Dra Yayá de Andrade (*)
Envelhecendo, nos tornamos órfãos de mães,
mas o valor delas será mantido até a nossa morte.
Li que a Isabel Allende (romancista chilena, residente nos Estados Unidos) escreveu um livro sobre cartas da sua mãe. Fiquei pensando que eu também tive cartas da minha (infelizmente não guardei a maioria delas, dada a minha tendência a “reduzir” coisas); mas ainda achei algumas.
Depois que entrei na Faculdade, portanto, morando em outra cidade, minha mãe sempre me escrevia, na sua letra bem legível de professora de primeiro ano primário. Em geral ela contava da rotina, o que estava acontecendo com pessoas da família e da cidade: quem havia casado, morrido ou mudado de lá. E sempre mandava uma receita junto com a carta. Só tenho ainda algumas dessas cartas porque ficaram dentro de um caderno de receitas, que ela também escreveu.
Esse caderno ficou histórico e todo mundo que o vê se encanta: um caderno grande, de capa preta, com páginas numeradas. As receitas são escritas à mão, e o título de cada receita foi sublinhado com caneta vermelha. Ela deu tal caderno para todos na família, inclusive netas, e a família se orgulha de ter essa relíquia. Minha irmã V “reciclou” o caderno e as receitas, escrevendo um livro, bem bonito, colorido. No caderno da minha mãe se nota que umas poucas receitas não foram terminadas. Imagino que ela escrevia, e tinha que parar por algum motivo, e quando voltava, virava a página e começava outra receita, sem se dar conta que não havia terminado a anterior… Temos que imaginar como seria o fim de tais receitas. Só rindo mesmo!
Aqui está uma carta típica da minha mãe, que achei recentemente:
“Aproveitando o pacote que a C. está te enviando para o Canadá, copiei às pressas umas receitas de biscoitinhos e patês que acredito que você vai aproveitar. Espero que tudo esteja correndo bem, que você esteja com bastante saúde e ânimo para enfrentar seu trabalho que não deve ser fácil. Fiz correndo alguns panos de prato e queria bordar em ponto cruz que ficaria mais bonito, mas o tempo foi curto e além disso estou com um dedo da mão direita atacado da artrite e muito inchado. Não tenho feito tricô por esse motivo e só consigo fazer crochê, assim mesmo devagar e o ponto fica bem largo pois não dá para apertar mais. Assim que melhorar vou fazer outros panos mais caprichados. Os sacos que tenho em casa são um pouco ralos, mas chegando em Catanduva vou procurar um homem que me fornecia sempre uns panos de prato mais fortes e resistentes. Não tenho tido notícias do pessoal de Ribeirão Preto, mas fiquei sabendo que eles foram para a casa de praia. O JF para variar está namorando uma moca nova, desquitada e com dois filhos já grandes, filha de um usineiro daqui de perto. Ela convidou ele para passar o carnaval com a família na praia. O JA e V estão na Riviera de São Lourenco. O P tirou nota máxima no exame de doutorado e parece que fizeram um almoço bem chique para comemorar. Estou mandando também as novenas da Nossa Senhora das Graças, e vai indo uma pulseira com a medalha dela no saquinho vermelho. Aqui todos mandam abraços e a A está às voltas com os filhos que logo voltam às aulas depois de terem ido à Disney. Escreva contando tudo daí, estou rezando sempre para tudo dar certo e que você sempre esteja lucrando para compensar o trabalho. Abraços meus, sua mãe.”
Ainda relembrando minha mãe, uma peculiaridade dela era telefonar, de madrugada, às 4 ou 5 horas da manhã, aos domingos. Evidentemente eu estava dormindo e acordava assustada pensando que seria notícia ruim…, mas aprendi que era minha mãe! Sempre perguntava como eu ia indo, e dizia que era uma boa hora porque sabia que me pegava em casa. E a conversa prosseguia, sempre bem típica: eu perguntava como ela ia indo e a resposta infalível era uma de três opções: “estou bem mas estive um pouco gripada essa semana”, ou “estou com dor de estômago,” ou “estou preocupada que vou pegar um resfriado.” Isso implicava que o sofrimento era presente, ou passado ou futuro; me acostumei.

