Dra. Yayá de Andrade (*)
Talvez porque envelheço, cada vez mais percebo a importância de reflexões espirituais; sabendo que, na minha idade, depois de tantos anos de formação profissional e de trabalho, não quero mais estudar ou ler ou escrever… porém, quando alguém apresenta ideais fortes, sinto necessidade de refletir sobre eles e depois contar para outros o que aprendi.
No passado, havia situações que impediam que as pessoas se comunicassem; nevascas no Canadá, enchentes no Brasil, para dar exemplos de dois países que amo, isolavam as pessoas; mas agora somos privilegiados: internet, Zoom, WhatsApp e outras tecnologias nos possibilitam manter contacto 24/7 com todos que queremos. Sorte minha que vivo nestes tempos e posso usar esses novos caminhos para relatar meus pensamentos!
Ontem, participei de uma conversa importante sobre “deixar o passado pra trás” – ou como se diz em português: águas passadas não movem moinho.
Imaginem uma metáfora – você está em um barco… junto com muitas pessoas: algumas de quem não gosta; outras que pensam e agem de forma que você não aprova; mas também estão ali pessoas que você ama e que amam você, de quem cuida e que cuidam de você. De repente… surge no fundo do casco um buraco! Haverá alguma solução? Talvez… se todos os passageiros se juntarem, todos sem exceção, consigam “fechar” esse furo e sobreviver! O que você faria – deixaria de lado seus julgamentos, sentimentos e avaliações anteriores e trabalharia ombro a ombro com todos? Ou será que abandonaria o barco? Desistiria de lutar para salvar a situação, por não querer batalhar junto com parte dessas pessoas?
Vivendo no Canadá, aprendi que “justiça restaurativa” reflete a ideia de que ninguém deixa o barco da nossa metáfora: sempre é possível acreditar no papel que todos temos no presente, apesar do que fizemos e proclamamos no passado. Precisamos que as pás do moinho se movimentem, e as águas que já passaram não vão fazer isso.
Como psicoterapeuta, pude ajudar muitas pessoas, confortando-as em seu sofrimento e angústia. Também aprendi com elas; entre outras lições de vida, me dei conta de que, sendo humanos, temos nossas vulnerabilidades, assim como somos seres impermanentes. Aceitar essas condições é a chave para esvaziar o sofrer; é o que me proporciona serenidade.
Transgressões passadas não habitam nossa memória para que nos arrependamos delas; eu as considero de preferência como alavancas do bem; são experiências que servem para ajudar outros, que podem hoje estar vivendo situações difíceis, até infernais, caminhos que já conhecemos, e cujas dores já sabemos.
Só mais uma última questão: vamos lembrar que provavelmente vamos navegar de novo em outros barcos com buracos.
(*) Dra. Yayá de Andrade é graduada em Psicologia no Brasil, e continuou seus estudos no Canadá e Estados Unidos. Atualmente aposentada, é voluntária na Cruz Vermelha Canadense, no setor de Segurança e Bem-estar.
(Foto Pixabay)






Nossa linguagem popular tem sabedoria… ” águas passadas não movem moinhos”. Acho que hoje, muito mais do que quando jovem , sei que é assim.
Gostei Yaya.
A idade não traz só limitações, traz também novos olhares para o passado. Abraços Maria Lucia
Eu sempre tenho refletido sobre como nosso foco muda através da nossa vida, nossa idade, aprendizagem, oportunidades e tudo mais…e sempre tem algo novo para ver, admirar e ficar grato. Sempre.
Muito bom seu texto Yayá
Morar fora tem muitos percalços e também muita aprendizagem. Adorei
Aprendizagem é para sempre Sonia, Yayá tem muita experiência e histórias de vida para compartilhar. Abraços
Mudar pode ser um jeito de viver mais abrangente, enquanto ficar no mesmo lugar pode ser um jeito de hábito, difícil aos olhos de quem não acha fácil se adaptar a condições diferentes,
AS velhices são diferentes e lidar com mudanças não é nada fácil. Abraços
O poder da cooperação no presente , diante de furos no casco, é essencial para que águas passadas, nao nos perturbem no futuro!!
Pois é Jader e é preciso sabedoria para deixar o passado no seu lugar. Abraços
Gostei da metafora
A navegação é o caminho permente de nossa vida. Às vezes mares turbulentos, às vezes aguas calmas. Vamos prosseguindo e vivendo o dia a dia, usando e reformulando o passado. Gostei YaYa.
É isso mesmo Tatiana, o passado não pode guiar os passos do presente. A vida é movimento. Abraços
O seu texto me presenteou ao mencionar nossa impermanência. Muito bom, muito obrigada Yayá.
Textos que nos levam à reflexão são essenciais. Abraços Maria Eliza
No Brasil temos ótimos músicos que falam de movimento… e impermanência nas suas melodias.
Parabéns Yaya!
Você me levou refletir o ficar querendo a volta de um passado. Aguas passadas …
Exatamente. O passado tem e terá sempre seu lugar em nossas histórias, mas não deve guiar os rumos do presente. Abraços Marci
Oiii bom dia.
Viver é um desafio constante.
Viver, envelhecer, se cuidar, valorizar o presente. Vamos seguindo em frente. Abraços Suely