ao seu estado original, após sofrer uma quantidade de tensão. É o caso, por exemplo, do elástico que depois de esticado volta ao seu estado normal ou a vara do salto em altura que, depois de se dobrar e jogar para o alto o atleta, volta a ficar reta.

 

O que a psicologia viu nessa constatação da física? É fácil de acertar. A pessoa humana é freqüentemente submetida a certas situações de dureza e de pressão que se não forem bem assimiladas acabam por desequilibrá-la ou, se quiserem, por “entortá-la”. Como é que uma pessoa assim atingida consegue voltar ao seu estado normal?

 

Em princípio, essa pessoa deveria desenvolver uma capacidade para superar ou minimizar os efeitos nocivos das adversidades, mas ninguém nasce com tal capacidade, somos todos vulneráveis. É a essa capacidade de superação que se dá o nome de “resiliência”.

A resiliência se forma tanto nos processos educacionais/familiares, como na acumulação de experiências da vida, portanto qualquer pessoa pode desenvolver a resiliência.

 

A expressão que se usa no Brasil para identificar tal efeito é o já conhecido: dar a volta por cima. A expressão brasileira parece dizer algo mais do que o simples retorno ao que era antes e sim voltar num plano acima. Não significa apenas voltar ao normal, mas voltar com acréscimo de algum valor a mais. É que um sofrimento bem assimilado e superado sempre acrescenta algo mais na vida de uma pessoa, torna-a mais preparada para enfrentar novas adversidades e a cada nova superação ela sente aumentada sua autoestima.

 

Mesmo que a pessoa se fortaleça a cada superação, ela não deixa de continuar vulnerável e um dos recursos que ela terá de sempre cultivar é a sociabilidade. A força que vem das amizades jamais será desprezada, por mais autoconfiança que essa pessoa demonstre.

 

PS: Para quem quiser saber mais sobre esse tema, recomendo os livros de João Marcos Varella: “Empresas Resilientes” e “Empreendedores Resilientes”.

 

 

 

Waldir Bíscaro – Psicólogo CRP 06-00016

 

Fone: (11) 3539 0763 – E-mail: awbiscaro@uol.com.br

 

 

Assunto encerrado

Toda vez que penso em sugerir a pessoas mais idosas que reflitam sobre as possibilidades de se prosseguir em seu desenvolvimento pessoal e de não pararem de investir em si mesmas em vista de sua plena realização, acabo me perguntando: Tem cabimento, a essa altura do campeonato, falar em prosseguir, em continuar a investir, quando tudo já deveria estar concluído?

Para se responder a essa indagação, temos de apelar para a crença de que há vida após a maturidade cronológica, há potencial humano a ser desenvolvido e há ainda em nós espaços a serem preenchidos.

Então tem todo cabimento falar-se em continuidade. O homem é um ser incompleto ou, melhor, um ser em permanente construção e, enquanto for vivo, compete-lhe completar o que foi iniciado lá em sua infância. Se fosse anjo ou se fosse pedra ele estaria dispensado de se preocupar com essa busca de completação. Como ser pensante, dotado de arbítrio e consciente de sua situação no mundo, ele pode e deve construir seu pleno desenvolvimento ou chegar o mais próximo possível dessa plenitude.

Desenvolvimento pleno é o objetivo e mesmo que tal objetivo não seja atingido, cabe a cada ser humano definir metas intermediárias que o aproximarão da tal plenitude. As metas funcionam como etapas de aproximação.

E de que metas estamos falando?

Em princípio poderiam ser metas de qualquer natureza, pois elas dependem dos valores que cada um assume para si - metas de bem-estar, metas de realização artística, metas de realização profissional –todas de muito significado. Hoje, porém, gostaríamos de falar de metas de aprimoramento emocional, tema que caberia a todos os membros dessa imensa confraria dos veteranos.

 

- APRIMORAMENTO EMOCIONAL?

