Dra. Yayá de Andrade (*)
Sempre gostei de andar de trem e de perambular por caminhos. Tenho algumas lembranças inesquecíveis.
Como quando ia de Catanduva para São Paulo, com colegas de faculdade, todos no mesmo vagão, e era uma farra. Depois o trem foi extinto e a viagem passou para a Viação Cometa, num ônibus confortável, mas longe de ser capaz de prover experiência coletiva. Em trem, você anda, vai até o vagão restaurante, estuda, completa tarefas… e sempre com possibilidade de encontros, onde amigos e pessoas estranhas contam uns aos outros aonde irão, de onde vieram e com quem andam nos “caminhos da vida”.
Outras viagens de trem com amigos ficaram na minha memória. Por exemplo, o “trem da morte”, no qual saímos do Brasil e chegamos na Bolívia, de onde fomos para o Peru, visitando Machu Pichu e Cinceros, agora percorrendo trilhas conhecidas. Ou uma viagem de trem pela Itália e França revendo aqueles campos que foram inspiração para muitos artistas.
Meu trabalho como psicóloga me propiciou muitos deslocamentos pelo mundo e oportunidades de andar de trem em lugares menos familiares para os brasileiros.
No Sri Lanka, onde trabalhei por uns meses depois do terrível tsunami de 2004, fui de trem de Kalmunai, no Norte, até Panadura Beach, perto da capital, Colombo. O trem saía às oito da noite e chegava às sete da manhã do dia seguinte… uma viagem de mais ou menos dez horas. (Escrevendo agora sobre isso, me pus a pensar nas minhas atuais idas ao Brasil, via Toronto, de avião).
Quando cheguei na estação ainda estava dia claro. O trem estava parado, com todas as luzes apagadas e sem ninguém. Daí chegou um homem e começou a puxar conversa. Eu movimentava a cabeça, negando interesse ou compreensão do que ele estava falando. Ele disse: “Ruski?” e pensei que ele achou que eu era russa; respondi em perfeito português: “Não quero conversar com você!” Ele me olhou perdido, sem saber o que falar, e foi embora. Fui salva pelo meu português… Depois se aproximou um jovem com sua mochila; em inglês, se dirigiu a mim, e disse que viajava sempre de trem e que eu não devia ficar preocupada. Com ele, conversei. Contei que tinha uma passagem de primeira classe, que era uma cabina; ele riu e disse que isso não existia, mas que ele conseguiria um bom banco para nós.
E assim foi. Logo começou a aparecer muita gente na estação, o trem se iluminou e embarcamos. Me dei conta de que todos os assentos eram bancos. Logo nos acomodamos, mas, conforme as pessoas chegavam, elas iam sentando e nos apertando. O trem saiu atrasado. Fazia uma parada a cada duas horas mais ou menos, e então muita gente entrava; alguns, com cartazes mostrando fotos de crianças e familiares que tinham morrido no tsunami, pediam esmolas; outros tocavam flauta, cantavam, e sempre pediam esmolas; e eu fui dando o que tinha… até que finalmente cheguei em Panadura. Lá há uma praia linda, com areia fina e, junto com colegas de trabalho, fizemos longas caminhadas. A visita foi relaxante, com boa comida, bons papos sobre nosso trabalho, a tristeza que testemunhamos, até o dia da volta para casa.
Em Vancouver, houve um tempo em que tive um namorado que havia trabalhado como engenheiro de ferrovias e podia viajar pelo país inteiro com ótimo desconto; e eu, como acompanhante, também pagava menos. Uma vez planejamos uma viagem de trem que seria como uma lua de mel. Íamos tomar o Transiberian de Moscou a Vladivostock, daí o Transmongolian ou Transmanchurian, e pensamos em levar livros da Agatha Christie e Poirot. Seria incrível, mas o plano não foi realizado, pelo que eu sinto muito, e o namoro terminou.
Minha última viagem de trem foi no ano passado, pela Amtrak e VIA Rail Canada. O trem sai de Toronto, passa por Niagara, e chega em New York, na Penn Station. São mais ou menos treze horas em poltronas confortáveis e com um bom vagão restaurante. Pude ver lindas regiões, lagos, o rio Hudson, áreas industriais e cenas urbanas.
Minha outra forma preferida de viajar é fazendo caminhadas. Aqui no Canadá temos ótimas trilhas, por exemplo a Pacific Trail, na qual andei uma parte; ela sai do Manning Park e vai até o México. Imaginem andar tudo isso! Conheci as trilhas do Haida Gwai, das montanhas perto de Whistler e fiz caminhadas pelos parques. Sempre me impressiona constatar como essas trilhas são bem cuidadas e limpas.
Uma linda caminhada no Brasil, que fiz com amigos queridos, foi pela Serra da Bocaina, conhecida como Trilha do Ouro. Não sei se o procedimento continua o mesmo, mas quando estive lá tudo era controlado, por exemplo, o número de pessoas que tinham autorização para estar na trilha; lembro que tivemos que assinar vários papéis na portaria do parque. A caminhada começa em São José do Barreiro e liga o Vale do Paraíba, chegando até quase no Rio de Janeiro. Esse caminho foi aberto pelos indígenas, antes da chegada dos portugueses ao Brasil. Um dia cruzamos com um pequeno grupo de cariocas indo na direção contraria à nossa, e eles se surpreenderam ao me ver, uma senhora velha e gorda fazendo esse trekking.
