A Coragem de Envelhecer
Por Suely Tonarque (*)
“Un Vestido y un Amor” – Canção interpretada por Caetano Veloso, composição de Fito Paez
Há nove anos (2017), por um desejo de andarmos pelas próprias pernas, fizemos uma parceria – Siuza Tonarque (Duda, na época com 60 anos) e Suely Tonarque (na época com 64 anos). Com as mudanças provenientes da Covid-19 iniciamos com uma loja na Vila Madalena e depois, no Brooklin. E assim continuamos.
A escolha de pensar e de confeccionar vestidos, saias, blusas e calças vêm das vivências da infância (5, 6, 7, 8 anos e na adolescência até 21 anos). Zilda, minha mãe, pedia para a costureira fazer vestidos para as três filhas, ou meu pai Albertino, quando viajava para São Paulo, trazia os vestidos prontos junto com as bonecas vestidas iguais.
Relato as experiências da infância com a seguinte finalidade: nas memórias afetivas temos um lugar guardado das nossas experiências vivenciadas com brincadeiras, alegrias e divertimentos que nossa mãe proporcionou. Também, nessas memórias, resgatamos a infância na nossa velhice.
Em ambas, infância e velhice, colocamos as mãos nas costuras; nós desenhamos, cortamos sem molde e sem produção em série, sem zíperes, com bolsos, com tecidos leves, soltos, sem molduras. Assim, com uma moda fluída e viva, abraçamos o processo do envelhecer; envelhecer do corpo e do território.
Abraçar a velhice não é tarefa fácil na sociedade atual, na qual a velhice é culturalmente condenada e, pior, negada. Propor moda para velhos parece, para muitas pessoas, uma ofensa, um ultraje.
Assim nós nos arriscamos, nesse trabalho de confecção, apesar das críticas. O preconceito com roupas para velhos é imenso, ouço com frequência: “mas os velhos morrem!”. Sigamos então nas mãos do envelhecer, com a consciência de que o envelhecer são os anos vividos, ou seja, é uma benção. Não morrer criança, adolescente ou jovem é uma benção, sinal de que chegamos na velhice depois de termos passado por tudo isso! Cada velhice, portanto, é singular, é uma singularidade. Cada cliente, cada amiga, cada mulher que nos procura vêm com histórias das suas vivências – um lugar ocupado no universo, na existência.
O vestir o corpo com cuidado, com amor, com dificuldades é um ato de coragem, de autoconhecimento, um evento (vestir a Velha!). As clientes/amigas velhas e as velhas que pensam nos vestidos, mesmo com todos os desafios, nos acompanharam até aqui, no ano de 2026.
E o final vem com poesia:
“Te vi
Você juntava margaridas do tecido da mesa.
Já sei que te tratei mal
Não sei se você era um anjo ou um rubi Ou simplesmente te vi” – Fito Paez, trecho da canção “Un vestido y un amor” traduzido
(*) Suely Tonarque é psicóloga, gerontóloga, influencer, e especialista em moda no envelhecer.






Suely querida, que texto mais sensível, afetivo, de despertar lembranças gostosas. Adoro o que vc fala, escreve e compartilha!!!!!
A fluidez do texto é a fluidez das criações da DudabyDuda que visto com tanta alegria na minha velhice.
Parabéns uma vez mais Suely.
Beijos