 

Quando se fala em aprimoramento, não se parte do zero. Parte-se do ponto em que se está e isso não é tão pavoroso assim. Sabemos de idosos que tomaram consciência de que suas capacidades ainda estavam intactas e que, agora, tais capacidades poderiam ser potencializadas por toques de sabedoria. Tais casos são vistos como exceção quando, na realidade, eles deveriam ser mais generalizados. E nem é necessário apelar para grandes nomes para se demonstrar a viabilidade de continuidade de desenvolvimento emocional e de aperfeiçoamento humano após os sessenta, setenta, oitenta, noventa ou mais anos.

 Na maioria das vezes o impedimento para que ocorra esse desdobramento do potencial de tais pessoas está entre os que as rodeiam. É que esses se guiam por pressupostos que estabelecem um cessamento da capacidade do idoso de seguir em frente. O pior de tudo é que o idoso, por acomodação ou por se sentir frágil para reagir, acaba cedendo a tais limitações, cumprindo um script que lhe é imposto de fora.

Por aí, percebe-se que não apenas o idoso precisa acreditar que tem um potencial ainda a ser desenvolvido. É necessário que pessoas ao seu entorno também acreditem e estimulem essa crença.

 Com os recursos de que se dispõem, nos últimos anos, o idoso de hoje é mais saudável, pelo menos do ponto de vista físico. Agora está na hora de se cuidar com mais atenção da continuidade de seu crescimento emocional. Crescimento emocional é algo maior do que entretenimento, é maior do que ocupação e maior que convivência com seus iguais. Não que tudo isso não seja importante, mas tudo isso é apenas o básico. Queremos uma proposta que signifique realmente um avanço.

É claro que estamos falando em mudança e por onde se inicia um processo de mudança de comportamento humano?

Se seguirmos um roteiro racional, lógico, como modelo básico e adaptável à maioria das situações, diríamos que toda mudança de conduta tem sua raiz na forma de pensar e, muito mais, na forma de se pensar, ou seja, na forma como a pessoa se julga a si mesma. Tudo começa então com uma tomada de consciência.

Essa tomada de consciência consiste em um esforço de auto-avaliação, quando o indivíduo faz uma espécie de balanço de sua vida, destaca pontos positivos e negativos e aprofunda com isso seu autoconhecimento. Sem essa tomada de consciência fica muito difícil estabelecer metas de correção e de avanço.

A partir desse balanço, a pessoa passa a ter as condições para definir os rumos a serem tomados na construção de uma nova etapa de vida. Trata-se pois de um ato de vontade em que o indivíduo resolve investir em mudanças de valores, em mudanças de atitudes perante a vida. Isso significa, também, dar continuidade ao processo de auto-realização que, para muitos, já era considerado um capítulo encerrado lá atrás, na meia idade.

Enquanto se é vivo, o homem não tem o direito de estacionar. Pode sim se alegrar, pode se orgulhar do que realizou e tudo isso deve servir de combustível para novos avanços em novas direções, nunca para se acomodar.

 

- FIXAR METAS

 

Apenas como exercício mental, vamos destacar algumas metas que poderiam ser explicitadas e que caberiam a um número maior de idosos. O que vem a seguir não deve ser entendido como receituário. São simplesmente  indicadores de maturidade emocional adequados à situação da pessoa que vive essa fase de desenvolvimento.

O conhecimento desses indicadores ajuda em um processo de auto-avaliação e de reflexão e permite a fixação de algumas metas de crescimento ou de correção:

 

- Interesse pelo próprio desenvolvimento – A pessoa precisa fazer um ato de fé em si mesma, sabendo que nada acontece se ela não se movimentar em direção à sua maior realização.

- Respeito ao corpo – Não ser mais jovem não quer dizer rejeição ao próprio corpo. Dedicar ao corpo  mais atenção do que na fase anterior. Até um tanto de vaidade será perfeitamente aceito e recomendado. O desleixo jamais será tolerado.

- Bom humor e capacidade de brincar – Esse é um dos sinais mais claros de sanidade mental, pois essa atitude representa maior abertura perante a vida e desprendimento ante a transitoriedade das coisas. Mais ainda, ela capacita o idoso a rir de suas próprias limitações, sem que se sinta constrangido.