No fim do dia, a gente parava em pequenos sítios, tipo um airb&b; lembro da dona Palmira, que nos fez um delicioso jantar em fogão de barro e no café da manhã ofereceu pão feito em casa e geleia de tomate, iguaria que eu nunca tinha experimentado. As vistas são inesquecíveis, com cachoeiras e aventuras, como atravessar o rio por um tronco, controlando o medo de cair lá embaixo. No final da caminhada todos entramos no rio, suando e agradecidos por essa jornada, prontos para uma boa refeição em um bom restaurante.
Sempre lembro que viajar e Budismo estão conectados porque Buddha era um professor itinerante, e se viajamos “mindfully” quebramos hábitos, desenvolvemos compaixão, e cultivamos consciência de momentos que passam. Toda jornada pode ser considerada uma “meditação móvel”, quando podemos refletir e descobrir muita coisa…
(*) Dra. Yaya de Andrade é Graduada em Psicologia no Brasil, continuou os estudos no Canadá e nos Estados Unidos. Atualmente, aposentada, é voluntária na Cruz Vermelha Canadense, no setor de Segurança e Bem-estar.






Parabéns Dona Yayá. Suas trilhas me encantam e me estimulam.
E olha que você tem muitas trilhas e aventuras em sua trajetória. Vocês têm muito em comum. Abraços
otimo saber que esses escritos estimulam a lembrar de nossas experiencias…
Que gostoso ler seus relatos. Ir e vir pelo mundo… uma sensação de que ele é menor e está mais ao nosso alcance do que acreditamos…
Que você possa manter se andarilha!
Quem sabe está mesmo, não acha? Abraços e valeu seu retorno.
Como idosa acho o mundo grande, mas meus passos gracas a Deus continuam me levando para admirar um pouco dele. Ao nosso alcance como voce diz.
E isso é que é bonito na sua história, admirar a vida, a paisagem, as pequenas coisas do cotidiano e se abrir para outras viagens. Abraços
Viajei na imaginação por lugares onde nunca fui! Delicioso ler as experiências de passeios e encontros! Um prazer essa fala! Parabéns pelas incontáveis vivências.
Muito bom entrar nas memórias afetivas e de viagens não é? Abraços
Viajar é preciso … saborosos relatos..:
Sempre Jader. E relatos como esses nos lembram dessa grande verdade. Abraços
Viajar de trem no Brasil, lembro-me de ir de Vera Cruz, onde nasci até São Paulo. Deliciosa lembrança do fundo da memória. Os usuários da orgulhavam-se da Paulists pois podia-se deixar um copo de água na janela e nem respingava…
Olha só que gostoso lembrar, não é Ézio? Bons tempos. Abraços
Estou querendo fazer uma (nova) viagem de trem no Brasil que voltou a ciricular… A Vale, entre Minas e Espirito Santo. Acho que deveríamos fazer um tour de idoses….
Adoramos a ideia, vamos organizar?
Quantas viagens gostosas de trem; também gosto bastante. O seu relato avivou minhas lembranças e (re)viajei trilhos que percorri, sentindo o balançar do vagão…
Que bom que você pode curtir bons momentos em viagens de trem. Yayá ajudou a resgatar. Abraços
Que viagens interessantes Iaia!
Me levou, na imaginação, a cantos nunca visitados mentalmente
Obrigado
Olha só como a memória está a nosso alcance, às vezes nem percebemos. Abraços Marli
Muito lindo seu texto.
Amo viajar de trem
Obrigado pelo retorno Suely, viajar de trem é mesmo uma delícia, pena que temos poucas oportunidades por aqui. Abraços
Ótima dissertação da Dra. Yaya. Vibrei, quando criança, isso anos 40, andei muito de trem! Morava na Lapa e ia de trem com meus pais até o Ipiranga. Meus avós moravam na Vila Prudente. Aí pegavamos o bonde. Boas lembranças!
Que bom Lucy, que as lembranças da Dra. Yayá trouxeram boas memórias para você. Abraços
Dra. Yaya me fez lembrar da antiga Mogiana , ligava Pinhal – minha cidade Natal a São Paulo, capital . Devia ter uns 6 anos quando fiz minha primeira viagem. Inesquecível, o som dos apitos, da rodagem e das paradas nas estações . Pena que essa ferrovia foi abandonada. Gostoso viajar em suas viagens .
Compartilhar viagens dessa forma é realmente muito especial, não é? Abraços Cleide
Tenho um sonho de viajar naquele trem panoramico que atravessa as Montanhas Rochosas Canadenses!Você fez essa viagem? Qual sua sugestão?
Sim, vai mesmo. se quiser pode tomar o trem em Vancouver, ir a Banff – Rocky Mountaineer, uma rota linda que nos lembra aulas de geografia com os picos sempre brancos das rochosas. Jasper tem um parque tombado (UNESCO) com cenario incrivel e as vistas e servico no trem sao inesqueciveis. Boa viagem.
Oi amigos do IIDEAC. Agora podemos fazer viagem de trem de Miinas Gerais ao Espirito Santo e parece que esta viagem proporciona otima oporotuniade para aproveitar a Trem de Passageiros Vale.
Que ótima dica, deve ser um programa bem especial mesmo, abraços