Dra. Maria Celia de Abreu (*)
Escrevo este texto por causa de uma provocação que me foi trazida, nos últimos meses de 2024, pelo colega psicólogo Antônio Carlos Martinelli. Ele participa ativamente do Grupo para Estudos e Reflexões sobre o Envelhecimento Humano, do Ideac, comparecendo pontualmente às reuniões das terças-feiras, sempre trazendo contribuições; anos atrás, antes de se aposentar, foi por longo tempo um voluntário ativo e responsável da Escola de Pais; está afastado, mas mantém contato com os membros que o sucederam, e foi um desses pais, para quem Martinelli levou algum vídeo meu – ou texto, não lembro – que fez a indagação: Afinal, Psicologia é Ciência, como essa psicóloga insiste em afirmar?
Provocação feita… deu vontade de responder. Demorei, por conta do fim de ano com todos os seus compromissos, férias, viagens, verão etc., mas registro agora algumas ideias. Está longe de ser um tratado, um texto didático, de defender uma posição, ou coisa parecida: respondo singelamente, indo buscar na memória conceitos que fui absorvendo desde que entrei para a Faculdade São Bento (hoje PUCSP) até hoje.
Entendo que o ser humano busca sempre conhecer o mundo; parece ser uma necessidade humana conhecer, compreender e, talvez até, intervir sobre os fenômenos que o rodeiam. Em outras palavras, o ser humano necessita que as coisas à sua volta façam sentido. Para isso, ele se serve de diferentes maneiras de abordar o mundo; as que me ocorrem são o senso comum, a ciência, a arte, a fé e a filosofia. Cada uma dessas abordagens tem seu valor próprio, e elas não são mutuamente exclusivas; pelo contrário, colaboram entre si. Por exemplo, as hipóteses, que são pontos de partida para a ciência pesquisar a verdade de fatos, lhe são fornecidas pelo conhecimento de senso comum.
Vejamos um exemplo. O uso tradicional de plantas medicinais vem da sabedoria do senso comum; a ciência tem se dedicado a validar – ou não – essa sabedoria procurando comprová-la empiricamente, dentro dos parâmetros da pesquisa científica, para que suas afirmações possam ser generalizadas.
Vejo a Psicologia como sendo primordialmente uma ciência, mas isso não significa que ela não mantenha interfaces com as artes, a filosofia, o senso comum e a fé. Porém, para esta conversa não ficar extremamente longa, vou me restringir a explicitar o que penso sobre o senso comum e depois sobre a ciência, deixando de lado as outras possibilidades de dar um sentido ao mundo.
O senso comum se pauta pela subjetividade. O que é verdade para uma pessoa (ou para um grupo cultural) pode não ser para outra. O senso comum se traduz em superstições, ditos populares, crenças sem explicações lógicas… São conceitos que nascem da experiência cotidiana de cada indivíduo, e dos hábitos e tradições de grupos culturais. São validados pela repetição recorrente e pela aceitação sem questionamento; são aceitos como “normal”, como “verdade”.
As afirmações de senso comum podem abrigar preconceitos e estereótipos, e esse é um dos maiores prejuízos que podem trazer; ou podem induzir a ações que são inócuas para o efeito desejado, quando não prejudiciais. Mas é o senso comum que orienta as pessoas no dia a dia, permitindo decisões rápidas, sem elaborações prolongadas, e oferecendo às pessoas a sensação de acolhimento e de pertencimento a um certo grupo. Portanto, é uma maneira útil de se relacionar com o mundo, só que tem riscos.
O que caracteriza a ciência é uma estrutura rigorosa, o que não impede sua adaptabilidade: as afirmações da ciência se adaptam a novas evidências, caso elas surjam. Para se aceitar que determinado conhecimento é fruto da ciência, é preciso que o procedimento que levou a ele atenda a alguns critérios, a saber.
O método científico segue padrões severos que incluem observação, elaboração de hipótese, controle de variáveis, busca de resultados alcançados por outros cientistas em outras épocas ou lugares e que vão confirmar, anular ou complementar os resultados atuais, experimentação sempre que possível, emprego de amostras estatisticamente representativas etc etc etc. É preciso que os resultados possam ser alcançados por outros pesquisadores, ou seja, deve haver a possibilidade de replicar a pesquisa, mantendo condições equivalentes. A objetividade é fundamental; os resultados alcançados se baseiam em fatos e evidências, numa luta cheia de empenho para minimizar qualquer influência subjetiva.
Mesmo com todo esse rigor, os resultados trazidos pela ciência não são sempre definitivos; podem aparecer novos fatos, que passaram despercebidos, e que obrigam os resultados a serem atualizados. Tenho um curso on-line, disponibilizado no YouTube, chamado Conceitos, Preconceitos e Fatos, onde exemplifico com clareza que o conceito de inteligência humana precisou ser reformulado pela Psicologia, e explico todo o processo referente a isso. É bem interessante.
Para se fazer ciência, é preciso atender aos critérios citados acima; existe um setor da sociedade, que é a comunidade acadêmica; ela atua nas universidades, nas empresas que empreendem pesquisa e nos periódicos que só aceitam publicar textos que passem pelo crivo desses critérios; é a comunidade acadêmica, através de representantes, que vai validar uma abordagem de um fenômeno como sendo ciência.
O conhecimento produzido pela Psicologia atende a esses critérios. Espero assim ter respondido à provocação de um pai da Escola de Pais, que me foi trazida pelo Martinelli.
(*) Dra. Maria Celia de Abreu é psicóloga, coordenadora do ideac e autora de vários livros, entre eles “Velhice, uma nova paisagem” (Ed. Ágora)
Cada vez mais admiro nossa amiga Maria Célia, não deixa passar sem resposta uma dúvida. Parabéns! Sempre aproveito seus textos, tranzem ensinamentos, esclarecimentos e é agradável de ler.
Obrigado pelo retorno Lucy, é sempre importante pelos comentários saber como o nosso blog e os textos que selecionamos com tanto cuidado chegam até as pessoas. Abraços