- Busca de novos interesses – Ao invés de reduzir sua visão de mundo o idoso vai descobrir novos temas pelos quais se dedicar. Pelo fato de não estar mais amarrado a compromissos profissionais formais, ele pode eleger interesses com muito mais liberdade e sem preocupação com status.

- Pensamento anárquico – Pode parecer heresia, mas trata-se de uma estratégia pessoal para escapar do modo geral de se pensar o mundo. Começa-se com uma forma de dúvida metódica.

- Sentimento de ser necessário – Sentir-se útil já é alguma coisa, agora é preciso encontrar uma forma de se fazer necessário. Aqui é que o idoso vai usar de toda sua criatividade para perceber junto a quem ou em que situação poderá “exercer” um papel de ser necessário.

- Renovação e ampliação dos relacionamentos – A perda dos velhos companheiros é fato inelutável. A única providência a ser tomada é a busca de novos contatos junto às gerações abaixo. Para que a aproximação se dê sem atritos a saída é demonstrar interesse pelos assuntos dos mais jovens.

Para finalizar. Os indicadores acima são apenas alguns exemplos de como o idoso pode estabelecer para si algumas metas que ele entenda como essenciais em sua vida.

 

São Paulo –04 Agosto 2006

 

Waldir Bíscaro, psicólogo CRP 06 -00016

 

 

Por ela me apaixonei

Foi assim:

 

Caminhava eu por uma trilha pedregosa da história, quando a encontrei. Ela, de pronto, me encantou.

Era uma linda mulher, brilhante em todos os sentidos. Impossível, naquele momento, ser tudo o que era e representava. Custei a acreditar, mas lá estava ela em toda realidade e em toda grandeza e gracilidade.

Como, me perguntei, poderia existir, ao mesmo tempo, um ser tão frágil e tão poderoso, em meio a tanto tumulto e a tanta dor?

Não era rainha, como Branca de Castela, nem guerreira como Joana D’Arc, mas tinha porte de rainha e coragem de guerreira.

Era assim essa italianinha de Veneza, vivendo na França, viúva aos vinte e cinco anos, sem poder contar com ninguém, com mil encargos de família, sem ter em quem se espelhar. Estava só. Não se desespera, nem se entrega.

Quer vencer com as próprias forças e vai empreender uma caminhada nunca dantes percorrida por qualquer outra mulher. Decide, então, que vai ganhar a vida empunhando uma arma, incomum até para um homem: a PENA.

Escreve poesias, baladas, temas políticos, temas religiosos, biografias e até um tratado de arte militar.  Escreve a favor da paz, em tempos de muito ódio e escreve em defesa dos direitos da mulher, em tempos de total depreciação de suas iguais.

Enfrenta intelectuais e clérigos que a queriam desqualificar. Ela consegue calá-los.

(Alguém poderá pensar: É normal que uma intelectual assuma esse papel de defesa dos direitos da mulher)

 

Acontece que Christine – é esse seu nome – não tivera ninguém antes dela a assumir essa missão. Christine de Pisan pertence ao século quatorze – 1364 – 1431.

Eu a encontrei – e por ela me apaixonei – entre as páginas de um livro escrito por outra grande mulher: Bárbara Tuchman (Um Espelho Distante – 1978).

 

 

Indivíduo: vítima ou agente

Seria por demais demagógico afirmar que o indivíduo é sempre vítima dos processos imaturos que acontecem na organização. Como pessoa que pensa e age e goza de livre arbítrio, ele também concorre  para a produção de certas condições negativas nas relações de trabalho.

Por mais que as empresas se esforcem em monitorar o ingresso das pessoas em seus quadros, é impossível prever que tipo de condutas o pretendente à vaga vai manifestar no decorrer de sua passagem pela empresa.

