Por Maria Celia de Abreu

Há uma fala popular que diz que podemos focar na metade cheia da xícara, ou então na metade vazia, simbolizando que uma situação pode ser percebida como tendo algo de positivo, não se dando ênfase ao que tem de desagradável; ou, ao contrário pode-se ressaltar o que tem de negativa ou de faltosa, esquecendo suas vantagens. Lembrando que a sabedoria popular também ensina que toda moeda tem duas faces, que todo evento tem vantagens e desvantagens, lucros e perdas, essa conversa sobre a metade cheia ou a metade vazia fica bem interessante.

Uma situação em que é preciso se fazer um esforço para se focar na metade cheia é quando um dos membros da família cai doente. Nada é mais indesejado e inconveniente. E nesses últimos tempos muitos de nós passaram, estão passando ou ainda vão passar pelo problema.

Com um doente em casa, a dinâmica daquele lar é obrigada a se modificar. As funções, que estavam bem distribuídas, com os mais competentes para cada tarefa dando conta delas, precisam ser redistribuídas; tanto pode ser porque a pessoa doente é obrigada a delegar a outros o que lhe cabia fazer, como porque novas ações precisam ser cumpridas, para que o doente possa ser cuidado. Quanto mais longo o período da doença, mais a situação se complica.

Junto com essa redistribuição de funções, quase que só uma reorganização de situações práticas da vida,  o adoecer desperta emoções. São comuns a preocupação, ansiedade, impotência, revolta, insegurança, tristeza, irritabilidade, até depressão. Sentimentos até então pouco conhecidos, não habituais, podem tomar conta do doente, bem como dos familiares sadios que estão à sua volta. Podem causar estranheza e até assustar.

Porém, é aí que a gente descobre o lado cheio da xícara. Há o doente que se preocupa em isentar de sofrimento o seu cuidador, em vez de pensar primeiro na sua própria dor. Vemos o doente que levava a pecha de moleirão lutar tenazmente para se recuperar. Um membro da família que parecia desligado assume cuidados e responsabilidades que ninguém imaginava que fosse capaz. As pessoas daquele grupo familiar dão apoio e incentivo umas às outras; quando uma ameaça fraquejar, outra a levanta. Também vemos que aquelas que não têm disponibilidade para encarar o sofrimento, talvez porque naquele momento estão emocionalmente enfraquecidas por outras circunstâncias, são compreendidas, desculpadas e continuam sendo acolhidas. Ressalta o quanto cada membro da família gosta daquele que adoeceu, se incomoda por ele estar doente, faz tudo o que pode para ajudá-lo; o que, por certo, faz bem para a autoestima do doente… se não tinha essa certeza, agora fica bem claro: é uma pessoa muito importante e muito querida!

Claro está que é preciso ter muita paciência, humildade, tenacidade e esperança para ultrapassar uma fase de doença em família. É difícil reconhecer limites e fraquezas, que nos surpreendem quando são detectados. É necessário refletir sobre o que está acontecendo, e como isso está nos afetando. Com frequência, é preciso corrigir algumas reações e comportamentos inadequados, o que não é nada fácil, nem mesmo quando se está atravessando uma situação normal. Claro está que a xícara tem uma metade vazia, não adianta querer negar essa verdade.

Porém, mesmo de uma situação indesejável e difícil é possível se aprender boas lições, sobre nós mesmos e sobre os outros. É possível se descobrir virtudes insuspeitadas e, acima de tudo, se ter a certeza de que entre aquelas pessoas afetadas por uma doença rola uma grande energia feita de amor. Essa é a metade da xícara que está cheia!