Suely Tonarque (*)

Confúcio (552 a.C.-489 a.C.) enquanto curava e ensinava os homens que dele se aproximavam, dizia “existem pessoas que são companheiras, nos acompanham em nosso caminho, outras que ajudam nas nossas tarefas. E há aquelas que simplesmente, sem pedir licença, de amor e beleza tocam nosso coração”.

É assim que vejo minha irmã Duda (que na família também chamamos de Siúza), que desde pequena tem a mania de criar coisas e oferecer aos amigos, como joias únicas para aqueles que também são únicos. Exemplos vários: luminárias, porta-joias, cadeiras de balanço, vestidos, calças, blusas, brincos, fios de aço com pedras preciosas, anéis, entre outros. Enfim, ela simboliza a própria criação.

Por isso penso que ela merece um novo nome: Criatura, Criare, Gênia, Gaudina – eu me divirto com as opções – e outros, que com afeto posso brincar de inventar e ela aceita. Às vezes, observo com ternura a criação de um colar, a paciência de aplicar as miçangas, águas-marinhas, jades, safiras, pérolas (uma a uma com calmaria, delicadeza de tamanho grande). E também a fabricação de pulseiras de madeira, de pedras preciosas, colares, em sua sensibilidade aguçada pelos objetos, que parecem encantamentos da Divina (inventei este nome para a Siúza agora). Cada peça torna-se única, os produtos respondem à essência de cada um, identificados pelo designer, pela textura, entre outras significações.

“Os Fios das Miçangas”, contos do escritor moçambicano Mia Couto, são como os fios dos tecidos, os fios de aço das luminárias que tecem o seu cotidiano. Hoje ele lida com dois tipos de tempo: tempo Cronos e tempo Kairós. Enquanto o tempo Cronos é o que chamamos de cronológico, que conta nossa idade, que sustenta o nosso dia a dia, o tempo Kairós é interno, e, portanto, não é um tempo medido, é o tempo da solidão, o tempo do ontem.

 Duda, minha irmã, faz deste tempo Kairós, a arte de enfiar as miçangas no fio. Um tempo do belo enfeitar o nosso tempo Cronos. A escolha dos fios nos permite cuidar do nosso tempo Kairós. É uma arte de se aproximar do cuidar de nós, de ter um olhar que passa e nos declara seres finitos. Ao tempo da confecção dos fios e as miçangas, Duda também se aproxima do seu tempo Kairós, acompanhando sua solidão, os fios do tecido. Os fios das luminárias tecem o cotidiano de minha irmã.

Na moda, o tempo Cronos e Kairós se entrelaçam, na medida em que a moda é atemporal, as influências estão presentes, independentemente da época, cada costureiro com sua visão e leitura destas inspirações.

Pesquisando as influências na história da moda brasileira, vamos encontrar a grande intervenção dos trajes europeus; é importante ressaltar que ela permanece até hoje. Também podemos incluir a influência japonesa, com suas indumentárias.

Vamos fazer agora uma pequena apresentação de costureiros japoneses:

Hanae Mori: nascida em 1926, primeira grife japonesa. Quebrou preconceitos para conquistar o seu espaço, como mulher asiática, artista e empresária. Suas criações se caracterizam pelo uso das mais finas sedas e dos mais ricos brocados produzidos no Japão, para quimonos de luxo. Apesar da idade avançada, Hanae Mori continua cuidando de seus negócios.

Kenzo Takada: nasceu em 1940, e foi o primeiro estilista japonês a conquistar grande sucesso comercial na Europa. Em 1964 muda para Paris, e realiza seu primeiro desfile independente, agradando principalmente os jovens. Em 1980 suas lojas passam a chamar Kenzo. Em 1988 lança seu primeiro perfume. Em1993 vende sua Maison para o grupo LVMH (Louis Vuitton), sendo assim passa a ter a direção artística do estilista italiano Antonio Marras em2003.

Yohy Yamamoto: nasceu em 1943, cursou direito pela Universidade de Keio, pela escola técnica superior Bunkafukuso Gakuin. Em 1969 vai para Paris para fazer um estágio em moda como prêmio por vencer um concurso. De volta ao Japão, abriu sua empresa de confecção, a Y S co. Ltd. Em1981, iniciou carreira internacional apresentando sua primeira coleção em alta-costura em Pari., chocando a imprensa com roupas desestruturadas em tecido de aspecto simples, moda atemporal, vestidos similares aos monges zen budistas.

Nos anos 80, Yamamoto e outra estilista japonesa de sucesso, Rei Kawakulo, causaram furor em Paris, apresentaram peças tamanho único com visual urbano minimalista em vários tons de preto sobre preto. Em 1996 lançou seu primeiro perfume.

Rei Kawakulo: nascida em1942, é  mais conhecida como fundadora da grife internacional Comme des Garçon, criada no Japão em 1969. Em 1980 Kawakulo abre sua primeira loja em Paris (filial). No ano seguinte choca o público com suas roupas anticonvencionais, desestruturadas a ponto de estarem rasgadas ou faltando uma parte. No início as roupas eram vistas como ridículas e feias; chamaram atenção dos críticos aos poucos, que apelidaram o estilo Comme des Garçons de “Hiroschima Chic”.

Em 1983 Kawakulo levou a Comme des Garçons para Nova York e teve muito sucesso. Em 1990 sua grife já possuía 300 lojas espalhadas pelo mundo. Em 1993 recebe o título de Dama da Ordem das Artes e das Letras do governo francês. Atualmente atua com moda feminina e masculina

Este pequeno relato dos estilistas japoneses é uma forma de conhecer e aproximar do mundo oriental e perceber as contribuições de um país (Japão) tão diferenciado da nossa cultura ocidental e tão rico nas suas contribuições de Pura Beleza.

Minha irmã Duda, nas suas criações têm inspiração dos estilistas japoneses. Podemos dizer que ela sintetiza em sua arte, o que Confúcio dizia aos seus discípulos: há pessoas que sem pedir licença, de amor e beleza tocam nosso coração.

(* Suely Tonarque é gerontóloga e especialista em moda para o envelhecer)