Por Suely Tonarque (*)
Muitas comemorações no mês de março para nós mulheres, de todas as idades, por meio de vários veículos sociais: mídias digitais, empresas, revistas, homenagens públicas, rádio etc. Essas comemorações, em suas várias formas de expressão, passavam para nós mensagens de acolhimento, esperança, amorosidade e cuidado.
Os eventos estão registrados na minha memória, até porque se trata de conquistas. Quando eu paro para pensar nas minhas mais preciosas lembranças sempre vem à mente fotos envelhecidas: seu aspecto físico, cor, cheiro e textura marcam a dimensão do vivido. O amarelado do tempo e o cheiro que nos acostumamos a chamar de “cheiro de papel velho” revelam a forma de relação com essas partes do que já foi.
Os retratos branco e preto das fotos mais antigas trazem nessa composição a marca de uma época: não é só uma cor, é uma série de vivências passadas, coletivas e individuais, que constituíram quem eu sou e hoje existem quando lembro e sinto os afetos correspondentes de uma determinada experiência.
O tempo deixa marcas, é assim que vemos sua passagem: nas fotos, as cores preto e branco e o tom amarelado daquela fotografia guardada há muito; no corpo, a pele que muda conforme envelhecemos, o cabelo ao embranquecer.
Quando penso no passado sinto, com frequência, nostalgia, um desejo de retorno; uma vontade de compreender a sutileza e, ao mesmo tempo a inevitabilidade do tempo. Sinto saudades da minha mocidade, procuro retratos que possam trazer à tona memórias enterradas para despertar em mim lembranças, momentos e sentimentos que eu não recordo mais. Procuro nos retratos da minha juventude coisas que vivi, as quais poderia relembrar ao ver uma foto.
Hoje em dia que sou velha, ver as fotos é um ato de cuidado da memória: lembrar o ano, local, nome das pessoas, idade, grau de parentesco, quem já morreu e quem ainda vive. Esses componentes da lembrança devolvem para mim a riqueza e complexidade dos momentos vividos num determinado dia, relações com toda a sua grandeza e profundidade e tantas coisas mais. É curioso pensar que, na velhice, presenteio amigos e amigas queridas com as fotos do passado, para juntos revivermos uma experiência.
Ao (re) compartilhar uma memória a partir de um retrato com uma pessoa querida, vivemos hoje a mistura do que já foi com o que é, abrindo possibilidades novas de estar no mundo e, assim, transcendendo o que está dado.
Dedico essa postagem aos retratos brancos e pretos guardados que nos alimentam – diga-se de passagem, esses retratos carregam um universo em cada um deles.
(*) Suely Tonarque é psicóloga, gerontóloga e especialista em moda no envelhecer






Texto lindo e muito sensível, que sem dúvida, nos remete às nossas histórias registradas em preto e branco
Belo texto Suely, e me identifiquei muito com a sua fala!