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Sobre velhice, carnaval e voluntariado

Maria Eliza H. Silva (*)

 

Eu não tinha me dado conta! Foi o olhar perspicaz e generoso de uma amiga querida sobre meu trabalho voluntário no Banho pra Geral, um projeto que atende pessoas em situação de rua, levando-lhes uma carreta onde podem tomar banho quentinho, entre outras providências de higiene e de acolhimento, que revelou o lado oculto para mim até então – o quanto estou cuidando da minha velhice ao mesmo tempo em que cumpro o que para mim é missão de vida, assim entendido o trabalho voluntário que faço desde 2022. Ali eu levo aos atendidos pelo projeto meu conhecimento e minha habilidade como podóloga.

Em uma conversa informal, no trânsito a caminho de algum compromisso comum, eu conto para essa amiga a minha recente experiência carnavalesca com o grupo do Banho e as pessoas em situação de rua. Enquanto vou relatando, ela vai apontando: isso é pura intergeracionalidade, ah neste momento você está cuidando da sua vaidade, isso aqui agora é pura alegria, puxa vida, você encontrou lugar no mundo… neste trabalho você cuida do corpo, da mente e do espírito dos outros e dos seus também… Que lindo panorama essa amiga desvendou, que belos olhos ela tem.

E sabe, concordo com ela e agradeço por nossa conversa.

Transcrevo a seguir o texto que escrevi a pedido da minha querida Suely Tonarque, que descreve o quanto estar engajada nesse grupo de trabalho voluntário é gratificante para mim.

“Que delícia receber meu abadá, primeiro da vida. Uma linda camiseta de amarelo forte, com a estampa em três tons de roxo apresentando o Bloco dos Unidos pra Geral que reúne o Chá do Padre e o Banho prá Geral, duas iniciativas de apoio às pessoas em situação de rua/vulnerabilidade.  Sairemos na terça feira dia 17/2. A concentração será no bairro do Bixiga, com esquenta a partir das 11h para ganhar as ruas a partir das 13:30h. O Bloco existe na verdade desde 2015 e após algumas interrupções, volta a sair em 2026.

Terça de manhã me levanto cedinho para procurar na internet uma forma de customizar meu abadá, porque sou pouco criativa para estas coisas e tenho receio de fazer alguma besteira. Encontro um tutorial que ensina como fazer franjas na barra. Me encho de coragem e munida de tesoura, régua e lápis, faço a marcação. Agora vamos lá:  roc, roc roc, sobre a mesa da sala, cortando, cortando e cortando, frente e parte de trás. Corto também as barras das mangas e do pescoço para descontrair um pouco mais.  O resultado está uma beleza, pelo menos eu acho. Capricho nas franjas, estico e torço levemente uma a uma para esticá-las evitando que enrolem, dica do tutorial.   Visto uma bermuda preta, escolho um par de brincos entre os maiores que tenho, calço o tênis, chamo o carro de aplicativo e sigo cantarolando mentalmente “…  lá vou eu, lá vou eu, hoje a festa é no Bixiga … “parodiando a vinheta de carnaval de uma rede de TV.

Chego pontualmente às 11hs, filha de mãe mineira que não gosta de atrasos. Ninguém à vista, mas não perco a animação. Caminhando um pouquinho, tenho uma boa surpresa ao encontrar uma loja de artigos de carnaval que está aberta. Ao entrar, esbarro em um cordão pendurado desde o teto e presas a ele, lindas flores de pano, imitando camélias. Não titubeio e escolho três:  uma roxa, uma amarela e uma vermelho queimado que estão coladas, cada uma delas, a um clipe.  Era o que faltava, elas comporão perfeitamente com as cores do abadá.  Ajeito as três em um lado do meu cabelo e agora sim, estou com o traje completo.

