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Reações ao caso da CityLapa

Cleide Martins, Ivani Cardoso, Jader Andrade, Maria Celia de Abreu, Maria Eliza Henriques Silva, Maria Lucia Di Giovanni, Marli C. Henriques, Suely Tonarque, Tatiana Wernikoff

 

Os integrantes do Grupo de Estudos e Reflexões sobre o Envelhecimento, do Ideac, se reuniram nesta terça (26) como em todas as outras terças há vinte e cinco anos, mas desta vez o encontro foi diferente: foi marcado por expressões de emocionada revolta com a notícia trazida pelo jornal Folha de S.Paulo, e por outras mídias, revelando que moradores de um bairro residencial da zona Oeste de São Paulo, chamada Bela Aliança, parte da região conhecida como CityLapa, estão tentando expulsar as cerca de quarenta casas de repouso para idosos que ali funcionam.

É uma forte e evidente manifestação de idadismo. Não podemos deixar passar em branco, não expressar nossa indignação contra comportamentos como esse, sem empatia nem tolerância para com humanos fragilizados, sem flexibilidade para buscar soluções alternativas que possam satisfazer a ambas as partes, sem maturidade para aceitar decisões tomadas democraticamente.

É muito difícil encarar a morte e o envelhecimento, mas isso não nos isenta de praticarmos humanidade: continua sendo uma virtude essencial. Nem sequer estamos mencionando o direito, consolidado em lei, que o idoso tem à moradia digna.

Alguns integrantes do Grupo de estudos e reflexões resolveram deixar mensagens expondo como encaram esse episódio.

A socióloga Maria Lucia Di Giovanni comentou: “Lembrei da expressão comum entre os mais velhos: ‘pensei que já tivesse visto tudo’… Pois bem, foi essa expressão que me veio à cabeça quando fiquei sabendo, através de relatos e imagens, da campanha pelo fim das casas de repouso que está em curso. Estão dizendo aos velhos que eles não podem morar ali pelo fato de serem velhos! Basta estarem ali presentes para deteriorar-se o ambiente, para que imóveis e terrenos sejam desvalorizados. Dá vontade de declarar guerra…

Que mundo é esse onde não há espaço para a dignidade humana? Que mundo é esse onde a passagem de um carro fúnebre não deve ser exposta e

muito menos vista como natural? Será que essas pessoas, que repudiam os velhos, acreditam que não serão velhos logo mais? Por acaso não vamos todos morrer? Não é muito bom saber que poderemos contar com o apoio institucional dessas Casas, se necessário? É difícil observar esse retrocesso civilizatório.”

A psicóloga Tatiana Wernikof também é firme: “Fiquei absolutamente chocada, indignada e raivosa com a atitude do prefeito, da família vizinha da Casa de Acolhimento de idosos e da professora de Pilates. Em um mundo onde a população de idosos aumenta vertiginosamente, essas pessoas esquecem que ficarão idosos logo, logo. Elas também precisarão de acolhimento, de compreensão e de aceitação. Convido a população a se insurgir contra a decisão da prefeitura e informar o maior número possível de pessoas sobre essa atitude desumana, preconceituosa e, por que não dizer, criminosa!”

O sentimento de pena veio para a psicóloga, gerontóloga e influenciadora Suely Tonarque: “Existem encontros mais ricos do que com nossos pais, avós, tios avós, recheados com os irmãos, primas, sobrinhos e os bebês recém-nascidos……e mais as avós das amigas os avós substitutos comemorando a vida, brindando o Envelhecimento e todos atentos para ouvir histórias de nossos antepassados? Celebrando a existência aqui no planeta Terra e a natureza do existir com olhares diversos sobre amor, esperança, alegrias e dores? Não foi isso que aconteceu no dia 25 de maio no bairro da Lapa. Que pena. Triste, assustador e, ao mesmo tempo, bom evidenciar que ainda temos muitos, muitos preconceitos contra os Velhos. Essas pessoas idadistas são dignas de pena, infelizmente. Tantas arrogâncias e onipotências, são dignos de pena, infelizmente.”

Para a psicóloga Marli Henriques, o caso também traz uma enorme indignação. “A velhice irá acontecer para todos que não morrerem antes. É desumano se valer apenas do lucro como uma justificativa para essa retaliação. É importante lembrar que existem profissionais sérios e famílias que dependem desses serviços diariamente. Estes ataques de grupos mostram um grande desrespeito aos idosos, aos funcionários e às famílias que necessitam destes serviços. Perseguição e ataques generalizados não levam a construir moradias cada vez mais dignas para os idosos que dela precisam.”

A pedagoga Cleide Martins demonstra sua indignação: “Será que essa manifestação de desrespeito aos velhos não poderia significar que tal atitude demonstra um profundo desrespeito pelo ser humano, sejam crianças, jovens adultos ou velhos? O Idadismo, na minha opinião, deveria ser crime, tanto quanto o preconceito com negros e gays. Se assim fosse, talvez coibisse atitudes como essa, mas, infelizmente ainda não é. Mesmo coibindo, entendo que lei nenhuma mudaria os princípios de pessoas adultas, profissionais renomados e bem-nascidos como esses que repudiam o convívio com velhos. Enfim, se adultos como esses não sabem que um dia chegarão a ser velhos, vão chorar, vão gemer de dores ou tristeza, e estarão sujeitos a também serem encaminhados para uma instituição de repouso, o que se há de fazer? Haverá choro e ranger de dentes, no mínimo.”

