Por Yayá de Andrade (*)
No final de setembro, estive em um retiro de 4 dias em Bilbao, Espanha, em um lindo lugar, com um grupo de pessoas que praticam psicologia budista. O grupo incluiu pessoas de vários países, e David Brazier era o monge que nos guiou em atividades como meditação e discussões sobre o tema “Um mundo em crise.”

Foram apresentados vários trabalhos, importantes, e eu tive a oportunidade de apresentar o topico “Tapeçaria, Mindfulness, e Budismo”. Talvez tenha sido estranho, dado o sofrimento no mundo, pensar em atividades artesanais. Eu havia lido sobre a importância disso e descobri que até a IA (Inteligência Artificial) “sugere” que tapeçaria e mindfulness (atenção plena, consciência plena, prática de direcionar a mente intencionalmente para o momento presente, sem julgamentos) geralmente traz benefícios. Momentos quando intencionalmente e atentamente costuramos ponto a ponto acalmam o sistema nervoso, conforme estudos de neuroplasticidade. Monges, quietos em meditação, são cientistas contemplativos, e não precisam de remédios para se acalmar…
Na maior parte dos casos, tapeçarias são feitas para decorar uma casa, e colocadas no chão ou na parede. Atividades similares são bem conhecidas no Brasil, como bordados, tricô, crochê, e na execução desses belos trabalhos, talvez mindfulness esteja presente, com as artesãs atentas ao que estão fazendo, aceitando o que fazem, prestando atenção no momento, como na respiração, e na vida. Mindfulness (Sati em Budismo) implica em ter a consciência do que estamos fazendo em um momento, sentindo, pensando, naquele momento e naquela ação.
Tapeçaria é uma metáfora poderosa para mindfulness pois implica em conectar momentos juntos, criar algo em uma realidade que se transforma conforme continuamos os pontos na tela, enchendo-a com cores e desenhos. Somos criadores ativos e tal atividade nos ajuda a acalmar, olhar cuidadosamente para o que estamos sentindo, pensando, passando o tempo em um espaço quieto, atentos no ponto por ponto. Quando crio uma tapeçaria não penso em perfeição, me torno uma observadora, olho os pontos no momento presente. Geralmente começo com um simples esboço na tela, ou olhando uma foto que alguém me mandou. Por exemplo: uma amiga me pediu uma tapeçaria que fosse como esta foto, e pediu para incluir alguns patos, e a tapeçaria ficou assim:
Eu gosto muito de criações artísticas como mandalas. Olhando um grupo de monges observei o foco, a determinação, persistência e calma que eles emanavam enquanto trabalhavam. As areias coloridas eram misturadas, e colocadas cuidadosamente, como em tapeçaria, com mãos e linhas sendo revelados no aqui e agora, formando um padrão único. Quando terminaram, um monge passou a mão e puff… tudo acabou. Isso me fez pensar sobre a impermanência, a fragilidade da vida, feita de simples momentos, que geram atividades, pensamentos e emoções e, de repente, ela acaba.
Além da Espanha, visitar Ravenna e Veneza, andar pelas igrejas, ver o chão salpicado de pequenas pedras que formam desenhos, deixa memorias maravilhosas. Se caminhamos olhando com mindfulness, vemos de repente uma pedrinha de cor diferente, e me pergunto, será que esse foi um erro, ou o criador resolveu ver se alguém ia notar que seu trabalho não era para ser perfeito. A pessoa decidiu não consertar, deixou como ficou, seu coração e mente aceitaram a realidade daquele momento (só espero que não tenha perdido o emprego pelo erro…).
A vida, seguindo uma prática budista, implica em seguir o esforço “certo,” prestar atenção, ouvir históias, aceitar o que acontece, ajudar outros. O que fazemos vai além do que aprendemos, e talvez temos que ter fé, ficar aberto para observar, dar atenção ao que acontece. Essa postura ajuda a mente a parar de ficar errante, pensando no passado ou no futuro, e quem sabe pode melhorar o sofrimento de outros, os nossos, e as crises no mundo.
Einstein escreveu que a vida é como uma grande tapeçaria. Uma pessoa é um ponto insignificante em um padrão enorme e milagroso. Eu li que a tapeçaria da vida significa que estamos todos conectados. Cada um de nós se torna presente aos que nos rodeiam, nos ajudando a ser quem somos, juntos, sendo parte de uma composição perfeita.
A vida para mim é um presente; aceitar imperfeições humanas, e ajudar outros a resolverem uma crise, faz diferença não só para uma pessoa, mas para uma comunidade e até para o mundo, especialmente se acreditamos no princípio de efeito, como na Cruz Vermelha, onde acreditamos que um sorriso, uma risada, já ajudam.
Considero um privilégio fazer algo, estar ativa, ser uma testemunha do que está acontecendo. Tenho fé que ajudando outros, ouvindo suas histórias e desafios, melhoramos o processo de cuidados (não cura). Ter compaixão e aceitar o que acontece ao nosso redor sem rancor e julgamento, e refletir sobre como podemos beneficiar outros, pode diminuir o sofrimento do mundo.
Buda não falou nem escreveu sobre tapeçaria, mindfulness ou plasticidade do cérebro, mas estava atento a ações diárias, seus encontros, explorações em diálogos e sofrimento. Talvez a sua mente tenha refletido sobre o que ele via, e trocou ideias sobre a natureza do nascimento, vida, sofrimento e morte com seus discípulos. Ele era como nós, e o que tinha na mente fazia parte da sua realidade interna, e ao mesmo tempo ele via e aceitava sua realidade externa, limitada, impermanente. Ele foi vivendo, passo a passo, ponto a ponto como uma tapeçaria.
Leonardo Cohen, um músico (budista) do Canadá, escreveu em sua música (Anthem): “toque o sino sempre… mesmo que rachado… porque a luz entra pelo racho.” A vida continua a existir, não vai ser perfeita, e as crises vão continuar, mas existem possibilidades.
Encerro com um poema de Rumi (poeta e teólogo do século XIII), que me ajuda a entender nosso mundo em crise, e o que significa ser humano, em todos os momentos da vida… inclusive fazendo tapeçaria:
A Casa de Hóspedes
O ser humano é uma casa de hóspedes.
Todas as manhãs há uma nova chegada.
Uma alegria, uma depressão, uma mesquinharia,
uma percepção momentânea chega
como um visitante inesperado.
Receba e entretenha a todos!
Mesmo que seja uma multidão de tristezas,
que varre violentamente sua casa
e a esvazia de toda a mobília,
ainda assim trate seus hóspedes honradamente.
Eles podem estar limpando você
para a chegada de um novo deleite.
O pensamento escuro, a vergonha, a malícia,
receba-os sorrindo à porta,
e convide-os a entrar.
Seja grato a quem vier
porque todos foram enviados
como guias do além.
(*) Dra. Yayá de Andrade é Graduada em Psicologia no Brasil, continuou os estudos no Canadá e nos Estados Unidos. Atualmente, aposentada, é voluntária na Cruz Vermelha Canadense, no setor de Segurança e Bem-estar, é membro ativo da Comissão Sênior de Aconselhamento da prefeitura de Burlington, cidade onde escolheu morar.