Por volta de meio dia começam a chegar os voluntários e somos avisados pelo policiamento que teremos apenas uma rua em vez de dois quarteirões inteiros para o desfile, o que nos frustra, mas não nos imobiliza. Se é isso que temos, assim nos divertiremos. Aos poucos as pessoas em situação de rua e mais voluntários vão chegando, o carro de som acerta os microfones, os estandartes e instrumentos são distribuídos e tem início o esquenta. Uma delícia, com as músicas tradicionais de carnaval de salão da minha adolescência que me fazem voltar no tempo, lá no Clube Centro Avareense, na cidade de Avaré, interior de São Paulo onde moravam meus avós e onde eu costumava passar as férias.

 Amo carnaval, este, das marchinhas do “pó de mico”, do “me dá um dinheiro aí” e todas as demais cujas letras estão condenadas pelo novo letramento. As bandas sempre excelentes tocavam até o dia clarear. E na quarta de cinzas minha Tia Zezé preparava um caldeirão de canja de galinha para que minhas primas e eu acalmássemos a ressaca antes de irmos à Igreja para tomar as cinzas, o que nada mais era do que receber um punhadinho delas depositadas pelo padre sobre nossas cabeças ou ter uma cruz desenhada pelo celebrante em nossas testas, dando início aos ritos da Quaresma, que são os quarenta dias de penitência que antecedem a Páscoa dos Católicos. Mas isso dá outra história, pense só:  depois da farra da festa pagã a penitência dá muito mesmo o que falar…

De volta ao Bloco no Bixiga conto que danço muito e noto um rapaz que está fazendo uma coreografia da qual dou conta, porque não sou boa de samba, então me junto a ele para brincarmos juntos o carnaval. O bloco é animado, muita fantasia, muito contentamento e recebo a confidência de um outro folião que me conta estar passando o melhor carnaval da vida dele, sem bebida, sem droga, só cantando e pulando. Ele tem uma toalha de banho pequena, amarrada na cintura, o que acho bem original e condizente com o nome do Bloco. Nossa madrinha é muito bonita, vestida com uma saia longa e um corpete, ambos com tiras multicoloridas. Muito bem maquiada e penteada, a danada sabe sambar e tem um sorriso largo, encantador.  Está feliz. A escolha foi perfeita.

O carro de som sobe a rua e depois desce em marcha a ré conosco pulando em volta, por três ou quatro vezes, quando recebemos autorização para dar a volta em dois quarteirões completos. Que glória.

É quando vejo chegando o voluntário Luiz com um estandarte em forma de cruz, coberto com saco plástico preto e uma faixa com os dizeres “Mesmo proibido, olhai por nós” que reconheço de imediato e peço para fotografar. Esta é uma frase histórica do Carnaval de 1989, usada pela Escola de Samba Beija-Flor de Nilópolis no carro abre-alas cujo título é Cristo Mendigo. O carro foi censurado a pedido do Arcebispo do Rio de Janeiro à época e o carnavalesco Joãosinho Trinta, com imensa criatividade e ousadia, cobriu a imagem proibida do Cristo com sacos de lixo pretos estampando a frase “Mesmo proibido olhai por nós” como protesto contra a censura e contra a exclusão social. O enredo da Beija-Flor nesse ano era “Ratos e Urubus, Larguem a Minha Fantasia”, focando nos marginalizados e no lixo, celebrando a estética da rua e a superação. Luiz foi inspirado e inspirador.

Peço aos meus anjos de guarda, mentores e orixás que me deem saúde e energia para permanecer ao lado dos que se encontram em situação de vulnerabilidade, trabalhando com o Banho prá Geral.

Viva!”

(*) Maria Eliza é podóloga gerontogeriátrica

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Maria Lucia Di Giovanni
Maria Lucia Di Giovanni
2 horas atrás

Quanta coisa importante no seu texto… alegria, doação, justiça, sensibilidade, muito olhar atento para a vida.
Beijo. Parabéns!!!

Sónia Fuentes
Sónia Fuentes
2 horas atrás

Parabéns querida Maria Elisa pelo lindo trabalho e pelo seu relato tão importante.

Maria Thereza Henriques
Maria Thereza Henriques
2 horas atrás

Brilhante, alegre e verdadeiro! Parabéns prima! Amei!

Jader Santos Andrade
Jader Santos Andrade
55 minutos atrás

Bela farra ! Boa diversão!!

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