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Pescando pela vida

Yayá de Andrade (*)

(Traduzido do texto A Fish Expediton, do blog da autora, especialmente para o blog do Ideac)

Peixe sempre foi e continua sendo boa fonte de proteína e nutrientes, como todos aprendemos. Na minha infância, no interior do Estado de São Paulo, sexta-feira era o dia em que se comia peixe, uma forma de penitência e consideração religiosa. Carne era um luxo; éramos encorajados a nos abster dela nas sextas-feiras, para honrar a morte do Cristo e seu sacrifício à humanidade. O preceito era para a Quaresma, culminando na Semana Santa, mas o costume, em muitos lares, se estendia para o ano todo.

Mas você não precisa ser católico, e nem viver no Canadá ou Noruega onde salmão comparece à mesa todos os dias, para seguir um sábio guia de dieta: coma peixe sempre que for possível. Ele tem omega-3, que entre muitos benefícios ajuda na saúde cardíaca; alguns peixes são ótima fonte de vitaminas e minerais, inclusive o cálcio, importante para nossos ossos. Só é conveniente estar atento para indicações de peixes que não são bons, por causa do nível de mercúrio das águas em que viveram.

Quando eu era jovem, costumava pescar com a família, mas aprendi com minha cunhada e com um dos meus irmãos (que adorava pescar) que tal atividade era mais apropriada para homens: sempre iam em grupos de amigos, sem nenhuma mulher, com muita cerveja e pinga na bagagem, passavam o fim de semana, e voltavam com muitas picadas e, às vezes, com peixes… pescados por eles, se é que não tinham parado em um “pesque e pague” e conseguido algum peixe, que servia para impressionar as crianças. Homens – mulheres, não – também conversavam horas a fio sobre as melhores linhas para as varas, e até compravam roupas especiais, caras, na esperança de ter mais sorte na pescaria.

Uma vez viajei com um namorado para Fiji, um belíssimo arquipélago no Pacífico Sul, e no roteiro existia uma pescaria. Lá fomos, num barco cujo capitão não falava inglês, e paramos no meio do oceano. Ele desligou o motor e eu me dei conta que não havia nada à nossa volta, só água, e muita vida embaixo. O processo foi interessante. Amarramos no corpo um cinto que tinha um lugar para colocar a vara e, com ajuda, ajeitei a isca. Eu fiquei ali imóvel, depois de lançar a linhada, segurando a vara, mas depois de só alguns minutos alguém gritou: “Ela já pegou um!”  Puxei a vara com esforço, todo mundo veio ajudar e lá estou eu com um atum. Não acreditei! Foi tanto sucesso que os outros turistas queriam saber de onde eu era e como sabia pescar tão bem. Humilde, contente, e meio sem graça voltei a armar outra vara e lá veio outro atum… foi um recorde, só que depois do segundo eu não quis mais pescar. Fotos foram tiradas, dei os atuns para a cozinha do hotel onde estávamos hospedados, e jantamos um ótimo sashimi, sem pagar nada….

Sempre gostei de peixe, mas não só para comer; bordo panos de prato com figuras de peixes, fazendo desenhos baseados em um curso que fiz com uma japonesa que ensinou a desenhar salmão. Foi difícil no começo, mas depois você pega o jeito e libera sua criatividade para decorar como quiser.

Pensando metaforicamente, pescar, em alguns contextos, se refere a alguém tentando saber algo de uma pessoa, “pescando”, sem “abrir o jogo” como falamos, sem diretamente fazer uma pergunta. Às vezes os terapeutas são descritos como pescadores, no sentido de conversar com o cliente de uma forma indireta, na esperança de uma revelação, sem diretamente fazer perguntas sobre um assunto.

Entrando no campo da linguagem, me lembrei de uma história divertida: uma vez, em uma conferência em Recife, um professor estrangeiro se esforçou gentilmente para falar em português; ficava se referindo a “nós, pescadores”, o que não fazia sentido, até que descobrimos que queria dizer “nós, pesquisadores” … e a plateia não conteve a gargalhada. Coitado.

Pescar também se relaciona com formas de viver. O ato de pescar nos ensina persistência, paciência, humildade e o “estar presente” sem forçar ou esperar que algo aconteça e, quando acontece, sentir-se agradecido e alimentar a si e outros com o produto. Quando vamos pescar não temos garantias de que teremos um peixe grelhado daí a algumas horas; podemos ser obrigados a lidar com uma frustração, semelhante ao que encontramos frente a desafios na vida.

