Maria Celia de Abreu

Conceito

Há palavras que, quando as encontramos, nos impactam, independente do conteúdo que simbolizam. “Ageismo” é uma delas. Um pouco por não ser muito popular; talvez também por ser um anglicismo, o que lhe confere conotações de pompa e modernidade; quem sabe porque é mais fácil de ser empregado do que seus correspondentes em português: “idadismo” soa estranho, bem como “etaismo” ou  “etarismo”; ou mesmo pela facilidade de compará-lo aos seus “irmãos” mais populares, racismo e sexismo.

Significa, resumindo, discriminação baseada em idade. Aparece em situações em que a idade é o fator decisivo para a tomada de decisões e manifestação de comportamentos. Partindo da percepção que se tem da idade de uma pessoa ou de um grupo, são feitas inferências sobre suas competências e habilidades sociais, emocionais e cognitivas, as quais determinam os comportamentos relacionados com essa pessoa ou grupo.  Pode se voltar contra qualquer grupo etário, mas é empregado com muito maior frequência referindo-se ao velho. Na nossa cultura ocidental, as três formas de preconceito mais fortes, nessa ordem, são racismo, sexismo e ageismo.

Origem do termo

Partindo de “age”, idade em inglês,  “ageismo” foi criado, em 1969,  por um médico norte-americano, geriatra e psiquiatra, chamado Robert Neil Butler (1927-2010). Publicou vários livros e fez pesquisas sobre envelhecimento saudável e sobre demências, em especial Alzheimer;  aliás, em 2009, aos 82 anos, participou de um documentário sobre efeitos positivos da arte para quem é portador desse distúrbio. Em 1982, criou o primeiro departamento geriátrico, a nível nacional, na escola de medicina Mount Sinai, em Nova York. Foi o primeiro diretor do Instituto Nacional do Envelhecimento (National Institute of Aging), ligado ao departamento de saúde norte-americano, que trabalha com necessidades sociais e direitos do idoso.

Estereótipos e preconceitos

O ageismo existe em relação a grupos etários ou a pessoas individualmente. Atribui-se aos velhos alguns estereótipos, partindo da falsa generalização de que há pensamentos, valores e características que são comuns a todos; é ignorada a existência de diferenças individuais, desconsiderando dados de pesquisas que apontam para a heterogeneidade dos grupos etários mais velhos.

Os estereótipos via de regra diminuem e desvalorizam o velho, embora também possam enaltece-lo, não importa; o fato é que são crenças falsas. Expressam falta de respeito e demonstram ignorância dos direitos do idoso. São encontrados nas instituições e empresas, na sociedade em geral, dentro da família e até mesmo o próprio velho, inserido nessa cultura, assume estereótipos e preconceitos contra velhos – e de quebra arruína a autoestima. Até crianças de 3 ou 4 anos podem associar velhice com tristeza, solidão, feiura e doença. Uma das consequências da presença desses preconceitos é que facilitam, pois de certa forma justificam, o abuso e a violência. Assumem que na sociedade não há lugar para o velho, ele é um estorvo, e o melhor é que se faça invisível. Portanto, o ageismo nega o curso natural da vida humana, desvaloriza o ser humano velho. Como qualquer preconceito, há prejuízos para a qualidade de vida do indivíduo ou grupo discriminado, e perdas para a sociedade.

É interessante pensar que qualquer pessoa pode ser vítima do ageismo, desde que viva anos suficientes para alcançar a velhice; com os outros dois preconceitos que ocupam os dois primeiros lugares em frequência, racismo e sexismo, não é assim.

O preconceito pode ser expresso claramente, ou pode aparecer velado, disfarçado de boas intenções; pode estar oculto no inconsciente de quem não tem intenção de prejudicar velhos e do velho que é discriminado sem se dar conta.

Uma maneira comum de preconceito velado é o tratamento que infantiliza o velho. Quando se trata o velho por “fofinho”, “vovozinho”, “bonitinho”, “velhinho”, ou quando se diz: “Isso é complicado, deixa que faço pra você, não quero que se preocupe com nada” –  está por trás a crença de que o velho é frágil, debilitado, idiotizado, incapaz de agir e decidir.

Outros exemplos de preconceitos que passam despercebidos, não estão conscientizados, portanto são aceitos e suas consequências acontecem?

Quem me diz “Você é corajosa, você assume sua idade” está me dizendo que a idade avançada é algo muito ruim, até aterrorizante; ou “Você está tão bem, ninguém diria que tem a idade que tem” acredita que quem tem a idade que tenho deveria estar  totalmente decrépita, acabada, murcha; “Fulana já tem tantos anos, mas ainda tem um corpão” significa que um corpo bonito ou sensual só pode ser exibido na juventude; “Não deixe o cabelo branco aparecer, mantenha-o tingido” indica que se deve fazer esforço para enganar os outros – quem sabe até a si mesmo –  sobre a própria idade, por extensão sobre a própria identidade. O velho é levado a sentir vergonha de limitações próprias da idade.

São manifestações comuns de preconceito: as piadas e ironias que diminuem o velho; a rejeição à companhia do velho; ofensas e humilhações verbais, por exemplo chamar a pessoa de “velho”; não considerar a vontade do velho, ignorando-o ou não o levando a sério; evitar tocar no velho; sugerir que há atividades das quais o velho não deve participar; sugerir que o velho deve se conformar com limitações físicas e doenças, ao invés de ir em busca de compensações e cura; relacionar doença com velhice. Para escolher quem vai preencher uma vaga de emprego, a idade costuma ser fator decisivo de eliminação em favor de pessoa mais jovem, desconsiderando as competências que cada um possa ter para o cargo; a velhice é tratada como uma desqualificação. E assim por diante.

