Jader Andrade (*)
O dia tinha sido especialmente bom.
Não por fatos extraordinários, por encontros surpreendentes ou mesmo pela gostosa sensação de gratidão à vida, ao universo ou a Deus, que habitualmente me captura.
Caminhava simplesmente por trilhas conhecidas do parque, naquela manhã, regada pela garoa acompanhada de um ventinho frio, quando me deparei com pensamentos que demorei um pouco a organizar, tentando me aprofundar no seu sentido.
Lembrei-me que no grupo de aprofundamento espiritual estudávamos sobre essência e personalidade no pensamento de Gurdjieff , e percebi que este conteúdo vinha me rondando há alguns dias.
Estava ali, diante de mim, passando por caminhos conhecidos e com o olhar para dentro. A essência acenou e, ao percebê-la, sorri, havia clareza e redenção; alívio e permissão. Autopermissão para a essência ser. Apenas ser, desobrigado de ser outra persona.
A tarde continuou imersa em paz. Enquanto cuidava da minha refeição, o processo de fixação daquele aprendizado me preparava para acolher, sem obstruções, o que estava por vir à noite.
O sol tímido daquele dia se pôs e esfriou a sala de TV, onde me sentei para assistir ao filme “Dias Perfeitos”.
Perfeitos por que, seriam os dias?
Na sucessão de manhãs, tardes e noites que o diretor Win Wenders vai apresentando, plenos de rotinas e eventuais surpresas, como para a maioria das pessoas, a vida de um sujeito faxineiro de banheiros públicos vai cativando pouco a pouco o espectador.
A rotina deixa de ser enfadonha e se transforma em fonte de satisfação por ser carregada da intenção correta.
Com a atenção aos detalhes, momentos de possível prazer como cuidados com plantas, fotografar, se alimentar, ler, dormir e sonhar, não escapam.
Não há dispersão. O telefone é para falar. A câmera para fotografar. O livro para instruir.
A palavra é dita de modo parco, porém suficiente.
A relação familiar é sem cobrança, compartilhada de modo positivo, sem crítica. Definida em seus papéis e limites. O passado ficou no passado.
O estranho na rua, brincando com o ar, se conecta com o sujeito por fios imaginários.
O tema musical da manhã comunica e embala o clima para o trabalho.
E as horas prosseguem, no banho público em silêncio, nas refeições acolhedoras, na brincadeiras com sombras, com um novo amigo que sofre.
Sempre presente no momento, desperto, o sujeito flui, criando soluções surpreendentes para a vida.
Feliz, sorrindo.
Qual o ingrediente para a perfeição ? Presença integral.
Terminei de ler “Uma Boa Vida”. Os autores Marc Schulz e Robert Waldinger apresentam os resultados do grande estudo de Harvard sobre a felicidade, afirmando que são as relações a maior fonte de prazer para as pessoas.
Felicidade também vem das relações consigo mesmo e com o que a vida trouxer.
(*) Jader Andrade é médico
Sensível , inteligente e certeiro ! Jader , você sintetizou de um modo completo essa experiência de ser ! Muito obrigada por compartilhar !
Belo texto não é Cleide? Ele deveria escrever mais. Abraços
Muito Bom Jader!
Texto que remete a algumas de nossas reflexões
Verdade, quando um texto passa em branco não deixa rastro. Abraços
Enlevada pela simplicidade da vida, do prazer e da felicidade que Jader traz nesse escrito singelo e muito profundo. Amei!
Nós também Tatiana, queremos mais. Abraços
Isso que é ter o olhar do fotografo em açao, que capta muito.mais que cena fisica. O.seu olhar para o filme nos transporta para um misto de todos os sentimentos que a obra percorreu. Grata por compartilhar
Nós que agradecemos o seu retorno e sua sensibilidade. Abraços
Parabéns pela sua refinada sensibilidade. Pela capacidade de apreender e de verbalizar. Como é que se captam sinais, instantes, como que aparentemente do nada faz se uma revelação? Uma epifania. Suas reflexões pessoais se espelham nas imagens do filme com maestria. Foi muito bom ler.
Muito bom mesmo.
Gostei
Parabéns, Jader!
Entrei na caminhada tocada pelas suas palavras, sempre atento e sensível!
Jader é um presente de Deus em nossas vidas ! Sempre trazendo uma palavra bacana e sendo Amigo ,na verdadeira concepção da palavra. Pessoa muito especial ,sensível ,altruísta e empática . Amo esta amizade de mais de 45 anos !
Que bonito seu depoimento Luiza. Jader é mesmo um grande presente, generoso e afetivo, sempre procurando fazer o bem. Abraços
Gostei principalmente no texto de : “Felicidade também vem das relações consigo mesmo, e com o que a vida trouxer” …
É uma grande verdade e o melhor aprendizado. Abraços e obrigado pelo retorno.
Parabéns , sou suspeito para falar de o quanto vc escreve nos levando a “essência” do seu pensamento, não pare de escvrever e muito menos de compartilhar!!!
Obrigado Rogério pelo retorno. Nós também achamos que o doutor Jader precisa escrever mais e tem muito a nos dizer. Abraços
Amo a sua sensibilidade, Jader!
Texto preciso e que nos convoca para reflexões necessárias !
Obrigada por compartilhar!
Abraço afetuoso!
Obrigado pelo retorno Soraya. Concordamos com você, dr. Jader é realmente um profissional dedicado e que está sempre compartilhando seus conhecimentos.
Só sentimos que o Jader não escreva mais, ele sempre arrasa. Abraços