No Budismo, o peixe simboliza o estar acordado. Aliás, como não sou bióloga, eu nunca soube se peixe realmente dorme… para mim, ele parece viver concentrado no que acontece, no presente, consciente. Também significa abundância e temos essa imagem representada vividamente quando vemos documentários com cardumes, nadando organizados e interagindo em harmonia (o que também vemos com gansos canadenses, periquitos do rio Tapajós, atletas num rally de bicicletas… avançando interconectados e disciplinados).

Rumi, lá no século XIII, escreveu um poema sobre três peixes em um lago. Um era inteligente, outro meio inteligente e o terceiro, menos inteligente. A história conta que uns pescadores vieram à beira do lago com suas varas de pescar. Os três peixes os viram. O inteligente pensou: “tenho que ir embora desta casa”, e nadou depressa como se estivesse sendo perseguido, e chegou até o mar, salvo. O meio inteligente se deu conta de que o líder tinha ido embora e pensou: “vou fingir que estou morto e eles não vão se interessar”, mas um pescador pegou o coitado na rede, achou que estava morto, e o jogou na grama. O pouco inteligente pensou: “eu vou fazer um estardalhaço, mostrar que esta é minha casa e eles vão embora”, mas um pescador pegou o pobrezinho na rede e, quando já estava na frigideira, ele pensou: “o oceano é infinito e seria uma boa casa também.”

Existem muitas formas de se preparar peixe, e outros seres que habitam em mares, rios e lagos. Há peixes de textura delicada, como a truta; sardinhas e anchovas, embora delicadas, têm sabor forte. Tem peixe de gosto e textura média e outros mais carnudos como lagosta, polvo, camarão. Alguns são de água doce, como dourado, pacu, cascudo, traíra, tambaqui, piranha e outros de água salgada, como bacalhau, sardinha, robalo, pescada, merluza e o atum que pesquei em Fiji. Podemos servir um peixe cru, assado, frito, defumado, cozido. Particularmente, gosto de todos os tipos, mas sushi e sashimi são meus preferidos.

Aqui vão algumas receitas.

Ceviche

Tradicionalmente se usa peixe cru, com textura firme, como mahi mahi (peixe dourado) ou halibute. Corte o peixe em pedaços e coloque bastante suco de limão, cebola ralada, sal e pimenta a gosto.

Salada de bacalhau

Deixe o bacalhau em água durante a noite e troque a água de manhã, se ele não for fresco e precisar ser dessalgado. Cozinhe e depois desfie, juntando uma lata de lentilhas, azeite, vinagre, sal e pimenta a gosto, salsa, cebolinha verde bem picada, coentro, tomate picadinho e azeitona preta picadinha. Deixe tudo na geladeira por pelo menos uma hora antes de servir.

Bolo de Salmão

Faça um molho com cebola, alho, cebolinha verde, sal e pimenta a gosto. Corte um pão francês em pequenos pedaços, junte uma xícara de leite, 2 ovos batidos, e cozinhe por 10 minutos. Corte o salmão em pedaços, misture o molho, e o pão já amolecido. Leve ao forno médio em forma untada com farinha por 30 minutos.

Mousse de atum

Dissolva 2 colheres de gelatina em ½ xícara de água quente, junte 1 lata de atum, 3 colheres de vinagre, uma colher de mostarda, cebola ralada, pedacinhos de salsão, cebolinha verde picada, sal e pimenta a gosto, 3 colheres de queijo cremoso (catupiry, mascarpone ou ricota) e suco de um limão. Bata tudo em batedeira ou processador de alimentos.

Risoto de camarão

Coloque azeite em uma frigideira funda, frite os camarões por 5 minutos e junte alho ralado. Em uma panela, esquente 2 xícaras de caldo de vegetais. Coloque arroz arbório na frigideira e uma xícara de vinho branco, manteiga, uma xícara de leite e amêndoas. Como o arroz vai secando, diminua o fogo, e continue colocando aos poucos mais caldo de vegetais, até o arroz ficar mole. Adicione uma xícara de queijo parmesão e uma colher de manteiga. Mexer até uma aparência cremosa e servir imediatamente.

Bom apetite com minhas receitas, boas reflexões e boas recordações com meu texto!

(*) Yayá é Graduada em Psicologia no Brasil, continuou os estudos no Canadá e nos Estados Unidos. Atualmente, aposentada, é voluntária na Cruz Vermelha Canadense, no setor de Segurança e Bem Estar, é membro ativo da Comissão Sênior de Aconselhamento da prefeitura de Burlington, cidade onde escolheu morar.

(Foto Sponchia/Pixabay)

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Samuel
Samuel
4 meses atrás

Que interessante essa matéria que acabei de ler, até compartilhei no meu Facebook. Lara Silva cantora

Diego
Diego
4 meses atrás

Adorei conhecer seu blog, tem muito artigos bem interessantes.
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