Aliás, em casa sempre achamos estranho que minha mãe nunca ria, em uma família onde todos ríamos muito, porque éramos engraçados, inclusive meu pai. Quando ríamos, ela retrucava: “quem ri muito chora muito,” ou “só gente tonta ri tanto assim”; aceitávamos a seriedade dela.
Outro dia, minha irmã C disse que era aniversário da Tia Mariquinha, uma pessoa que considerávamos como mãe. Quando penso na minha mãe, penso em outras pessoas que para mim foram mães também. Tia Mariquinha era uma tia-avó (materna) que morou com minha avó desde o nascimento do primeiro sobrinho, e depois com minha mãe, desde o nascimento do primeiro sobrinho-neto. Ela era solteira. Achávamos que tinha uma história (trágica?) de um namorado ou noivo que havia morrido na guerra.
Mas como isso não era assunto comentado com crianças, nunca soubemos a verdade. Para nós ela era a “mãezinha” que se divertia com tudo que fazíamos, e não só ouvia as nossas lamentações sobre nossos pais, como também preparava uns bolinhos maravilhosos que comíamos depois da escola. Uma das peculiaridades da Tia Mariquinha, que nos fazia rir muito, caçoando dela, era que durante o jantar, com a família inteira sentada à mesa, ela nunca falava diretamente com meu pai, e dizia para minha mãe: “pergunte ao JP se ele quer mais arroz…” e nos divertia aquela coisa mais louca que ela não falava com o pai. Minha mãe retrucava que tia Mariquinha era respeitosa, em especial quando tinha crianças por perto. Nunca entendi isso…
Sou agradecida pelas mães que tive em professoras, como estudante, e depois em chefes de departamento, nas Universidades onde trabalhei. Essas mulheres profissionais foram modelos que eu segui, e o apoio que tive delas foram pilares que me sustentaram no meu trabalho. Um dia, quando uma vez minha mãe disse que achava que eu estava sendo explorada, trabalhando muito duro para minhas professoras e depois para minha diretora, notei que minha mãe talvez tivesse ciúme delas, porque sabia da minha admiração por elas.
Já adulta, consciente que somos de gerações diferentes, me dei conta de que minha mãe nunca teve pessoas queridas, confidentes, que não fossem familiares. Uma vez tive oportunidade de ficar com ela durante uma semana em um spa, e ali conversamos muito sobre nossas mães, e sobre outras mulheres que nos ajudaram em muitos sentidos. Ela disse que nunca teve alguém fora da família, e nem lembrava de amigas em quem ela confiasse “segredos” ou conversasse sobre assuntos pessoais, íntimos.
Lógico: sabemos que mãe é uma só! Mas eu acho que carinho, atenção e afeto, que recebemos de mulheres ao longo das nossas vidas, têm um valor inestimável e vejo tais pessoas como minhas mães. Por outro lado, com certeza somos mães de pessoas que não são nossos filhos (em especial no meu caso, que não tenho filhos biológicos); penso nos meus afilhados, nos meus estudantes e nos clientes que talvez me tenham visto como mãe, em algum momento da vida deles.
(*) Dra. Yayá de Andrade é graduada em Psicologia no Brasil, e continuou seus estudos no Canadá e Estados Unidos. Atualmente aposentada, mora em Oakville, e é voluntária na Cruz Vermelha Canadense, no setor de Segurança e Bem-estar.






Belo e verdadeiro texto! Pleno de afetos!
Que vida linda de relacionamentos múltiplos e lembranças generosas. Várias mães incríveis na vida! Texto rico!!!!