Há características que são comumente associadas ao velho, expressando estereótipos que não  correspondem à realidade dos fatos, e que a nível consciente não têm intenção de prejudicar: inflexibilidade, religiosidade exagerada, improdutividade, doenças, depressão, senilidade, fragilidade,  assexualidade, falta de energia, incapacidade de aprender são alguns exemplos. 

Origens e causas

Há explicações que resgatam as origens e causas da discriminação ao velho.  Conhece-las ajuda a encontrar caminhos para combater esse preconceito.   Vejamos alguns fatores presentes no século XX.

Considerando o indivíduo, aparece o afastamento e a desqualificação da velhice como uma proteção a pensamentos sobre a finitude da vida. Trazer a ideia de morte ao consciente, conviver com ela, preparar-se para ela são movimentos emocionalmente insuportáveis para algumas pessoas. Do medo de pensar sobre a morte, junto com a pressão social do olhar do outro sobre o velho, com as mídias endeusando insistentemente corpos com características jovens, vem a necessidade de recorrer a recursos que disfarcem os traços da passagem do tempo  no rosto e no corpo, uma preocupação que não se refere a saúde, mas a aparência; daí também o se identificar apenas com grupos etários mais novos, aos quais a pessoa não pertence mais.

Considerando a sociedade, podemos lembrar que a migração da cultura agrária para a urbanização foi um movimento que desvalorizou o papel social do velho. Ele perde a função de transmissor da cultura, detentor da sabedoria, e é obrigado a conviver com invenções técnicas para as quais não foi preparado e que ninguém espera que domine com maestria. A urbanização, a emancipação feminina e a redução do número de filhos enfraquecem a estrutura de família como antes era concebida; a mulher e o jovem saem de casa todo dia para estudar e trabalhar, tarefa que antes era só do homem, e o velho, excluído do mercado de trabalho e de caminhos para novas aprendizagens, fica só, se sentindo um peso, se tiver algum tipo de dependência, ou assumindo tarefas familiares que ninguém mais quer ou pode assumir, mas que a ele também não agradam nem um pouco.

Desconhecimento

Tanto a nível do indivíduo como da sociedade, há um fator que se faz presente: a ignorância sobre a velhice. É possível entende-la.

A expectativa de vida longa é fenômeno recente e sua velocidade é acelerada; por exemplo, segundo dados do IBGE, a expectativa de vida no Brasil em 1940 era de 45,5 anos, em 1991 chegava nos 70 anos, em 2016 batia nos 75,8 anos.

A ciência, por exemplo a Psicologia, só começou a pesquisar com ênfase o envelhecimento a partir de meados do século passado, o que é muito pouco tempo para comprovações cientificas, porque antes disso a presença do velho na sociedade não era numericamente significativa, a ponto de justificar um investimento.

A rápida progressão da longevidade e da diminuição dos nascimentos  estão tornando a sociedade do século XXI bastante diferente de como ela se estruturava no século XX. Numa sociedade em que velhos não formam um contingente significativamente numeroso, e onde o conhecimento científico sobre envelhecimento é escasso, a ignorância preenche os vazios, e crenças falsas estimulam ageismo. Superar esses desajustes é um desafio para o qual se faz necessário encontrar respostas com urgência.

Para garantir ao velho os direitos que lhe são devidos, as ciências precisam desenvolver muitas pesquisas. Assim, ações de políticas públicas serão mais efetivas. Os meios de comunicação precisam deixar de propagar representações negativas de velhos. Campanhas publicitárias precisam ser lançadas. Empresas precisam reavaliar suas políticas de aceitar trabalhadores idosos, oferecendo condições adaptadas às suas características, levando a sério recomendações que já aparecem na Política Nacional do Idoso (1994) e no Estatuto do Idoso (2003). Profissionais, em especial da área da saúde, precisam ser instruídos para lidar adequadamente com clientes velhos.

Sugestões para superação

Vamos parar de nos categorizar usando como critério a idade cronológica.  Vamos reconhecer a importância, dentro de uma cultura, da sabedoria, da experiência, da vivência, estabelecer um tratamento respeitoso e reverente ao velho, que lhe confira dignidade. Admitamos que num ambiente de trabalho o velho é capaz de se engajar inteiramente,  é mais confiável e encara o estresse melhor que o jovem.  

É preciso educar-se para ser velho. Sensibilizar as famílias para estarem preparadas para conviver com parentes velhos, tomar medidas para que a sociedade possa acolher esta nova população envelhecida, alertar o idoso para que se conscientize e combata seus próprios preconceitos, capacitar profissionais para que compreendam e façam uma abordagem científica do envelhecimento.

Crianças e jovens necessitam entender que os velhos são eles mesmos no futuro. Numa  convivência entre pessoas de todas as idades, com laços que vão além dos contatos de trabalho, estabelecendo relações de afeto e respeito,  não cabe a existência de preconceitos; daí, portanto, a importância da convivência intergeracional. Sem piadas ofensivas, sem demagogias, com respeito a individualidade.

Não se tem vitórias, numa tarefa tão difícil, estando sozinho. Grupos que atendem a necessidades específicas de idosos faz com que se juntem forças. Participar de um grupo fortalece a vontade de viver, gera o sentimento de pertencer, dá significado à existência, descortina a possibilidade de ser respeitado e de ser livre. Faculdades da Terceira Idade, Conselhos de Idosos, trabalhos voluntários desenvolvidos em equipe são exemplos das muitas possibilidades que cada um pode descobrir, e aderir àquela com a qual melhor se identifica.

Chega de associar velhice com decadência, doença ou defeito. Chega de discriminar com base na idade avançada.

O envelhecimento é um processo natural da trajetória humana, e a velhice é apenas uma das etapas do ciclo da vida. Uma nova paisagem que se apresenta.                                 *****