Por Suely Tonarque (*)
O vestir, como hábito humano, é atravessado pela cultura, localidade, momento, clima e tantos outros fatores que permeiam e constroem a relação do ser humano com o mundo e com os outros. Os trajes de banho, por fazerem parte das nossas vidas,sofrem e sofreram transformações: o que chamamos de biquíni na atualidade, no século XX, mais especificamente entre 1910 e 1913, eram chamados de “trajes de banho” e eram feitos de lã ou flanela.
Tal transformação – do traje de banho ao biquíni – ocorreu aos poucos: passou de vestimentas de uma peça apenas para duas; inclusive, o “topless” (prática da mulher de usar apenas a peça de baixo deixando os seios expostos) também teve seu lugar nesse vagaroso processo de transformação e foi consagrado como prática da mulher que desejava banhar-se na praia ou na piscina. Vale dizer, também, que os maiôs foram integrantes importantes da constituição dos hábitos atuais.
Essas vestimentas passaram a ser usadas principalmente nos países tropicais – em virtude de suas temperaturas elevadas – como: Colômbia, Brasil, Equador, Venezuela, República Democrática do Congo e etc. O Brasil, por fazer parte deste grupo, sempre foi terreno fértil para uso de biquínis já que possui praias, rios e cachoeiras em abundância.
Faz parte da experiência de ser brasileiro frequentar espaços próprios de banho – em especial as nossas belíssimas e animadas praias – acompanhado de música, comidas típicas, bebidas alcóolicas, futebol e outras tantas práticas conhecidas por todos. É interessante acompanhar, nas músicas, o reflexo destes aspectos que marcam nosso país, ao celebrarem a praia, o calor, o mar e até o biquíni; canções como “Como uma onda (Zen-Surfismo)” de Lulu Santos e “Garota de Ipanema” de Tom Jobim são dois dos vários exemplos.
Ao experimentar, provar ou desfilar com as duas peças – o biquíni -, seja na piscina, na praia, no clube ou ao tomar banho de sol com as amigas – que, na minha época, nós usávamos como bronzeador coca-cola – nós podemos ter uma oportunidade de experienciar o corpo de outra forma. Na exposição do calor, ao entrar na água e sentir o vento passando na pele, a relação com o corpo passa a ser outra e, nisso, a relação com o ambiente e com a própria identidade também.
O vestir não é um ato simplesmente encerrado nas roupas, ele carrega uma série de fatores em si que, por mais que escapem dos nossos pensamentos, sempre estamos de uma forma ou de outra cientes. O biquíni remete e traz consigo sempre um momento específico, momento que passa a colorir essa vestimenta e dar a ela um significado particular, atravessado inclusive pela singularidade de cada experiência e de cada pessoa, já que cada corpo é um.
Antigamente, usar biquínis que expusessem mais o corpo e deixar a pele dourar no sol ao tomar bronze era símbolo de ser moderna. Eu passava horas e horas com coca-cola no corpo exposta ao sol. Essa prática marcou minha juventude no interior de São Paulo, eu e meu biquíni de bolinha amarela na voz de Ronnie Cord. A canção original, em inglês, foi lançada em 1960 e composta por Paul Vance e Lee Pockriss.
Hoje em dia, com 74 anos, não uso mais maiô e muito menos biquíni, jamais tomo sol e sou branca como leite. Raramente vou à praia ou piscina e, quando vou, me escondo atrás do guarda sol vestida de túnica e chapéu para cobrir todo o corpo e havaianas no pé para não me sujar de areia.
Porém, recentemente, uma querida amiga me convidou no ano passado para passar um final de semana na sua casa de campo e ela me disse: “Su, leva seu maiô, seu biquíni, seu short ou o que for para nós entrarmos juntas na piscina!”. Me questionei como ia levar tudo e, depois de procurar no achados e perdidos encontrei e empacotei na mala.
Dessa vez, estava com os trajes comigo, o que me faltava era a juventude que me acompanhava nos banhos de sol, de piscina e de mar. Em um ponto da viagem minha amiga me fala: “Su, está calor, vem para a piscina aproveitar!”. Tive que respirar por um momento para tomar um pouco de coragem e resolvi vestir meu maiô preto. Fiquei linda; prendi o cabelo aos poucos e fui entrando devagar na água: primeiro os pés, depois a cintura e, quando vi, estava inteira na piscina novamente!
Neste momento senti algo muito intenso: uma enorme leveza de estar viva, naquela imensidão de ladrilhos azuis. Fui e voltei nadando com uma boia e, subitamente, me vieram lembranças da infância, alegres e joviais, quando usava um biquíni verde, vermelho e branco. Hoje, aos 74, foi um maiô preto que me fez leve e solta.
Sonia F, muito obrigada por insistir que eu me vestisse com um traje de banho e por me encorajar a expor meu corpo como ele é. Obrigada por ajudar a descobrir a riqueza do cotidiano.
(*) Suely Tonarque é psicóloga, gerontóloga e especialista em moda no envelhecer






Acompanhei a historia do maiô, do biquini e de vc Su, não querendo se expor ao sol, num escrito gostoso e, por que não, informativo! Como há muito não fui em praia ou piscina…já estou me programando para sentir o prazer, que nem vc, minha querida!!!!
Bons exemplos devem ser seguidos, principalmente quando trazem oportunidade de diversão, leveza e bem-estar. Aguardamos sua experiência Tatiana. Abraços
Quanta história por traz dos costumes , você nos traz neste texto rico e fluido ! Obrigada!
Suely tem ótimas histórias e que bom que compartilha com a gente. Abraços Cleide!
Adorei seu texto Su. Leveza senti eu ao ler e mergulhar com vc nesta piscina deliciosa!
Parabens!
Que lindo texto Suely e que lindeza de amiga essa Sonia F por incentivá-la e que lindeza você aceitar o convite a saborear vida com alegria
Delicia de texto Su e que venham mais muitos banhos de piscina refrescantes com as amigas.
Su, parabéns o texto está bem natural! Vi você na juventude e também no atual. Nossa história não tem muita diferença. Porém, não deixei de usar maiô, tomar banho de mar e nadar na piscina. Atualmente uso protetor solar e não fico tomando sol como nos tempos de juventude. Na época usávamos bronzeador!