 Os sistemas seletivos - cada vez mais elaborados - conseguem identificar potencialidades e apontar aqueles traços que viriam impedir um desempenho aceitável, mas não podem garantir por muito tempo um comportamento retilíneo do profissional selecionado. É que o comportamento humano resulta de processos dinâmicos e em contínua mutação e sua previsibilidade é limitada. Se as próprias empresas apresentam condutas instáveis, não há porque estranhar que o indivíduo se conduza de forma imprevisível, para o pior ou para o melhor.

Acredito que nenhum empregado, ao ingressar em uma empresa, venha determinado a criar problemas em seu meio. Ao entrar, ele já traz em sua bagagem: conhecimentos, habilidades, disposição de ser útil e até sonhos. Não é só. O novo contratado traz também personalidade – às vezes em formação – traz imaturidades, defeitos, valores em descompasso com os da organização; o que vai acontecer daí pra frente, ninguém sabe.

Diria que a imaturidade emocional é a principal geradora de perturbações nas relações de trabalho. Ela se manifesta no dia-a-dia através de pequenos incidentes que quebram a harmonia do ambiente de trabalho, coisas que não podem ser sacadas nem contra a organização, nem contra o grupo, nem contra a chefia. O indivíduo é que deve responder por essa coleção de “mini-patologias” no cotidiano do trabalho.

 

Eis uma pequeníssima amostra de algumas dessas “mini-patologias”:

 

. Ataques de infantilismo ou de regressão

. Ressentimentos por conta do sucesso de outros colegas

. Agressões verbais diretas

. Manifestações de mau humor que contaminam o grupo

. Zombarias dirigidas a colegas mais indefesos

. Divulgação de fofocas com desqualificação de membros do grupo

. Perseguição a colegas por causa de diferenças de origem, raça, traço de personalidade...

. Apropriação indébita de idéias e de sugestões de companheiros

. Falta de urbanidade ou de civilidade no trato com colegas (grosserias)

. Descuido com a qualidade de vida no local de trabalho (fumo, conversas em voz alta)

. Falta de higiene pessoal ou falta de asseio nos banheiros

. Recusa a cooperar com determinados companheiros

. Exibição de superioridade

. Manifestação de autopiedade....

 

O desfile seria interminável. É que o imaturo emocional não costuma respeitar limites e sua falta de autocrítica o transforma em uma pessoa tóxica.

Todas e cada uma dessas mini-patologias podem não provocar grandes transtornos na vida da empresa. É por isso que elas não são tratadas com a devida seriedade. Entretanto, para quem convive diariamente com tais disfunções, elas se tornam insuportáveis. Imagine-se isto a se reproduzir em cada unidade da empresa, cinco dias por semana, oito horas por dia! Quem agüenta?

São Paulo –23 – Julho - 2004

Waldir Bíscaro       (CRP – 06 –00016)

 

 

 

 

Pega ladrão......ou não?

Foi depois do almoço. Ia eu pelo viaduto do Chá em direção ao centro novo. Nesse tempo, as calçadas do viaduto eram mais estreitas do que hoje e, por isso, tinha-se impressão de haver mais gente andando por lá, especialmente nesse horário de pós-almoço. Andava tranqüilamente, quando ouço, em meio ao burburinho: Pega, pega!

Olhei para frente e notei uma agitação no meio da multidão e logo em seguida percebi um rapaz que vinha em disparada e na minha direção. No momento em que o sujeito iria trombar comigo, tirei o corpo fora e estendi a perna com a intenção de derrubar o “marginal”. O sujeito tropeçou, quase caiu, mas continuou correndo.

Passado o susto, me senti um cidadão que acabava de cumprir seu papel. Não consegui derrubar o “meliante”, mas dera-lhe uma lição.

Continuei minha caminhada e, quando chegava ao fim do viaduto, alguém furioso se postou a meu lado e, aos berros, me falava: “O senhor não tem consciência, quase derruba um artista que está trabalhando”.

Não entendi nada. Olhei ao redor, meio constrangido, e só então notei que havia uma equipe de filmagem que gravava a cena de fuga de um ator!!!!

Por pouco, não entro para o cinema .... como vilão.

 

 

São Paulo: outubro de 2006.