“Desumanidade é a palavra para a revolta dessa gente voltada para o próprio umbigo”, diz a jornalista Ivani Cardoso. “Eu li a notícia e parecia ficção, mas infelizmente é a realidade. Parece que a banalização do mal está crescendo e as pessoas não têm mais medo de mostrar quem são de verdade, como são pequenas, egoístas e cruéis. Esses moradores revoltados é que mereciam, sim, uma campanha para que fossem submetidos a um treinamento pesado para que se tornassem seres humanos mais decentes.”

“O encerramento do nosso encontro de hoje, no IDEAC foi bombástico”, lembra a podóloga gerontogeriátrica Maria Eliza Henriques Silva, completando: “As emoções de todos estavam em ebulição por conta do episódio no Bairro da Lapa, em São Paulo. Convidados a uma escrita comum em nome do Instituto, a minha contribuição se limita a desejar vida longa, muito longa aqueles moradores que se posicionaram contra a presença das ILPI’s  no Bairro.”

O médico e gerontólogo Jader Andrade opina:””Vivemos em comunidade. Para organização da sociedade se criam leis que, por exemplo, orientam as relações entre cidadãos. Ser cidadão traduz, portanto, o saber viver em comunidade. Devem ser valores inegociáveis a responsabilidade com o outro e o respeito humano. As decisões daqueles legitimados para tal devem ocorrer sempre num espaço de imparcialidade e ampla clareza das situações. Desta forma, causa espanto a atitude de moradores querendo expulsar vulneráveis de sua vizinhança, como vimos na Lapa. À justiça cabe a palavra final; ao gestor, viabilizar a decisão. Mas cabe, a todos nós cidadãos, desenvolvermos a tolerância e a capacidade para a resolução de problemas, revendo em nós o que é violento e que inviabiliza o debate e a resolução de modo ético e pacífico.”

Em outra atividade do Ideac, alguns dos seus participantes também manifestaram espanto, estranheza e profunda tristeza, como conta a psicóloga Maria Celia de Abreu, coordenadora do Ideac: “No Projeto Moradias do Envelhecer, acaba de ser lido o romance Último Olhar, de Miguel Sousa Tavares; ali, em Espanha, em plena pandemia da covid-19, velhos que estão sendo transportados de uma casa de repouso para outra são recebidos a pedradas e rojões pelos habitantes da aldeia para onde são levados: os moradores não querem essa proximidade. É impossível não estabelecer um paralelo – só que há uma diferença: o que lemos é ficção; o que está acontecendo em São Paulo é realidade. É tão mais fácil a gente se indignar com uma realidade ficcional…”

Como muito bem lembrou Egídio Dorea, médico e professor da USP, há cerca de sessenta anos Robert Butler constatou o preconceito contra velhos num bairro próximo a Washington, nos Estados Unidos, cujos moradores fizeram uma forte campanha para que não se construísse ali um prédio onde iriam morar pessoas velhas. Foi aí que Butler forjou o nome “idadismo”. O verdadeiro motivo da revolta dos moradores (não expresso e não assumido às claras) era rejeição a pessoas velhas (que ainda por cima poderiam ser pobres e negras), mas o motivo alegado era que a área, habitada por pessoas pertencentes à classe média, seria desvalorizada no mercado imobiliário. Repetindo: isso foi há cerca de sessenta anos!

Quanto serviço tem pela frente quem acredita no envelhecimento como uma das etapas da vida humana, tão digna e valiosa como qualquer uma das etapas anteriores! Quantas crenças falsas e prejudiciais a serem rompidas! Vamos lá: vamos nos informar, vamos erguer nossas conclusões sobre fatos, e vamos entrar nessa batalha contra o idadismo, cada um usando as armas com as quais tem mais destreza!

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Marli Corrales Henriques
Marli Corrales Henriques
9 horas atrás

Manifestar indignação é o mínimo que podemos fazer.

dearaujolucy@gmail.com
dearaujolucy@gmail.com
9 horas atrás

Faço parte do grupo do IDEAC, endosso e aprovo toda nossa indignação escrita pelos nossos integrantes. Agradeço a inciativa de mostrar nosso repúdio pela atitude de não aceitação do idoso no bairro da Citylapa. Sou idosa e me senti agredida e desvalorizada, é isso que os moradores do Citylapa querem transmitir?

Gelsomina Iaccino Petrone
Gelsomina Iaccino Petrone
8 horas atrás

Tenho enorme admiração pelo grupo do Ideac e essa manifestação de vocês só fez crescer essa admiração.
Parabéns realmente esse fato é deprimente e causa incredulidade em todos nós.
Parabéns pelo posicionamento.

Aldeci
Aldeci
8 horas atrás

Bairro: “Bela Aliança”
Inacreditável…
moradores que se unem fazem alianças desrespeitosas contra velhos. Isto é inaceitável