Por Jorge Julião
Há 26 anos trabalhando com grupos de 60+, percebo que, muitas vezes, sentimos uma posição de não pertencimento em alguns lugares ou situações do nosso dia a dia. A falta de paciência, de tolerância, de educação de algumas pessoas muitas vezes nos atinge de maneira cruel e ostensiva. Afinal somos velhos e nossos tempos são diferentes para essa correria. Envelhecer não é fácil. Mais o processo se torna pior se fixarmos o papel de vítimas. Existimos e temos que enfrentar uma guerra diária para não nos tornarmos invisíveis aos outros, à cidade, à vida.
Sabemos que fazer parte de um grupo social, fazer esportes, dançar, ler, ter boa alimentação e manter uma curiosidade ativa melhora muito a nossa autoestima e nossa briga com o pijama e chinelos fica acirrada.
Então briguemos. Sair para caminhar, descobrir novos pontos na cidade, pegar uma matinê (lembram?), fazer parte de um coral, de um grupo de dança ou de teatro, tudo isso ajuda, mas é preciso assumir as nossas escolhas.
Estamos em uma faixa etária que “não pode”, “não deve”, “não fica bem” devem ser esquecidos e enfrentar essas lutas diárias nos fortalecem muito.
Assanhado com a vida! Isso sim. Sou professor aposentado que quando comecei a trabalhar com esses grupos não pertencia à Maturidade. Hoje sou um “sessentão” e outro dia fui convidado por três alunos para tomar um chopp em um barzinho de Sampa. Minha primeira pergunta a eles: tem gente da minha idade? Responderam de imediato: claro, tem de tudo! Fui e, óbvio, eu era a única cabeça flocada no bar.
Eu me senti fora do meu mundo, sendo observado, analisado e o bar todo parecia me olhar. Que bobagem. Eu estava me sentindo assim. As pessoas riam, falavam alto e continuavam com a alegria da noite, rindo muito, se divertindo, música alta, mas todos felizes. Por que eu me incomodava? O não pertencimento ao local devido à minha idade partia de mim. Tomei dois chopes e tudo à minha volta continuava igual, sem o “velho” do bar fazer parte de um número fora do contexto. Relaxei e foi uma noite encantadora de casos, causos e descobertas. Ganhei até um olhar meloso certa hora… rsrsrs
Notei que em muitos casos, a nossa invisibilidade vem dos nossos conflitos do envelhecer.
Torno a dizer: não é fácil, mas não podemos deixar a passagem do tempo embaraçar os nossos sonhos. Vamos abrir portas e buscar novos finais, com a beleza que a idade traz a cada um de nós. Sem se incomodar com preconceitos (sempre vão existir) e opiniões negativas.
Assumir a nossa idade e se achar maravilhoso nu, diante de um espelho. Marcas da nossa história. Que bom que as temos.
“Espelho, espelho meu, existe no mundo alguém mais belo do que eu?” Você sabe a resposta. O tempo do Patinho Feio ficou para trás. Hoje queremos ser cisnes!
(Jorge Julião é professor de grupos de maturidade, ator e diretor)






Muito lindo seu texto Jorge querido
Me identifiquei muito com seu texto Jorge. Como fui buscar por mim mesma na velhice,já enfrentei essa situação e pode ter certeza vem de nós mesmos o preconceito.
Já fui olhada com espanto e já fui muitíssimo bem acolhida em outros. O importante é estar onde queremos estar não é mesmo . Grande abraço a todos.
Que lindo Jorge! A invisibilidade muitas vezes são percepções nossas. Temos que ter a coragem de nos transformar.
Sejamos cisnes libertos do auto-preconceito! Boa “cutucada” !!