Yayá de Andrade – De Oakville, Canadá (*)
Hoje li um artigo interessante sobre alguém que está sempre mudando de cidade… e aqui estou eu, refletindo sobre minhas mudanças, que não foram poucas. Tenho certeza de que existem “n” implicações quando alguém toma a decisão de mudar para uma cidade nova: meus colegas psicólogos têm várias teorias a respeito disso, e eu respeito todas. Mas agora quero falar um pouco sobre mim.
Não sou a primeira pessoa que se muda, nem a última, nem a que contabiliza mais mudanças, nem minhas mudanças foram extremas. Porém, comparando com a média das brasileiras e psicólogas da minha geração, foram consideráveis. Acho que parte desse comportamento tem a ver com a minha história de vida no Brasil, desde criança mudando com a família, algumas mudanças radicais… e também com minha vontade de explorar novos lugares, novas pessoas, novos ambientes, aos quais eu vou me adaptando, o que é um traço da minha personalidade.
Desempenhando funções como psicóloga, sempre estive preparada para dar apoio e trabalhar “fora”, e me sinto privilegiada por ter conhecido pessoas e lugares tão diversos no mundo todo.
Quando mudo de casa, ou de cidade, até mesmo de país, logo penso: esses vão ser meu quarto e minha cozinha agora, e estas são minhas ruas… e vou descobrindo por ali tudo de que preciso e de que gosto. Não me lembro de me arrepender de ter mudado, mas sei que sou otimista por natureza, e privilegiada pelas circunstâncias, porque nunca me aconteceram coisas ruins por ter me mudado.
Meu atual pedaço de vida fica no Canadá, a uma hora a oeste de Toronto, em Oakville, uma cidade ao lado do lago Ontário. Gosto da minha rotina aqui, dos “meus” restaurantes, supermercados, lojas e principalmente do apartamento e do prédio onde moro.
Tem um restaurante francês na rua do lado, lindo (e caro). Tem vários cafés e restaurantes na rua pela qual eu caminho ou ando de bicicleta quando quero chegar na borda do lago. Digo para mim mesma que vou prestigiar vários, se não todos, e quem sabe até ser reconhecida pelos garçons depois de algum tempo, mas não me atrevo a imaginar que em um deles ainda vai ter uma cadeira com meu nome.
Tem uma biblioteca bem desenhada, na qual posso chegar andando ou de bicicleta, e onde passo horas. Eu me tornei uma pessoa de biblioteca, e não compro mais livros. Tem até uma brasileira que trabalha lá, e que me convidou para participar de um grupo que joga canastra… aceitei, mas isso ainda não se materializou.

Entrar em um supermercado pela primeira vez, olhar a variedade de produtos, tentar identificá-los, me faz sorrir. Vou a vários supermercados, inclusive já descobri qual vende um ótimo mamão brasileiro e pão de queijo congelado. Outro oferece peixe fresco, fresquíssimo, aliás: o cliente escolhe no aquário e o funcionário mata e limpa. Já sei onde encontro uma grande variedade de produtos de Portugal, da Índia e da Inglaterra. Tem um supermercado onde não só um japonês faz sushi na hora, na sua frente, como oferece uma ótima sopa udon, e um outro com pães deliciosos feitos ali mesmo. Nada falta… evidentemente, aqui não temos nenhuma daquelas maravilhosas feiras livres que eu frequentava com gosto em São Paulo; no verão temos “farmer’s market”, que é parecido, mas não é igual….
Gosto do meu novo posto de gasolina da Petro Canada, onde sou registrada, porque assim tenho regalias e descontos. O atendente já me conhece e sempre, solícito, me ajuda e lava o para-brisa do meu carro; porém, para encher o tanque com o combustível, estou bastante acostumada a eu mesma dar conta dessa tarefa.
Os mercados e shopping centers são ótimos lugares para se caminhar; agora tenho um marcador para controlar a meta de dar 5.000 passos por dia, o que me deixa saudável. Estou me cuidando, sem ser atleta, só evitando ser sedentária.
Minha rotina de atenção com a saúde inclui usar as amenidades do prédio onde moro: uma academia bem equipada, piscina com água aquecida, banheira de hidromassagem com água quente e sauna seca.

Outra descoberta está relacionada com cinema, de que sempre gostei. Descobri um grupo – OFFA (Oakville Film Festival and Art), me registrei, e já vi vários filmes novos, inclusive alguns que ainda não estão no circuito comercial; o último foi “O Coro”, com Ralph Fiennes. Conheci pessoas que formam esse clube de cinema, e nos encontramos em sessões especiais, em matinês mensais.
Mantenho algumas atividades de trabalho voluntário. Uma vez por semana trabalho no café de um centro recreativo para idosos, fazendo scones e muffins, seguindo a prática budista: ao fazê-los, penso que quem vai consumi-los vai ficar satisfeito, nutrido. Todos gostam e as fornadas têm aumentado gradualmente. Continuo voluntária com a Cruz Vermelha do Canadá, e tutora do programa virtual de Budismo e Psicologia.
A vida aqui é simples, calma e quieta. As vezes aparece um aceno, com possibilidades, algo novo, encontros, oportunidades, uma descoberta… e mudar continua sendo uma hipótese válida para mim, apesar de, hoje, eu estar certa de que esta vai ser a última cidade em que moro, meu último apartamento. Porém… segundo familiares e amigos… eu já disse isso outras vezes.
(*) Yayá de Andrade é graduada em Psicologia no Brasil, continuou os estudos no Canadá e nos Estados Unidos. Atualmente, aposentada, é voluntária na Cruz Vermelha Canadense, no setor de Segurança e Bem-estar.






Que gostoso ler e ver as fotos no texto da Iaiá!
Sou muito apegada ao meu lugar, mudei muito pouco de casa e nunca de cidade ou Pais.
Vivi possibilidades perdidas, através do texto.
Saudades Iaia
É isso mesmo Marli, as mudanças assustam, mas podem trazer tantas boas novidades, não é? Abraços
Obrigada pelo comentário. novidades sempre acontecem nao acha?
Seu texto me deu a almejada sensação de estar sempre presente no tempo presente, em corpo, pensamento e intenção. Uma vida intensa, sem algazarra…uma vida serena, com harmonia. Uma conquista!! Parabéns!!
Obrigado pelo retorno, é uma sensação que realmente almejamos e precisamos.Abraços
Sim Jader, eu tento estar presente, mindfully… mas as vezes confesso que pessoas contam com situacoes mais planejadas, dai podem se ressentir porque voce fica mais “available” para o que acontece, nao para seguir planos…
Ah! Querida Yayá! Que gostoso ler seu texto…
Me identifico muito com vc em relação a mudanças. As minhas, entretanto são de mais curta duração: como temos as filhas em três continentes diferentes, ficamos três meses com cada uma e mais três meses com papai e mamae(98 e 95 anos). E necessário desapego grande de coisas e das rotinas da casa da gente…Ainda bem que uma das filhas mora na mesma cidade nossa: Vancouver. E aí vamos nos, muitas vezes seguindo as descobertas das filhas… uma padaria especial, um restaurante único, a piscina favorita dos netos…tem pouco de “meu” somente, mas nem por isso deixa de ser especial…
Saudades de vc…quero aparecer em Oakville pra ir no “seu” restaurante francês! Beijos!
Obrigado pelo comentário carinhoso Cristina. Abraços