Suely Tonarque (*)
Muito além de apenas cobrir o corpo, o vestir expressa a nossa relação com o mundo e a forma como nos apresentamos através da matéria.
Um movimento, uma dança, uma escolha: o vestir traduz a nossa identidade, nossa história e a nossa existência. Existir no mundo, interagir com todas as extensões dos objetos do nosso entorno.
O Vestir/Moda – que eu prefiro chamar de “Desmoda” porque, pessoalmente, vou no caminho contrário da ditadura da moda –, não é apenas um reflexo sociocultural; é uma comunicação que modifica, transforma e ressignifica nossa relação com o tempo e o espaço.
O vestir é um meio pelo qual a vida se liberta e se reinventa; a filosofia é o instrumento que permite a manifestação do pensamento de várias formas.
Assim, corroboro a afirmação do filósofo Emanuele Coccia e do designer de moda Alessandro Michele (in La Vitta delle Forme”, Ed. HarperCollins, 2024 – sem edição no Brasil): “Uma peça de roupa pode ser tanto um objeto físico quanto um suporte para a expressão de ideias e conceitos”.
E, no processo do envelhecimento, vamos aos poucos, em pequenas doses, aprendendo a conviver com as mudanças que ocorrem lentamente… Algumas vezes nem percebemos a transformação e dizemos: “- Nossa, que susto! Não consigo fechar o zíper desse vestido…”
Sim. E, muitas vezes, há a mudança de peso – de 50 para 60kg; mas, também não usamos mais o mesmo n° 38, 40 e nem temos a consciência da mudança: não temos mais 30 ou 48 anos e 3 meses. Hoje temos 68, 70, 73 anos ou mais!!!
E não me reconheço ao me deparar no espelho e, ao me relacionar com esse “novo/velho” corpo, fico surpreendida!
O que vestir? O que escolher para ir ali? O que faço com as minhas escolhas de cobrir meu corpo envelhecido? Sim, vou escolher o que me deixa “feliz”; o vestido que me alegra e me enfeita: vestir a minha alma que se encontra comigo – hoje quero o conforto, a leveza do tecido – nada que me molde, sem zíper e sem pences.
Precisa haver um espaço entre o corpo e o tecido sem as molduras dos moldes, sem a moda das ditaduras, mas sim com a democracia nas escolhas do bem-estar.
Faça escolhas pelo seu coração, sua intuição, seu sentir. Você em primeiro lugar. Escolher é um desafio porque não temos certezas ao escolher o mais sagrado. Escolha o vestir que você gosta… Liberte-se!!!
(*) Suely Tonarque é psicóloga gerontóloga e especialista em moda no envelhecer
Parabéns, Suely, seu texto ajuda a aceitar as mudanças do meu velho corpo. Vamos em frente, você dá sugestões!
Suely sua escrita evolui a cada nova escrita
Parabéns você consegue expressar com maestria duas convicções e escolhas
Te admiro muito
Gostei de ler ser texto Su, ele traz uma liberdade para cobrir o corpo. E me levou a pensar, que as tatuagens tem feito este papel hoje , de outra forma. Mas como você diz …”suporte para a expressão de ideias”