Quando os dois lados são coroa
Maria Eliza Henriques Silva (*)
Foi assim que me apresentei, enquanto a bela funcionária embalava artisticamente a minha compra: “Boa tarde, eu me chamo Maria Eliza, cliente desta loja há muitos anos, sou podóloga gerontogeriátrica e continuo estudando gerontologia. Faz mais de cinco anos que fui conquistada pelo tema do envelhecimento. Estou às portas dos setenta anos”.
Aí lanço minha pergunta: “A senhora se importa de me dizer a sua idade?”
A resposta vem acompanhada de um sorriso, e generosa nas informações: “Não me importo, imagine, estou com 80 anos. Trabalho aqui há 13 anos, quer dizer, comecei com 67. No começo trabalhava seis dias por semana, mas agora um pouco menos, apenas quatro dias”.
Eu já tinha notado que a funcionária do caixa tem os cabelos grisalhos como os meus, apenas mais longos, amarrados em um lindo rabo de cavalo alto, exibindo os fios grossos e lisos. Animada pela simpatia da funcionária que faz os pacotes, pergunto: “E você, quantos anos tem?” Ganho de novo uma resposta sorridente e generosa: “Tenho 68! Se você continuar perguntando, vai descobrir que, fora uma de nós que tem 58 anos, todas já passamos dos 60”.
Foi assim que descobri que nessa loja, uma franquia internacional, que oferece uma experiência inovadora de degustação e compra de vinagres, azeites, vinhos e licores, os dois lados da moeda podem ser coroa: de um lado, uma “coroa” comprando, de outro, uma “coroa” vendendo.
Viva!
Uma interrupção para oferecer aos leitores jovens um esclarecimento: “coroa” era um adjetivo muito usado na minha mocidade, entenda-se na segunda metade do século passado, para designar indivíduos já em trânsito para a velhice. Chamar alguém mais velho de coroa enxuto ou enxuta era um super elogio! “Enxuto”, é bom explicar, significa elegante, bonito, bem “conservado” para a idade (avançada).
Saí da loja com a certeza que os clientes ali são excepcionalmente bem atendidos, e feliz com minha constatação sobre a faixa etária das funcionárias. Sinto que precisamos celebrar a longevidade ativa do século XXI, no Brasil. Precisamos ter os olhos abertos, cada vez mais, para notar e festejar estas situações nas quais nós, idosos, somos protagonistas com distinção.
Muito se fala sobre o idadismo, como aquela placa disfarçadamente preconceituosa que indica vagas para 60+. Reconheço que há obstáculos tecnológicos que a vida contemporânea coloca diante de nós, 60, 70, 80+ que permanecemos em atividade. Eu não nego estes fatos.
Hoje mesmo enfrentei uma barra, porque precisava transformar fotos em arquivo pdf para enviá-las como comprovante de pagamentos pelos quais tenho direito a ressarcimento… o que será muito bem-vindo ao meu orçamento. Meu primeiro impulso foi pedir ajuda para meu amigo da área de TI, mas resolvi tentar me virar um pouco sozinha. Entrei no google, lancei a pergunta e optei por resposta da IA. O caminho até que me pareceu fácil. Pronto, requerimento encaminhado, com os comprovantes no arquivo, em conformidade com o exigido. Tentei e tive sucesso! Agora é aguardar pela resposta.
Já percebi que para mim – e certamente não sou a única – essa não é tarefa fácil: só falei com robôs. Disca um número, aperta a opção #1 que direciona para a opção #3 que orienta para enviar uma mensagem por whatsapp cuja resposta é automática… e por aí vai. Ninguém com sangue nas veias me atendeu. Mas estou feliz e orgulhosa em ter caminhado até aqui com as ferramentas disponibilizadas. Vamos aguardar o desfecho.
Se a coisa complicar, já decidi que vou pegar meu carro e irei pessoalmente garantir meu reembolso. Quem sabe uma “coroa” me ajude na reta final. Se for um “coroa enxuto”, charmoso e descompromissado, então… seria genial.
(*) Maria Eliza é podóloga gerontogeriátrica






Gostei muito, umm texto gostoso, bem atual, tem a ver comigo, com 83 anos. Li com muito sentido de bom humor, o que me agrada muito! Parabéns!
Obrigada Tati. Concordo com você, o humor é sempre bem vindo
Valeu o retorno Tati e sabemos bem que o bom humor é essencial mesmo. Abraços
Maria Eliza, um texto gostoso de ler porque nis.mostra a realidade e como ja falaram, numa pitada de bom humor. Obrigada por compartilhar. Felicidades
Humor é importante até para falar de coisas sérias, abraços Francine
Mayos Eliza, que texto espetacular. Gostei muito como testemunhou a sua experiência na loja.
Para isso foi preciso estar atenta, esse foco deve fazer parte do nosso dia a dia, sempre. Abraços
Maria Eliza parabéns pelo texto.
Segunda vez que escrevo
Que bom, sinal que gostou duplamente, abraços querida Suely
Boa narrativa Maria Elisa. Parabéns
Valeu o retorno Sonia, abraços
Parabéns Maria Eliza pelo texto e pela sua capacidade de observação do que está no seu dia a dia ao mesmo tempo em que observa suas próprias “respostas”. Muito bom. É uma das capacidades que se aprimora com a chegada dos nossos cabelos brancos….bj
Pois é Maria Lúcia, algumas vantagens precisamos ter rsrsrs. Abraços
Maria Eliza amei seu texto. Me fez retomar algumas palavras muito usadas que foram deixadas de lado: Coroa , enxuta…
Fazia tempo que não as ouvia.
Parabéns
É um texto sério e divertido, que traz leveza e reflexão. Obrigado pelo retorno Marli, abraços
Maria Eliza, texto maravilhoso. Parabéns!! Bjo
Obrigado pelo retorno Nora, o texto está mesmo excelente, abraços
Maria Eliza escreve de forma leve, agradável um tema sensível de muitas formas. A força na vontade de seguir o curso da vida de forma digna e alegre é uma mensagem linda e positiva – estamos todos precisando de ler mais textos assim não é mesmo? Parabéns pelo texto.
Exatamente, textos como esse nos trazem novos olhares para a vida. Abraços
Maria Eliza, gostei muito do texto. Divertido, leve e mostra as nossas dificuldades com a tecnologia.. desafios diários porque falar com maquinas é muito ruim.. ♀️
Verdade Maria Thereza, as máquinas são irritantes e, às vezes, cruéis, abraços
Gostei do estilo coloquial para este tema up today.
Incentiva atitudes independentes… Muito bom, Maria Elisa
Valeu o retorno para o texto da Maria Eliza Ézio, obrigada e abraços
Li com atenção o texto da Maria Elisa. Achei interessante, descoberta de funcionários acima das 50 anos, estamos ganhando espacio! Boa notícia! Parabéns para a escritora observadora.
E o bonito é que essas pessoas, com mais experiência e flexibilidade, passam bons exemplos para os mais jovens. Abraços Lucy
Que momento gostoso esta troca , Maria Elisa… quando se está aberto a isto, surpresas boas podem vir: um reembolso pode virar um romance rs
Olha só a janela aberta para a vida. É isso mesmo. Abraços Jader