(*) Sonia Fuentes
O privilégio de participar do Grupo de Estudos sobre o envelhecimento no IDEAC por mais de quinze anos, me possibilitou adentrar nessa importante fase da vida com mais serenidade e alegria. Serenidade para aceitar o que não posso controlar: meu relógio biológico e a impermanência da vida, e alegria por ter chegado aos quase setenta anos com lucidez e saúde. Me sinto orientada, acolhida e nutrida por tantos ensinamentos e trocas de conhecimentos durante todos esses anos. Espero e desejo, que, esse grupo nunca se dissolva. Sou imensamente grata e abençoada pela oportunidade.
Mas afinal, quando me percebi VELHA?
De acordo com uma das obras mais célebres de Simone de Beauvoir: Velhice (1970), um compendio histórico para pensar a condição da velhice feminina, ela cita: “velho é sempre o outro”. E eu tal qual a autora, até pouco tempo atrás me olhava no espelho, procurando as marcas, as novidades no rosto gasto e envelhecente, e ignorava a minha “velhice”. Um turbilhão de fogos de artifícios ainda se acende dentro de mim, de minha alma, do meu coração – dentro de meu corpo inteiro me dizendo: tem tanto desejo aí dentro, tanta energia, fogo e faíscas… nem te dá tempo de sentir a devagar mansidão das pequenas mudanças.
Até que um dia, não tão longe de hoje, fui acometida por uma fala clara e direta de meu único neto de 7 anos na ocasião. Estávamos fazendo hora num restaurante de peixes comemorando meu aniversário de 69 anos. O garçom se aproxima e lhe entrega folhas de desenho, canetas e lápis de cor. Alex como num transe, desenha rapidamente os cinco personagens da família presentes e capricha nos detalhes que lhes chamam atenção. O vovô saiu com uma barriga quadrada. O que é isso Alex? É a barriga do José que está enorme, diz ele. E esses risquinhos no meu rosto? Ele responde sem travas: Wringles (rugas), Sônia.
Entro em choque. Como um ser de sete anos se atenta a esses detalhes? Decerto, ele é o outro que me enxergou velha. Uma decepção? Um pouco triste, mas serena. A viagem pede passagem e a estrada continua. Tal como, a psicanalista Ângela Mucida (2004), em seu livro: O sujeito não envelhece: psicanálise e velhice, avalia: o desejo está no inconsciente, ele não envelhece. E, penso que, ainda há em um mar de possibilidades enquanto você viver. O barco pode estar carcomido, mas o mar, ainda pode oferecer uma infinidade de belezas e novas paisagens – como diria a coordenadora do IDEAC: Dra. Maria Célia de Abreu (2017): Velhice; uma nova paisagem. E eu posso desfrutar dessas pequenas possibilidades por estar melhor preparada pela experiência nas aulas, encontros e cursos do IDEAC. Enquanto estivermos vivos, estamos sempre aprendendo.
(*) Sonia Fontes é psicóloga e gerontóloga






Muito bom, Sônia! Eu só lembro da minha idade, quando me olho no espelho. Estou me preparando para os meus 78 anos e , como você, com muita serenidade. Um beijo e obrigada por suas palavras.