Dra. Yayá de Andrade (*)
Como sempre, quando leio um (bom) artigo ou livro, tento aplicar seu conteúdo ou, melhor ainda, refletir sobre ele. Recentemente me deparei com um bom material sobre o fim de uma carreira de psicoterapeuta, com uma pergunta que todos nos fazemos: será que chegou a hora de me aposentar?
Existem algumas profissões, em especial quando se “presta serviços humanos”, que são possíveis de serem exercidas até limites muito avançados da vida. Uma vez que a longevidade se esticou, o número de pessoas idosas que continua trabalhando como terapeutas, professores, e dando assistência a outros também se multiplicou nas últimas décadas.
Porém… li um artigo em que o escritor comentou que nos últimos anos um seu parente velho, psicólogo, gradualmente estava perdendo a memória, algo que poderia ser aceito como normal, como ocorre com uma maioria de casos: aqueles episódios em que não nos lembramos se trouxemos ou não o casaco, ou quando foi que visitamos alguém, ou se repetidamente contamos o mesmo caso… Este parente continuava vendo pacientes profissionalmente, recebendo pelas sessões. O autor, no artigo, se perguntava: será que ele lembra da história já relatada pelo cliente? Os detalhes da terapia, os problemas que continuam a estressar o cliente? O que já foi falado?
A situação fica clara num exemplo que chegou até mim. Uma cliente estava em sessão com seu terapeuta, falando de uma situação complexa que estava tentando entender e resolver, e se deu conta que o terapeuta estava dormindo. Ela parou de falar e disse em voz bem alta: “Dr. A! Você está dormindo?!” Ele abriu os olhos e disse: “Interessante, não?”. Ela, evidentemente, interrompeu o tratamento com ele.
Será que clientes precisam “cuidar” dos seus terapeutas? Devem aceitar algumas digressões?… Penso que não… idealmente, o próprio profissional precisa perceber que a terapia deve terminar; disfunções cognitivas mesmo incipientes, tais como dificuldades com memória ou uma capacidade de atenção prejudicada, irritabilidade sem cabimento, condições físicas que podem prejudicar a fluidez da relação interpessoal, e outras condições são reais no processo de envelhecimento e com certeza devem ser consideradas.
Como psicoterapeutas, temos códigos, nos responsabilizando pelas pessoas que cuidamos, e mantemos uma conduta ética, geralmente controlada por colegiados subordinados a Conselhos ou Sindicatos. Esse controle feito pela própria classe profissional é acionado quando o psicoterapeuta não se dá conta de suas dificuldades – embora não seja a situação preferencial. Quando eu morava e trabalhava em Vancouver, no Canadá, fazia parte de um grupo selecionado pelo colégio de psicólogos local para ler e discutir casos quando clientes reclamavam formalmente de algo por parte do psicólogo/terapeuta. Os casos eram bem interessantes, porque mostravam que às vezes perdemos o controle e violamos códigos que conhecemos, que claramente indicam que não devemos CAUSAR danos a clientes… eu fiquei surpresa sabendo que colegas estavam envolvidos sexualmente com clientes (que os delataram); outro cobrava uma quantia absurda por trabalhos não combinados na consulta inicial (falta de clareza nos objetivos); uma outra simplesmente não aparecia na clínica, sem ter desmarcado ou mudado o horário da sessão. Havia também casos que refletiam não uma dificuldade do terapeuta, mas do cliente, em termos de como havia se comportado, clientes que apresentavam condições mentais que os levavam a uma percepção distorcida, paranoia, etc. Aprendi muito com os colegas nessas discussões e me dei conta que, como em toda profissão, aliás, existem pessoas que se aproveitam de seus diplomas e continuam interagindo (profissionalmente) sem benefícios para os que atendem.
Acho que quando nos formamos e começamos a clinicar, temos a tendência de mostrar aos clientes que sabemos algumas coisas importantes para eles, e lemos tudo que podemos, fazemos cursos, workshops, tentando aumentar nosso conhecimento sobre como atuar em questões que nos são trazidos por pessoas desconhecidas (considerando que não trabalhamos com parentes, nem amigos de longa data… ). Com o passar dos anos, vamos reconhecendo que o saber (de livros, cursos, treinos) não é suficiente para um bom atendimento, e vamos aproveitando mais a experiência que acumulamos, na vida em que fomos aprendendo muito com todos, inclusive com clientes.
Eu tive um terapeuta que dizia: “se você quer ser uma boa terapeuta, leia tudo, não só livros de psicologia, leia livros de culturas diferentes, sobre situações e personagens que você nem imagina. Na maioria dos livros escritos por leigos sempre vai haver pessoas com comportamentos variados, situações conflituosas que vivem, relações familiares complexas, e você vai entendendo como sabemos pouco das possibilidades da vida e, portanto, não podemos ter certeza do que deve ou não acontecer para nossos clientes, nem como vão responder às situações que vivem”.
Eu leio muito e sempre me coloco a pergunta – como seria trabalhar em terapia com uma pessoa agindo assim como age este personagem? Na minha prática profissional de muitos anos, em especial com pessoas de culturas diversificadas das minhas (sou brasileira e vivo no Canadá), que relatavam experiências e dificuldades originadas após situações extremamente difíceis, traumáticas, me acostumei a dizer aos clientes que não sabia se podia ajudá-los diretamente, mas estaria aberta e interessada em apoiar e discutirmos juntos como expandir a “joie de vivre.”
Agora, bem mais velha, não mais ofereço serviços profissionais, mas continuo a dizer que sei pouco. Minha “bolha” profissional se abriu e incluo, no meu dia a dia, formas de ajudar outros, de dar apoio, só que me despojei da identidade de psicóloga. Mas sou curiosa. Se no passado me encontrei e me relacionei com N pessoas como psicoterapeuta, hoje continuo envolvida em um programa online de Psicologia Budista; vejo que encontros entre pessoas podem ser terapêuticos, especialmente se estamos atentos a elas. (Leiam o livro do Yalom- “Uma hora de conexão” (**)).
Esses foram os caminhos que percorri, as verdades que aprendi. Se puder contribuir com colegas que hesitam em parar de atender como terapeutas, aquela preocupação que expressei no começo deste artigo, eu diria o seguinte. Se possível, digam a familiares e amigos que vocês gostariam de saber como eles os percebem (espero que eles sejam sinceros e, se for o caso, expliquem que “está na hora de parar” – e espero que vocês os escutem). Não fiquem preocupados que de repente tudo vai acabar, acreditem que existe um novo caminho para vocês usarem o que sabem e gostam de fazer, que vão descobrir um outro jeito, sem se identificar como profissionais, mas simplesmente sendo uma pessoa, engajando-se livremente onde lhes parecer melhor, com olhos e coração abertos, e atenção plena.
(*) Dra. Yayá de Andrade é graduada em Psicologia no Brasil, e continuou seus estudos no Canadá e Estados Unidos. Atualmente aposentada, é voluntária na Cruz Vermelha Canadense, no setor de Segurança e Bem-estar.
(**) Yalom, Irvin D. e Benjamin Yalom. Uma Hora de Conexão – Sessões sobre memória e vulnerabilidade.Trad. de Roberta Clapp. Harper Collins Brasil, 2026.





