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Conheça um universo de informações para um envelhecimento saudável.

Velhice, cara velhice!

Cleide Martins (*)

Nas reuniões semanais do grupo de estudos do Ideac – Instituto para Desenvolvimento Educacional, Artístico e Científico, elegemos um livro, um filme ou um tema para aprofundar nosso entendimento das questões relativas ao envelhecimento.

Neste mês, o grupo decidiu estudar o livro “A (Difícil) Decisão de Envelhecer”, recentemente publicado por Jorge Félix[1]. Consideramos muito bem-vindo o olhar apurado e crítico do autor, sobretudo porque ele parte de dados fundamentados em diversas pesquisas realizadas ao longo de sua vida profissional.

Gostaria de compartilhar, neste texto, uma reflexão surgida nesses encontros no Ideac, quando terminamos de conversar sobre o primeiro capítulo, que tem o mesmo título do livro.

A (difícil) decisão de envelhecer provoca algumas questões comuns aos velhos, que são em enorme número, que só cresce, em ritmo muito rápido.

A primeira dessas questões, que se coloca para nós, os velhos e para quem ainda não chegou à velhice, é: existe um momento em que decidimos envelhecer? Se sim, qual é esse momento? Existe uma regra normatizadora para que aconteça essa tomada de decisão? Sou eu mesma quem decide? Ou será a sociedade na qual estou inserida? Estou ou estarei preparada quando a velhice chegar?

Dizem as autoridades que ficamos velhos ao fazer 60 anos. Se isso é uma verdade, então a idade cronológica por si mesma toma a decisão. Não há, se for assim, a possibilidade de a tomada de decisão ser pessoal. Está decidido, os sessenta anos chegaram, pronto. A partir daí, recebo uma carteirinha de idosa, posso comprar ingresso pagando meia entrada, usar o transporte público de graça, entrar na fila preferencial.

Só que uma ordem externa pode não combinar com um impulso interno. Não me preparei para ser velha, nem física, nem mental, nem emocionalmente. Dizem que estou velha, mas não me sinto assim – essa é uma fala muito comum de se ouvir. Não há, nesse caso, uma harmonia entre minhas competências e minha autopercepção e as normas vigentes na sociedade.

Segundo entendemos dos estudos publicados por Félix, essa divergência e falta de preparação para velhice ocorre não só com o indivíduo, mas também com a sociedade.  A ciência ampliou o entendimento dos fatores que influenciam a definição da idade humana para além da idade cronológica, incluindo os fatores biopsicossociais. Isto é, o envelhecimento é influenciado não apenas pela data de nascimento, mas também pelos genes herdados, e pelo ambiente físico, emocional e social a que esses genes são expostos enquanto se desenvolvem. Dependendo das condições de vida, tais como alimentação, saúde e escolaridade, teremos o nível de desenvolvimento alcançado.

Daí decorre também uma diversidade grande entre os velhos. É a fase mais heterogênea da vida humana. Mas, há um fator comum, determinante dessas condições é o fator econômico, ou idade econômica, como define Félix.

Quando olhamos para as plantas e árvores, sabemos que elas naturalmente se desenvolvem, crescem e fornecem frutos, dependendo do terreno onde foram plantadas, da forma como foram cultivadas e tratadas diuturnamente. Se assim é na natureza, quanto mais com as pessoas!

Sabemos que se faltar alimento na primeira infância, haverá um comprometimento no desenvolvimento físico e mental a ser sentido no decorrer de toda vida. Sabemos também que o resultado da soma dos fatores biopsicossociais e econômicos se revela, para o bem ou para o mal, de modo mais complexo e evidente na velhice, do que em qualquer outra fase da vida.

Usando essa analogia com as plantas, podemos pensar que quem deve cuidar do solo, regar, conduzir os rumos desse plantio não é somente a família, os arrendatários, mas principalmente o Estado, o dono da terra. No futuro da nação, o Estado é o maior beneficiário da sociedade sadia, pois consequentemente terá menos custos com hospitais, médicos e exames. Além do benefício financeiro, crianças, jovens, adultos e velhos sadios devolverão à sociedade os frutos de melhor qualidade. A semente humana é individual, mas a colheita é social.

Os indivíduos envelhecem, quer se decidam por isso ou não. O grupo etário dos velhos se torna a cara da nação, e a nação o espelho da sociedade. Em nosso país há incontáveis velhos doentes, isolados, marginalizados por causa das suas penosas condições socioeconômicas, só que é inadmissível que continuem invisíveis, ignorados.

Segundo entendemos dos estudos trazidos por Félix, é urgente que o Brasil reconheça seu próprio envelhecimento e coloque em ação práticas de sustentabilidade humanas. Essas medidas legais não dependem das decisões individuais e sim dos governantes, através de políticas sociais adequadas.

Claro que quem escolhe os governantes é o povo, portanto ao povo – a cada cidadão – compete acompanhar e avaliar as ações daqueles que ele escolheu.

Cidadãos velhos saudáveis, física e mentalmente, são, em minha opinião, aqueles que estão em melhores condições de fazer escolhas adequadas e de participar na definição de políticas públicas.

Velhos, concordam que chega de invisibilidade e exclusão social?

É preciso decidir que podemos e devemos ocupar os espaços em cargos de decisão. É preciso reconhecer que ser velho e não estar morto implica sim em opinar e participar, inclusive, do processo eleitoral.

Senão, quem paga a conta?

(*) Cleide Martins, Pedagoga e Mestre em Ciências da Religião pela Puc-SP.

[1] Félix, Jorge. A (Difícil) Decisão de Envelhecer: Reflexões sobre longevidade, cuidado e bem-estar social. Campinas, SP, Editora da Unicamp, 2026.

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Marli Corrales Henriques
Marli Corrales Henriques
14 horas atrás

Cleide seu texto é muito bom.
Gostei
Nos coloca questões que necessitam entrar em pauta tanto no panorama social como individual.
Parabéns

Suely
Suely
13 horas atrás

Bonito texto.
É tão complexo o tema Envelhecimento e Velhice que tenho o sentimento ambíguo….Vida e Finitude.

Tatiana
Tatiana
11 horas atrás

Cleide, o tema é bem complexo e vc ovtrata com muita propriedade e amplitude. Percebemos na leitura a importância de agir em todas as frentes, pessoal, físico, mental, social e governamental. Parabéns!

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